Rita Gaspar Vieira expõe «Tabique» na Salgadeiras até junho
A artista parte do chão do seu atelier para construir uma poética do lugar, entre texturas, fissuras e a memória do que habitamos.
A Salgadeiras Arte Contemporânea acolhe até 20 de junho de 2026 a exposição Tabique, de Rita Gaspar Vieira. A mostra, patente de quarta a sábado entre as 14h30 e as 19h30, parte do chão do atelier da artista para revelar texturas, fissuras e composições cromáticas onde o negro do grafite e o verde do sulfato de cobre criam um diálogo entre ausência e presença, entre o que permanece no pavimento e o que se transforma em objeto artístico.
O Chão como Ponto de Partida
Em Tabique, Rita Gaspar Vieira parte de um gesto quotidiano para construir uma poética do lugar. O chão do seu atelier — superfície sedimentada pelo uso e labor diários — torna-se o ponto de partida de composições cromáticas que oscilam entre o negro do grafite e o verde do sulfato de cobre, numa dialética de ausência e presença. O que continuará no pavimento e o que se transforma em objeto artístico: esta é a questão central que atravessa toda a exposição.
Sobre esta superfície, surgem ninhos — miniaturas de tabiquesencontrados na Natureza e registados no atelier de RGV — que o mesmo soalho veio a transformar de coisa em imagem em desenho. “Um processo que se repete nas suas inúmeras variações de cromatismo, de forma, de tempo”, escreve Ana Matos no texto da exposição. A artista recorre a suportes de exibição museológicos para preservar estes ninhos, conferindo-lhes uma dimensão de permanência e proteção.
Caídas de uma nogueira, cascas de noz surgem na exposição como metáfora do abrigo — uma espécie de tabique natural que pode acolher animais ou, mais ainda, a memória de algo que já não está. Abrigo (para o que não tem nome) inicia e reinicia o percurso expositivo, convocando a rapariga dos óculos escuros de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”
A Poética do Tabique
A palavra “tabique” tem origem no árabe taxbīk, “coisa ajustada a outra”, e é etimologicamente uma ação — a de ajustar uma matéria a outra, argila ou terra que se junta à madeira, nessa ideia de construir e reconstruir um abrigo. Na prática artística de Rita Gaspar Vieira, o verbo não é apenas o início: é em si mesmo matéria e processo.
A ação de manufacturar o papel, de o verter sobre uma superfície, de resgatar a memória de um lugar e de um tempo — é o papel que, em estado líquido, se ajusta ao chão; o algodão que molda objetos de uso diário; a membrana que une dois espaços, com a água como elemento essencial e vital. “É o devir como exercício de memória que em muito caracteriza a prática artística de RGV”, escreve Ana Matos.
A exposição encontra assim no tabique — estrutura de separação e suporte ao mesmo tempo — a metáfora perfeita para uma prática artística que vive da fronteira entre o quotidiano e o extraordinário, entre a matéria e a memória.
Rita Gaspar Vieira: Uma Prática no Cruzamento do Desenho e da Tridimensionalidade
Rita Gaspar Vieira nasceu em Leiria em 1968 e vive e trabalha entre Leiria e Lisboa. A sua obra opera no campo do desenho e da tridimensionalidade, problematizando relações entre a memória privada e a memória coletiva de lugares habitados. O uso da água é determinante na sua prática, nomeadamente na produção de papel de algodão artesanal que, na sua obra, se constitui como génese do desenho e das instalações.
Representada em coleções como a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, o Fundo de Aquisições de Arte Contemporânea (FAAC) da Câmara Municipal de Lisboa, a Coleção António Cachola, a Coleção FLAD e o MACS — The Contemporary Art Museum of Sorocaba, no Brasil, Rita Gaspar Vieira é representada pela Salgadeiras Arte Contemporânea. A Salgadeiras localiza-se na Avenida Estados Unidos da América, em Lisboa (entrada pela Rua Coronel Bento Roma), contacto disponível em salgadeiras.com.
Tabique é uma exposição sobre os lugares que habitamos e que nos habitam, sobre os materiais que nos protegem e sobre a memória que persiste quando tudo o resto se transforma. Uma visita essencial para os próximos dias de junho em Lisboa.
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