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Vodafone Paredes de Coura | Dia 4 (15.08.2026)

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Texto por Beatriz Veloso e fotografia por Rui de Freitas.

Neste último dia a festa começou dentro de água, em vez de poeira, no ar viu-se a água que chapinhavam as danças. Meute, a banda alemã, deslocou-se até ao rio onde os festivaleiros boiavam. Daí em diante seguiu-se um concerto de uma energia deslumbrante que mais tarde se voltaria a repetir no palco principal.

É assim que começa a chegar ao fim mais uma edição do Vodafone Paredes de Coura. “Se há um festival onde uma pessoa gosta de vir ver é aqui, se há uma festival onde uma pessoa gosta de tocar, é aqui também”, Noiserv já veio “praí umas 18 vezes” e já tocou mais de meia dúzia de vezes: “umas sozinho, outras acompanhado, como a vida deve ser”, sublinha o artista. Este ano regressou para abrir o Coura Sem Paredes num concerto atmosférico e com sabor a nostalgia que mistura composições de techno e electrónica: porque aqui dão-se as despedidas, mas sempre em tom de festa.

Neste palco começou assim, o último dia programado para o recinto. Amanhã há mais, para aqueles que se despedem do Taboão e desmontam a tenda. 

“Vocês ouviram? É a última música…”, avisou Noiserv, que ouviu um murmúrio triste do público: “tem de ser, no Vodafone vai começar um concerto muito bom”, é de Patrick Watson de quem fala, e não mentia. 

Conquistou o público, que se multiplicou ao longo do concerto, desde o primeiro acorde com gargalhadas genuínas e contagiantes que soltava no meio de conversas que ia tendo connosco, ou quando cometia alguma gralha. Trouxe com ele uma menina, November Ultra, uma cantora e compositora franco-portuguesa que participou em duas músicas — uma da sua autoria — e que se retirou do palco visivelmente tão emocionada como nós, ao som de palmas e elogios de Patrick: “tem uma das vozes mais bonitas do planeta”, destacou.

As lágrimas do público caíram aqui e ali entre o alinhamento. De olhos fechados, sozinhos ou acompanhados, entre beijos sinceros e abraços amigos, ninguém se sentiu sozinho – Patrick fez questão de se envolver com o público e não deixou ninguém de fora: fez-se um e outro coro, formou-se uma banda, criou-se toda uma paisagem sonora de pássaros e passarinhos e, como democráticos que somos, também fizemos uma votação para decidir a última cantiga: «Lighthouse» ou «The Great Escape», acabamos com o segundo tema. Foi um concerto verdadeiramente bonito, tanto pela tarde quente e brilhante que tivemos, como pelo espetáculo com que este artista canadiano nos presenteou.

Hudson Freeman, no palco secundário, não conquistaram um grande público, mas também não estiveram sozinhos. Os dois artistas, de guitarra nos braços e microfone na voz, deram um concerto calmo e sem grandes surpresas ou oscilações. Foi mais um dos muitos momentos que, sem desapontar, passaram devagar. 

Cate Le Bon é uma artista reconhecida pela consistência e crescimento. Neste concerto que se seguiu não ficou aquém.  Reuniu um número bonito de pessoas que se sentaram na relva para assistir e ouvir ao fundo sonoro deste concerto que sempre diferente, não perdia as características que lhe dão a singularidade. As letras, cantadas serenamente, não foram de grandes contrastes — a maior diferença faz-se sentir pelo aspecto do palco, agora mais preenchido depois das apresentações a solo que o recinto recebeu até este momento. 

Foi, portanto, um espetáculo interessante para o fim de tarde que recebia cada vez mais festivaleiros, e um bom acompanhamento para o jantar que já era servido. A postura da artista é bastante contida e não há tanta interação com o público, trata-se de um registo diferente, de maior contemplação que sem agradar a todos, conquistou muitos.

Sophia Stol seguiu-se no Coura Sem Paredes com uma multidão grandinha que a apoiava na sua primeira viagem entre o indie rock e a eletrónica em palcos Courenses.

Não tardou a voltarmos todos para o Vodafone, onde a certa altura está a frontline toda no chão ao comando de Meute, como já havia acontecido na tarde deste dia. O segundo concerto da orquestra levou o público ao rubro com as misturas e cores vibrantes que lançou sobre o Couraíso. Logo no primeiro gig, disparam-se os confetis e, daí em diante, os 11 músicos percorreram o palco de lá pra cá, e de cá pra lá, entre o sobe e desce no palco que acompanhava os momentos em que se faziam ouvir mais alto e mais baixo. Foi um momento diferente, este apresentado no palco principal e questionado por alguns — tanto pelo contexto em que se apresentaram, como pela “posição privilegiada” que lhes foi atribuída. A verdade é que foi um momento divertido e com muita animação (não precisamos sempre de guitarras e vocais para dançarmos, muito menos em Coura). 

A seguir foi a vez da brasileira Júlia Mestre, no palco secundário, se dar a conhecer num contra luz ofuscante que antecedia um momento mais slow. “Sparkle, sparkle mothefucker”, é a jam session de Thundercat que começou, brilhante, literalmente – o baterista, Justin Brown, com um capacete que  parece feito de uma bola de espelhos começa a solo, segue-se o teclado de Dennis Hamm e Thundercat saúda-nos com a guitarra preenchida de glitters. Seguiu-se um concerto muito dedilhado que surpreendeu qualquer um que se interesse pela arte de fazer música.   

No palco secundário Prostitute fizeram muito barulho e enfeitiçaram o público que gritava ao som do punk que faziam. Uma multidão que açambarcou o espaço até ao último centímetro. As guitarras eletrizantes, o espetáculo de luzes e a bateria imparável não deram muito tempo para respirar, mas calma. Respirem que o festival ainda não acabou.   

Amyl and the Sniffers, ainda estavam para começar o último grande concerto deste ano. Não podia haver melhor forma de nos despedirmos de mais uma edição se não fosse aos altos berros. A voz rouca de Amy Taylor fez aquecer colunas que caiam do cimo do palco de uma forma assustadoramente rápida. Lá em baixo os copos voavam uma e outra vez, e pela última vez, sob o olhar provocador da vocalista. O recinto está mais do que cheio nesta quarta visita da banda a Portugal, por razões já conhecidas: a apresentação dos temas de “Cartoon Darkness”,o disco que lhes valeu o reconhecimento do público, da crítica e de jurados de muitos prémios.

Neste último momento em Coura houve espaço para aclamações a uma Palestina Livre, ao cuidado para com o outro, às meninas e a todas as pessoas, à liberdade de sermos quem queremos ser e uma reprovação, desde o primeiro instante  — com direito a aviso prévio inscrito no painel do palco antes da entrada dos artistas — a todo e qualquer tipo de agressores.

Estávamos assim preparados para uma última hora, e qualquer coisa, de mosh, crowd surfing, gritos e berros de manifestação, assim como o punk deve ser. Por fim, chega o já tradicional vídeo em que o Vodafone Paredes de Coura se despede dos seus. Mas em breve há mais, de 18 a 21 de agosto de 2027 estaremos de volta com muito sol, mergulhos, saltos, churrascadas e, claro, muita música. Aqui, no mesmo sítio de sempre, nesta “terrinha” (bem grande) que com tanto amor nos recebe todos os anos. Até já, Coura(íso).

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Leiam aqui as reportagens do primeiro, segundo e terceiro dia do festival.



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