“Only Lovers Left Alive”

“Only Lovers Left Alive”

Esquece tudo o que já viste sobre vampiros.

O principal rosto do LEFFEST esteve no dia 13 de Novembro na sala 4 do Monumental para nos introduzir ao novo filme de Jim Jarmusch, uma daquelas lendas que associamos a filmes como “Stranger Than Paradise” ou “Dead Man”. Paulo Branco abriu as hostes a “Only Lovers Left Alive” e brindou-nos ainda com a presença da belíssima Yasmine Hamdan, que partilhou com o público como surgiu a participação no filme: “Conhecemo-nos após um concerto meu em Marrocos. O Jim veio ter comigo e disse que tinha uma ideia para trabalharmos juntos. Esperei três anos até que entrasse em contacto comigo! (risos) Entretanto enviou-me o guião, eu li, gostei bastante e inclusivamente escrevi uma música para o filme. O Jim também é músico e parte da banda-sonora deste filme foi composta por ele. É, por isso, uma música muito orgânica.” Infelizmente o próprio Jim não pôde marcar presença no Festival, e também ainda não existe data para o lançamento do filme nos circuitos comerciais em Portugal. Mas a RDB já viu, e conta-vos tudo.

“Only Lovers Left Alive”

Antes de falarmos sobre o filme, vale a pena salientar que sim, este é um filme sobre vampiros. E, antes que isso possa elevar as expetativas dos amantes de produções como “True Blood” ou “Twilight”, ou levantar dúvidas a quem torce o nariz à temática, que se apaguem todos os estereótipos, memórias ou referências cinematográficas que possam eventualmente ter sobre vampiros. Este filme não é banal, não se rege pela estética comercial e não tem em nada que ver com a roupagem moderna com que se têm visto desfilar os vampiros nos últimos tempos. É um new blood para os vampiros e uma homenagem que rompe com todos os cocktails de sangue que têm sido popularizados pela cultura pop.

Para quem não está habituado ao realizador, pode demorar algum tempo a entrar no tipo de registo da sua cinematografia. Os filmes de Jarmusch não são, por assim dizer, feitos para dialogar com espectadores apressados. São quase literários, e pautam-se por um ritmo muito próprio que provoca uma sensação de calma quase inebriante, quase perigosa.

“Only Lovers Left Alive”

A abordagem literária é, também, a que se aplica ao conceito de amor que nos é apresentado neste filme. A narrativa desenha-se em torno de dois vampiros centenários, de nomes bíblicos: Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), que vivem em casas separadas e em continentes distintos. Mas o que os une é muito maior do que a distância, o tempo, ou mesmo os laços matrimoniais. Adão e Eva amam-se hoje, tal e qual como se amavam há 600 anos atrás, sem deixarem que o facto de serem o “primeiro casal” (não temos provas disto, mas os nomes assim o evocam) arruíne o arrebatador sentimento que os une. Um amor intemporal que dança ao som de um romantismo que sempre venceu todas as vulnerabilidades das relações mundanas.

O desenvolvimento das personagens não acontece em pontos apressados, e nada é deixado ao acaso da narrativa. O enredo vai-se tornando mais denso à medida que se constroem as personagens, bem delineadas e que sintetizam na perfeição o que é o destino de quem é imortal, e as consequências inquietantes da existência partilhada com zombies (sim, estes últimos somos nós). A beleza desta primeira hora de filme está neste densificar das personagens que floresce num clima cru, serpenteia com kimonos de seda por entre cenários brilhantemente melancólicos, e que a tudo isto ainda adiciona interpretações únicas de clássicos de vinil.

Esteticamente sentimos que estamos perante uma personificação dos conceitos de Ying e Yang, mas subvertidos. Ele opta por uma existência solitária no seu apartamento em Detroit, na qual se encaixa no perfil emocional e mentalmente deprimido das figuras excêntricas do rock. Veste-se sempre em tons negros, frios. É Ying, no masculino. Ela, força motriz da relação, vive em Tânger, numa espécie de biblioteca pessoal. Veste-se sempre em tons claros, pastel. É Yang, no feminino. Estes simbolismos em tudo servem para enriquecer a relação, cumplicidade e complementaridade que une estas duas personagens.

“Only Lovers Left Alive”

E os simbolismos são, de resto, uma constante ao longo de todo o filme, como é exemplo o facto de os vampiros de Jim Jarmusch não compactuarem com atitudes dos séculos passados. Não sugam sangue, e não o fazem porque o nosso sangue não é puro. É uma fonte contaminada, estabelecendo-se aqui um claro paralelismo com a raça humana. Procuram, por isso, sangue puro, em fontes seguras. Quem assiste a estas cenas genialmente construídas percebe bem que esta é uma clara referência à dependência das drogas. Mas, no caso deles, a dependência é algo… inerente à vida.

A certa altura da narrativa Adam e Eve encontram-se, e nasce uma espécie de atmosfera utópica e um elogio ao amor. Sem nunca perderem a sofisticação começam a revelar-nos o transitar de muitas eras, o conhecimento que foram acumulando e os amigos que foram deixando para trás, como Edgar Allen Poe, Neil Young, Albert Einstein, entre tantos outros. Um filme repleto de referências musicais e literárias que nos desafia a interrogar a real autoria de determinadas obras, como por exemplo se terá sido Christopher Marlowe (John Hurt) – também um vampiro na história – quem realmente escreveu as obras de Shakespeare.

A certa altura este aparente clima de perfeição é quebrado por Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve, que irrompe pela história para nos lembrar que as utopias só existem quando são colocadas em paralelo com outras realidades. Uma vampira que vive em Los Angeles, no meio dos zombies, e que de facto não será inocente.

Only Lovers Left Alive” é uma crítica árida aos tempos modernos e funciona como uma comédia leve de costumes sociais, mas que não deixa de reunir os ingredientes suficientes para ferir algumas susceptibilidades. É igualmente uma homenagem a estas criaturas imortais e, no final do filme, sabe mesmo bem saber que ainda há quem saiba levar os vampiros a sério. Porque, e citando uma das frases mais impactantes que Eve diz durante o filme, “Eu nasci à noite. Mas eu não nasci ontem à noite.

Venham mais vampiros destes, se faz favor.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This