Um Homem na Cidade 3 – Vicente Alves do Ó

Um Homem na Cidade #3

Paris em Lisboa

Não, não se trata da loja que fica no Chiado e que continua a fazer as delícias de muitos portugueses. É o cinema abandonado ali perto da Basílica da Estrela, entalado por uma bomba de gasolina e um prédio de habitação.  Todas as vezes que ali passo, fico sempre com aquela sensação que a cidade merecia que o reabilitassem. Não faço a mínima ideia a quem pertence, percebi por alguns sítios na internet que existe gente que pensa o mesmo que eu, mas ainda assim, o tempo passa e não vejo o vislumbre de uma situação que nos satisfaça, nem o fim daquele cadáver que permanece feito fantasma numa cidade que merece amor, atenção e dinheiro. Infelizmente todas as boas vontades do mundo não chegam para cuidar das cidades. O dinheiro é um bem fundamental. Chamá-lo bem é que não me fica nada bem, nem me parece a palavra ideal. Mas  a verdade é que, com dinheiro, talvez tudo se resolvesse num instante ou num par de anos. E se dinheiro houvesse, bastava então, toda a papelada resolvida ( penso que o espaço pertence à Câmara, mas não tenho a certeza) , a burocracia tratada e depois um plano para o destino daquele que já foi um dos cinemas mais bonitos da capital. E é sobre isso que mais me apetece pensar. O destino e não o cadáver. Às vezes dou por mim, sempre que ali passo, a viajar pela imaginação e a programar aquela sala que vi pela última vez no filme de homenagem à cidade de Lisboa. Uma programação dedicada ao cinema português e às novas dramaturgias. Uma casa portuguesa, com certeza, de nome Paris, mas que não deixaria de ser lisboeta. Questionamo-nos muito sobre as funções dos espaços culturais, sobre a sua manutenção, função, geografia. Os sucessivos governos tentam ( uns mais que outros) encontrar soluções viáveis para uma ideia que continua a persistir: que a cultura é cara e que custa muito pagá-la. Pois agora façam um exercício muito simples. Apagam de Lisboa todos os edifícios que, de uma forma ou outra, têm como finalidade a vida cultural da cidade. Apagem o Centro Cultural de Belém, o S. Carlos, o Nacional, o Tivoli e o S. Jorge, o Pavilhão Atlântico e o Coliseu dos Recreios. E já agora apaguem também todos os museus, galerias, e porque não, igrejas, palácios, monumentos e o Cais das Colunas. Apaguem tudo. O que fica? Fica a triste imagem de um lugar chamado cidade, onde vivem pessoas esmagadas pela força bruta, com que o automóvel redesenhou tudo. A vida do cinema Paris ainda vai a tempo de ser ressuscitada. Lisboa está cheia de gente ávida por fazer coisas, mostrar, aplaudir, emocionar-se. Estes lugares – num mundo que, a cada dia que passa, promove a solidão através das novas tecnologias – são as últimas catedrais da humanidade. Onde existe a verdadeira ideia de democracia e onde a fé, a política, a cultura, o colectivo, são mais do que simples palavras que classificam acções – são acima de tudo, razões inequívocas para que continuemos a viver em comunidade.

Na minha imaginação, Paris seria o espaço para todo o cinema português e para o novo teatro. Os novos dramaturgos que andam por aí a escrever sobre nós. E aposto que há muita gente que gostaria de ouvir o que eles pensam desta terra atlântica.

Crónicas Anteriores: #1 – Tanta Lisboa para ver e tão pouco tempo // #2 – Menos tempo que um video do youtube

Ilustração de Bruno Martins



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