EmPrincipio#9 – Texto de Pedro Saavedra Ilustração de Nuno Ribeiro

ENPRINCIPIO #9

O Bolo faz-se

Proponho-te um exercício; como é um exercício de liberdade vou tratar-te por tu: Todo o dinheiro do mundo, em todas as suas formas físicas, líquidas, brutas e abstratas é recolhido por uma instituição idónea e independente, aceite por todas as nações e credos do mundo, no espaço de uma semana.

Pausa para aceitares a ideia… se já estás pronto para a ideia, o exercício avança nos parágrafos seguintes.

Recolhido e armazenado o dinheiro, de forma rápida e eficaz, num cubo transparente com dimensões logísticas possíveis, todo o dinheiro do mundo é triturado, temperado e cozinhado de forma a que mesmo os seus fumos e naturais excreções sejam condensados para que nada se perca.

Unificado e cozinhado, todo o dinheiro do mundo é agora um bolo de tamanho tradicional, passível de ser exposto numa mesa. Com bom aspecto e a cheirar a bolo acabado de fazer, o bolo está pronto a ser servido aos seus convidados.

Num ato histórico e ímpar, toda a humanidade é convidada em convite selado com aviso de recepção. Excepcionando a minoria aceitável daqueles que não têm morada fixa, ou são analfabetos para assinarem a notificação formal, dos cerca de 6000 milhões de convites enviados, 100 milhões aceitam o convite, a tempo, e de portes pagos fazem mala para um ou dois dias, como referido na notificação formal e avançam para o cubo transparente colocado num daqueles países neutrais habituados a cerimónias deste tipo.

Aceitando que em vez de um pesadelo económico, este é um sonho de produção internacional possível, temos agora, e depois de uma pequena percentagem não conseguir comprar bilhete, encontrar alojamento ou à chegada não conseguir passar as necessárias verificações de identidade e inspeções de entrada, cerca de 10 milhões de seres humanos estão agora à volta de uma grande mesa, dentro de um cubo transparente a olhar para um bolo de aspecto apetitoso com cerca de 22 quilogramas.

Aproveitando a espera prolongada para sentar todos os convivas em todos os lugares disponíveis, aceitando a prioridade a deficientes, mulheres grávidas, pais com filhos de colo, a necessária descrição em não juntar convidados beligerantes e o obséquio perante os líderes e representantes diplomáticos de povos organizados de mais para irem todos juntos para o lado do sol ou para o lado da sombra, alguns aproveitam para ir fumar um cigarrinho, ou vender, com lucro, o seu lugar a um dos muitos que ainda contornam o cubo à procura das entradas de última hora.

35 minutos depois, e seguindo a agenda aceite e aprovada previamente por todos, a organização, porque existe sempre uma, decide fechar as portas, avisando pelos altifalantes do cubo o seu encerramento. Relembrado em 7 línguas nas placas digitais junto às portas de entrada e às portas dos lavabos e insistida pelos milhares de voluntários com a palavra staff/personnel/personal/pessoal/Yuángōng/bastono/персонал escrita. A porta está fechada e a lotação aparece nos ecrãs: 1 milhão de pessoas estão dentro do cubo, a cerimónia vai começar.

 

Crónicas anteriores aqui.

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Nuno Ribeiro



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