Vénus de Vison de Roman Polanski

“Vénus de Vison”

E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher

Ainda que não seja a primeira vez que o sempre apaixonado e polémico realizador Roman Polanski “transforme” uma peça de teatro em obra cinematográfica – “Carnificina” e “Noite da Vingança” resultaram em exercícios de grande pertinência – “Vénus de Vison”, película que integra o cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival, está a gerar grande expectativa entre os amantes da sétima arte.

Com um argumento inspirado no livro de conotações sadomasoquistas do escritor austríaco Leopold Sacher-Masoch, editado em 1870, “Vénus de Vison” surge como um intrincado jogo de espelhos entre dois personagens que ao longo de cerca de hora e meia assumem o espirito alheio através de um delicado e exasperado processo de metamorfose.

Para ocupar o centro da tela, ou devemos dizer do palco, Polanski escolheu Emannuellle Seigner, sua companheira, para o papel de Vanda, a dobrar, e Mathieu Amalric faz de Thomas. Se ela interpreta uma atriz candidata ao lugar de Vanda na peça, ele assume-se como um encenador e escritor de peças de teatro ensimesmado entre a obra de Sacher-Masoch e a sua precoce e traumatizada experiência de vida.

Polanski e David Ives montaram um diálogo vivo, intenso e repleto de um acutilante humor que leva o espetador para dentro de um labirinto emocional que tem como acesso metafórico uma porta de um teatro parisiense vazio.

Fazendo parte da seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes, “Vénus de Vison” tem como ponto de partida uma audição de Vanda que, trajada a rigor, depois de um autêntico dia aziago, tenta, literalmente, seduzir um apresado Thomas que não encontra o nome da candidata na lista de audições. Pouco paciente, Thomas tem ainda a noiva à sua espera.

À beira da desistência Vanda consegue persuadir Thomas a representar três páginas de texto e…a magia acontece. O argumento sólido de Polanski e Ives faz o espetador entrar de cabeça numa intrincada batalha em que a sabedoria e conhecimento de uns encontra, seduz e tortura a vulnerabilidade alheia sendo que tal atmosfera onírica apenas é interrompida pelo chamamento de Wagner quando o telemóvel de Thomas diz presente.

Severin e Vanda, Thomas e Vanda, homem e mulher, escravo e senhora. Eis algumas das dicotomias presentes em “Vénus de Vison” que com o decorrer dos minutos leva-nos a pensar quem é quem perante a bem montada ilusão. Thomas fascina-se com ambas as Vandas e entrega-se de corpo e alma.

Em termos de representação, Seigner incorpora ambas as Vandas de uma forma completamente brilhante e eficaz. As “encarnações” quebram momentaneamente a ação e num ápice estamos perante uma bipolaridade que se reforça a cada minuto. Indigente, Vanda, a candidata a atriz, questiona o argumento do livro de Mascoch e desfasada da realidade burguesa do século XIX apelida o mesmo de sexista e depravado. Amalric contrapõe tais considerações e apela ao romantismo de Sacher, à paixão das suas palavras e pensamentos, à profundidade emocional de um sentimento tão grande que leva alguém a sentir prazer através do servilismo, da humilhação, da entrega sofrida.

O ambiente entre os dois personagens é fruto de uma grande cumplicidade e alguns pormenores de realização de Polanski agigantam esses momentos. Como exemplo temos algumas sonorizações de ações (in)visíveis entre os atores onde uma assinatura de um contrato, um ramo arrancado de uma árvore ou o mexer de uma chávena dão um toque repleto de fantasia à ação. A juntar a isso, a tímida mas muito assertiva banda sonora de Alexandre Desplat torna tudo mais dramático e o fetiche ganha ainda mais a noção de presença.

Mestre na manobra e criação de situações onde a manipulação claustrofóbica deixa os personagens à beira do abismo, seja ele emocional ou não, Polanski torna “Vénus de Vison” numa bifurcação entre o teatro e o cinema, entre duas artes díspares mas que centram a sua essência na representação, seja essa ação realizada defronte de uma câmara ou de uma audiência atenta e o duelo psicológico entre Vanda e Thomas traz à tona fragilidades que perante um cenário de constante sedução e submissão ganha contornos de batalha épica.

O jogo da vida quebra as várias máscaras dos personagens e o conceito maneirista das diferentes camadas de realidade ou ilusão levam “Vénus de Vison” a desaguar num oceano transformista e perigoso que eleva a recente aventura cinematográfica de Polanski para estádios de pura catarse e beleza interpretativa.



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