Avulsa Cénica – Miguel Loureiro

Avulsa Cénica #4

Fim de Temporada

As temporadas dos teatros terminam a Julho, mês de balanços, de redimensionar as ambições, de refrear os objectivos, de prometer mais e melhor, ou pior, de fechar portas de forma permanente. Esta conversa de fechos definitivos, já ouvimos nós neste ano de 2013 várias vezes. Dramatismo oblige.

Este ciclo de Setembro a Julho, mais dia menos dia, pode construir trajecto, tendência, discurso? Pode afirmar escrita, pensamento, beleza, no próprio ritmo da cidade? Que trabalhos programar pelo Outono? Diferentes dos do Inverno? Uma comédia de portas aguenta-se na austeridade grave de Fevereiro? A grande aposta da lista costuma ficar para florir na Primavera, mas tem de ser assim? Eixo em Abril? De que perímetro de intenções? O que traduz hoje centrar uma filosofia de programação no teatro de Estado de Racine ou nos sortilégios da psique antecipados por Hauptman? Cidades meridionais aguentam Gogol em Junho? E os naufrágios de O’Neill, servem a insularidade de Castelo Branco? Quem pensa estas psicogeografias (obrigado Debord) do teatro que é apresentado nos diferentes meridianos de um país como o nosso?

É tão urgente discutir estas necessidades, mas o Estado atrasou-se em prémios de dramaturgia e quotas regionais, e aos particulares, que no teatro se chamam independentes, parece que lhes falta a bondade e a imaginação. Tomara eles conseguirem pagar a prestação da plateia recém-comprada.

Quem não sabe que é a leste que as cidades têm por hábito abrigar comunidades mais frágeis (pensem no East End londrino, na Belleville de Paris, na Xabregas lisboeta)? Passy não é o Restelo, mas até podia ser.E qual é o seu novo Guitry?…Por exemplo, a partir dos primórdios dos anos 90, a atitude da Pina Bausch opera uma mudança com a sua recepção, no que aqui a geografia nos interessa; Wuppertal deixava de ser a cidade mítica onde se ia em romaria para testemunhar da sua arte, centro de peregrinação, para passar a ser Bausch que nos visitava nas nossas cidades em residências que nos devolviam essas mesmas cidades.O que se acabava era assim essa especificidade que a natureza da sua dança dava a esse lugarejo perdido no centro da Europa alemã fortemente industrializada. A cidade confundida ou em diálogo com as presenças cénicas que lá habitavam. Ainda hoje quando me falam de Wuppertal é sempre uma mulher magra vestida de negro a fumar que me aparece, antes de tudo.Quando o Teatro da Graça fechou na Voz do Operário deixei de sentir necessidade de ir para estes lados da cidade.

Curioso ver também que num quarto-crescente que vai de Setembro a Julho,o ciclo anual que aqui nos interessa, momentos fulcrais da história do homem passam um pouco ao lado dos nossos palcos, penso na Páscoa agora. Mas ali para os lados da Alta de Lisboa, há um sítio (Gulbenkian) onde a Música nos oferece todos os anos as Paixões. Não há Abril sem elas, No Teatro, em Abril, só há cravos. Nem jacintos, esse doce perfume de todas as ressureições. Isto para nomear apenas uma das desatenções ao calendário na geografia em que se insere. Acaba então este mês mais uma temporada, sentimos falta de alguma coisa? Que pensamento tomou lugar nos teatros neste semi-círculo de 2012/13? Disse-se o quê a quem? Quem faz as actas? Não é importante saber? Há linhas de continuidade, de obra, na construção da natureza das ‘salas’? Ou é a estratégia de marketing apenas a trabalhar para que não haja sobras nos lugares das plateias? Ou é o brilharete político da gestão cultural que é preciso sintetizar na eficácia dos números? Um início de temporada serve para anunciar programação e insuflar expectativas… e o fim? Serve para quê?

Não sei bem a razão disto, talvez apenas porque já não vejo um Courteline, que me apetecia tanto, há algum tempo.

 

Texto de Miguel Loureiro
Ilustração de Sara Pazos

Crónicas anteriores: #1 Après-midi de uma prótese / #2 Beberetes / #3 Nuances primaveris



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