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Theresa Andersson

Sodra Teatern, Estocolmo, 27 de Março

O primeiro contacto com Theresa Andersson deu-se em 2008 quando tropecei em “Humming Bird, Go!”, da sua autoria. Um dos bons álbuns pop da colheita desse ano, diga-se. Andersson é sueca e aquele talento sueco para o pop era bem evidente, porém podiam sentir-se outras influências, outras vivências, fruto da emigração precoce para Nova Orleães em 1990, com o objectivo de aprender a tocar violino. Desde logo integrou a formação de uma banda e por lá se manteve durante nove anos. Em 1999 decidiu-se aventurar a solo. Foram vários os lançamentos desde então mas foi, indubitavelmente, “Humming Bird, Go!”, o que mais sucesso lhe proporcionou.

Talvez tenha sido injusto há algumas linhas atrás. Talvez, não. Fui injusto. É que o talento, no que diz respeito à escrita de canções pop não se resume à Suécia. É mais um fenómeno Nórdico. Talvez o frio que muitas vezes se faz sentir lá fora, lhes aqueça os corações e os leve a compor assim. Um tema que daria pano para mangas mas não é o que se pretende fazer nestas linhas que estão agora a ler.

Theresa Andersson adiciona uma componente extra aos seus temas, o que, inevitavelmente a afasta um pouco dos demais companheiros de profissão nórdicos: a já longa estadia nos Estados Unidos. Não é complicado descortinar uma pincelada de soul ou uma aura gospel nalguns temas.

Foi pouco tempo antes de partir para Estocolmo, para umas curtas férias, que descobri que Theresa Andersson tinha um concerto agendado para o dia 27 de Março num tal Sodra Teatern (que um pouco mais à frente terá direito a pelo menos um parágrafo porque o espaço revelou-se simplesmente deslumbrante). Daí até estabelecer os devidos contactos para assegurar os bilhetes, foi um pequeno passo. Restava então aguardar pelo dia do concerto, enquanto aproveitava o muito de bom que Estocolmo tem para oferecer. Dia 27 de Março era o último dia em Estocolmo e que melhor forma para me despedir de uma cidade que tão bem me recebeu do que com um concerto?

Antes de passar ao concerto, uma referência à sala que recebeu Theresa Andersson e o público. O Sodra Teatern localiza-se na zona de Slussen, em Estocolmo e a sua sala principal é simplesmente daqueles sítios que nos deixam de boca aberta. Foi inaugurada em 1859 e acreditem quando vos digo que ainda hoje consegue manter o brilho e grandeza de tempos idos. Tentei pensar nalgumas palavras que permitissem fazer uma descrição fidedigna da sala mas penso que iria ficar sempre a faltar algo. Acho que não tenho muito jeito para descrever locais. Em vez disso convido-vos a uma pesquisa rápida no Google por Sodra Teatern, e a verem por vocês mesmos. Vale bem a pena, vão por mim!

Passe-se então ao concerto. Concerto que teve um formato diferente do habitual, ao ter uma pausa de 15 minutos pelo meio. Na altura pareceu um pouco estranho mas depois até acabou por fazer sentido. É que foram duas partes completamente distintas e acho que sou justo quando digo que a segunda foi claramente superior à primeira. Mas lá chegaremos!

Theresa Andersson transborda simpatia. É gira (tinha de o dizer…). Mexe-se em palco com uma leveza que nos hipnotiza. É a autêntica one woman band, sendo que os loop pedals desempenham um papel fulcral, registando o som dos vários instrumentos e da sua voz, para os sobrepor progressivamente, camada por camada. No fim pareceque temos uma banda em palco, tal é a fluidez e desembaraço que evidencia entre os muitos pedais que a rodeiam.

A primeira parte do concerto centrou-se, quase na sua totalidade em “Humming Bird, Go!”. Sem grandes surpresas os temas «Na Na Na» e «Birds Fly Away» foram aqueles que foram recebidos com maior entusiasmo, por um público eclético e surpreendentemente conhecedor da obra da sueca residente em Nova Orleães, cidade referida por diversas vezes ao longo do concerto. Durou pouco mais de trinta minutos esta primeira parte, que teve momentos agradáveis mas que nunca encheu as medidas por completo.

O intervalo levou o público a uma rápida deslocação ao Sodra Bar (mais um excelente espaço do Sodra Teatern), deixando a zona num estado semi-caótico. Conclusão: acabei por dar meia volta e regressar ao lugar algo prematuramente.

A segunda parte adquiriu um cariz mais experimental e variado. Houve um cover de «See-line Woman» de Nina Simone (reconheço que não sabia que o original era dela e quando ouvi a música lembrei-me imediatamente da senhora Leslie Feist). Houve um dueto simulado, em que a própria Theresa Andersson se encarregou de cantar com dois tons de voz distintos. Houve espaço para algum improviso musical, normalmente alternado entre o violino e percussão. Não posso deixar de dizer que quando Theresa Andersson entrava na área do improviso, a sua música perdia clarividência. Será, por ventura, um aspecto a rever nas apresentações ao vivo.

Durante um tema, logo no início da segunda parte, o palco ficou mais preenchido. Dois convidados suecos, de que não me consigo recordar dos nomes, surgiram para acompanhar Andersson, um ao piano e outro na viola. As despesas vocais, essas, foram repartidas pelos três, numa interpretação dominada pela simplicidade, com arranjos simples mas capazes de captar a atenção do público.

O fim do concerto ficou marcado por um longo aplauso e um sorriso rasgado na face de Theresa Andersson que, ao longo de todo o concerto mostrou uma óptima disposição e vontade de comunicar como público. Quanto ao teor das conversas – muitas vezes monólogos como devem imaginar – que tiveram lugar no palco do Sodra Teatern não posso acrescentar muito porque o sueco foi a língua utilizada.

No final, o balanço foi positivo. Um concerto eficaz e bastante agradável ao ouvido que, mesmo não tendo conseguido deslumbrar, proporcionou um belo serão a quem decidiu ir ao Sodra Teatern de Estocolmo no dia 27 de Março.

Tack!



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