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“Uma Grande História de Amor” de Susanna Tamaro

Uma pedra no caminho ou um presente do destino

Uma Grande História de Amor, de Susanna Tamaro (Presença, 2021) é um romance agridoce, sobre duas pessoas diferentes em absolutamente tudo, que na complicada travessia que é a vida, vão ter que ultrapassar desafios, individuais e conjuntos, de forma a sobreviver aos testes que lhes são apresentados. Mas viver apresenta-se como a tarefa mais árdua de todas.

Se vivesses na escuridão, não ias querer ser avisado de que a luz está prestes a entrar?

Susanna Tamaro, criou um caminho intricado, rico em imprevistos na roda gigante à qual chamamos vida.
Perita em descrições das inúmeras nuances que compõem o ser humano, as suas emoções e oscilações de humor, Tamaro empurra o leitor para um caminho de inúmeros percalços, cheio de sentimentos que vão muito além do amor romântico, frequentemente fazendo um jogo entre luz e escuridão, que define o tom da história.
Não se trata apenas de uma história sobre um casal enamorado e dos seus encontros e desencontros, mas também de vários tipos de amor, de dor e perdas inimagináveis.
Repleto de vários gatilhos emocionais, este livro pode induzir o leitor a um estado melancólico, mas já dizia a frase: “A luz é especialmente apreciada após a escuridão”.

Quando embarquei no ferryboat, os raios de sol roçavam a superfície da água. Semicerrei os olhos, quase incomodado com aquele súbito regresso da luz.
Foi assim a tua entrada na minha vida.

Nas primeiras páginas, Andrea está na sua casa, numa ilha, mas Edith não está com ele. A casa parece um navio à deriva, as abelhas de que Edith cuidava religiosamente, estão entregues a si mesmas, e o silêncio domina todas as divisões da casa e da alma de Andrea.

A casa cheia de vida transformou-se num galeão fantasma. Ninguém a governa porque ninguém o consegue fazer.

(…) Com as velas rasgadas, a madeira e os latões opacos por falta de manutenção, o galeão fantasma anda à deriva à espera do penhasco que porá fim aos seus dias.

Após sermos apresentados à solidão na qual vive Andrea, somos remetidos ao passado, através das memórias do mesmo, à medida que este as recorda enquanto fala para Edith.
Andrea, homem rigoroso, capitão de profissão, nos seus 30, dá de caras com a jovem Edith, rebelde e revolucionária, num ferryboat entre Veneza e a Grécia. O primeiro encontro dos dois não podia ter sido menos positivo para ele. Como fogo e gelo, para Andrea conhecê-la foi tudo menos amor à primeira vista. Mas, contrariamente, à sua avaliação inicial, este evento vai mudar tudo, sendo o trampolim para o leque de lembranças que se seguem.

Edith não podia ser mais diferente da mulher perfeita que Andrea idealizou para ser sua esposa. Isso vai dar lugar a uma luta interna, contra as mudanças que tal encontro provocou. Aquela rapariga irritante (aos olhos de Andrea), age como um raio que caiu na vida “perfeita” dele, abalando as suas estruturas e o seu núcleo, gradualmente.

Tinha recebido um presente – ter-te conhecido – e confudira-o com uma pedra, um incómodo, um estorvo do qual tinha que me livrar o mais depressa possível. Tinha a minha vida organizada e projetos para o futuro que não eram muito diferentes da trajetória de um comboio que avança sobre trilhos testados e comprovados.

Que aqueles trilhos pudessem levar a um descarrilamento, nunca me passara pela cabeça.

Uma Grande História de Amor, de Susanna Tamaro, é um retrato nu e cru das inúmeras surpresas da vida, sejam elas positivas ou negativas, e de como o ser humano, ser imperfeito, instável e incompleto, reage aos golpes e presentes que surgem no decurso de uma pletora de caminhos entre os quais escolher.

O que havia de errado na minha vida?

Objetivamente, nada.

(…) Na manhã seguinte, tive perfeita consciência de que no grande, e até agora perfeito, puzzle da minha vida faltava uma peça.

Essa peça eras tu.



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