A Sul @ Casa Capitão (22.04.2026)
Há tristeza no luto. Há beleza no luto.
Texto por Miguel Barba e fotografia por Alice Neutel.
O aperitivo foi servido no final do Verão passado, nos Jardins do Palácio Pimenta, durante o Festival Cuca Monga, a casa que “abriga” Cláudia Sul, em moldes mais simples, despidos e intimistas. Agora chegou o momento de conhecer o resultado, que dá pelo nome de “QUE QUE QUE” e que se afigura como mais um bonito álbum que a música nacional vê editado este ano, com o apoio da GDA. A Casa Capitão, muitíssimo bem composta, foi o local escolhido, dando continuidade a um papel crucial na divulgação da música portuguesa, que vinha sendo desempenhado pelo Musicbox.
O início, com Pedro Rodrigues, faz-se com stand-up e a história dos três porquinhos contada aos empurrões, para um final peculiar, tudo para introduzir um dos temas centrais, o luto, reflectido na capa e nas canções de A Sul.
Eis que entra a banda e Cláudia Sul. Após um compasso para que tudo fique pronto tem início. Ai menina era tarde de mais a abrir. «QUER QUER QUER» começa a trocar-nos as voltas e depois saltita deliciosamente entre o pop e a melancolia lusitana. A dedicatória aos dois avôs que criaram o disco antes de sair da «Cepa Torta», no seu registo de baile pop à la portuguesa, com mui bom gosto.
«De Mansinho» é mesmo isso, mas entranha-se, com o seu pop infundado de jazz. Nem tudo o que chega de mansinho é agradável. Já «Metáforas» é exímia na forma como combina dor com uma vontade de dançar. De nos sentimos tristes e felizes ao mesmo tempo.
«Tela» apresenta-se numa versão mínima com as teclas de Catarina Branco a definirem tudo e a voz de Cláudia Sul a fazer o resto, até surgir, bem coladinha, «Como é Bela», com uns salpicos de tropicalismo com inspiração de ambos os lados do Atlântico.
A Alice Artur, artista plástica, cabe a leitura de um texto sobre a morte. Somos apenas nós, a única espécie que sabemos que vamos morrer. O texto, longo, encaixou perfeitamente. Durou o tempo exacto.
«Agridoce» tem a percussão que marca a canção e o sentimento é mesmo esse. «Acumulador» na sua bossa nova que desagua num riff que confere à canção uma toque mutante e a capacidade de absorver e crescer, absorver e crescer… No fundo acumular mas “Essa areia em mim / Vai ser meu fim”.
«Vinho de Caixa» conta com o pai em palco, o filho do agricultor que deixou de conseguir ter o seu vinho à mesa. O dueto entre pai e filha foi verdadeiramente bonito e mais não escrevo porque as palavras não fariam de todo jus ao momento.
«Bleba» funciona como um escape. Um regresso ao passado necessário e o momento perfeito para apresentar a banda, composta por Catarina Branco (na sua persona de palco) nas teclas, Inóspita na guitarra elétrica e Marta Fonseca na clássica e responsável pelos arranjos no álbum. O Baixo e a bateria ficaram a cargo de Gonçalo Bicudo (também responsável pela mistura do álbum) e Pedro Almeida, respectivamente.
Segue-se um «Gin», generoso mas que é complicado de desfrutar, e acabamos com o telefonema que atravessa «Era Farfisa» a tocar no sistema de som.
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