Sandra Muteteri Heremans traz ao Lumiar Cité os silêncios da História
Em The Space Between the Silences, a artista ruando-belga cruza cartas de um estudante africano na URSS com a memória da diáspora e da Guerra Fria.
A artista e cineasta ruando-belga Sandra Muteteri Heremans inaugura a 10 de outubro, às 17h, a exposição The Space Between the Silences no Lumiar Cité, em Lisboa. Patente até 20 de dezembro, a mostra revisita histórias da diáspora africana, dos movimentos socialistas africanos do pós-independência e da herança política da Guerra Fria. No centro está um novo filme construído a partir de um arquivo de cartas de um estudante da África Oriental na União Soviética dos anos 1970, acompanhado de colagens e mapas de investigação. A proposta: perguntar quem conta a História, o que fica por contar e como esses silêncios continuam a moldar o presente.
Memórias íntimas contra as grandes narrativas
Em The Space Between the Silences, Sandra Muteteri Heremans parte de histórias íntimas para questionar a forma como a memória é transmitida, como os silêncios são herdados e como determinadas vozes acabam por se tornar dominantes nas grandes narrativas da História. São histórias entrelaçadas pela experiência da diáspora, pelos movimentos socialistas africanos que emergiram depois das independências e pelo peso político deixado pela Guerra Fria.
Ao aproximar passado e presente, a artista aborda a transmissão intergeracional como um espaço de construção de mundos diaspóricos. É aí que memórias pessoais, arquivos e experiências vividas se cruzam com processos políticos e históricos de escala muito maior, num exercício que ganha uma ressonância particular num tempo de novas disputas pela memória.
Um filme feito de cartas e de silêncios
A peça central da exposição é um novo filme, encomendado pela Maumaus/Lumiar Cité e pelo WIELS – Centre d’Art Contemporain, em Bruxelas, com produção de Auguste Orts. O ponto de partida é um arquivo de cartas: Heremans acompanha a correspondência de um estudante oriundo da África Oriental que se encontrava na União Soviética na década de 1970.
Cruzando found footage com narração, o filme procura revelar aquilo que permanece sob — ou entre — os silêncios dos registos históricos. Situado na fronteira entre a ficção e o documentário, o trabalho desloca o olhar das grandes estruturas políticas para as experiências que lhes dão corpo: a nostalgia, a alienação, a amizade, a solidariedade e o sentimento de pertença.
O tema não é novo no percurso da artista, que já se tinha debruçado sobre os estudantes africanos na URSS no projeto In Search of Gilbert and Idrissa: African Students in the USSR, apresentado no âmbito do BAK.
Colagens, mapas e conhecimento corporizado
Ao lado do filme, a exposição reúne colagens e mapas de investigação que documentam o percurso da artista através de arquivos, histórias orais e formas de conhecimento corporizado. Mais do que material de apoio, estes elementos tornam visível o processo de pesquisa que sustenta a obra e o modo como Heremans vai cosendo fragmentos dispersos numa narrativa possível.
O resultado, segundo a apresentação da mostra, é uma reflexão particularmente atual sobre quem conta a História, aquilo que fica por contar e a forma como essas ausências continuam a moldar o presente.
Entre o Ruanda, a Bélgica e a antiga União Soviética
Sandra Muteteri Heremans é artista plástica e cineasta, com formação em história da arte e antropologia. A sua prática abrange o cinema, a investigação arquivística, a instalação e a lecture-performance, explorando as formas como as histórias pessoais se intersectam com os legados artísticos e políticos do século XX. O seu trabalho desenvolve-se entre o Ruanda, a Bélgica e as histórias da antiga União Soviética, pondo em diálogo materiais de arquivo, narrativas familiares e investigação histórica.
Entre os seus filmes conta-se La Mazda jaune et sa sainteté (2018), que estreou no Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) e passou depois por festivais como o DOK Leipzig, o Ann Arbor Film Festival e o International Short Film Festival Oberhausen. Fora do circuito dos festivais, a sua obra foi apresentada no Bozar (Bruxelas), no The Mosaic Rooms (Londres), na Contour Biennale (Mechelen) e na Fundação Boghossian (Bruxelas). Mais informação sobre a artista pode ser encontrada na página da sua residência no WIELS.
Uma parceria entre Lisboa e Bruxelas
A exposição resulta de uma parceria entre a Maumaus/Lumiar Cité e o WIELS – Centre d’Art Contemporain, onde será apresentada no próximo ano, e conta com o apoio do Departamento de Cultura, Juventude e Media do Governo da Flandres. A Maumaus/Lumiar Cité é uma estrutura financiada pelo Ministério da Cultura/Direção-Geral das Artes e apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Junta de Freguesia do Lumiar.
The Space Between the Silences pode ser visitada no Lumiar Cité (Rua Tomás del Negro, 8A, 1750-105 Lisboa) de 10 de outubro a 20 de dezembro de 2026, de quarta a domingo, entre as 15h e as 19h, ou através de marcação. O espaço é servido pelas carreiras 798 (paragem Rua Helena Vaz da Silva) e 717 (paragem Av. Carlos Paredes) da Carris e pelo Metro do Lumiar (saída Estrada da Torre). Novidades no Instagram e no Facebook do Lumiar Cité.
Depois de Lisboa, o filme e a investigação de Sandra Muteteri Heremans seguem para Bruxelas — mas é no Lumiar que se dá o primeiro encontro com estas cartas e com os silêncios que as atravessam. Uma oportunidade para ouvir, finalmente, vozes que a História deixou à margem.
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