“A Química das Lágrimas” | Peter Carey

“A Química das Lágrimas” | Peter Carey

Fábula de carne, osso e metal

O 12.º romance de Peter Carey, “A Química das Lágrimas”, é um livro a duas vozes propício a várias leituras, desde a complexidade da alma, a transformação da fealdade em algo de belo ou a forma como a ciência interage com o lado humano. Uma fábula frankensteiniana que opõe o real ao ilusório, o mecânico ao que se reveste de carne e osso.

A primeira voz pertence a Catherine Gehrig, uma especialista em horologia – arte relacionada com os instrumentos de medição do tempo – que, depois da morte do amante secreto de 13 anos, olha para a felicidade como uma miragem, por entre muito álcool, comprimidos e algumas linhas de coca. O seu patrão, amigo de longa data do falecido, tenta trazê-la de volta alterando o seu habitat profissional para um anexo isolado, onde irá trabalhar na montagem de um complexo autómato do século XIX – que Catherine, a princípio, julga tratar-se de um macaco. Juntamente com as caixas que contêm centenas de parafusos, rodas dentadas e anéis para todos os gostos, encontram-se onze cadernos cheios de uma caligrafia cerrada. Esses livros são pertença de Henry Brandling, o dono da segunda voz do livro.

Brandling é um inglês abastado que vive a meio do século XIX. É pai de um rapaz doente que procura manter vivo nele despertando um contínuo deslumbramento perante o mundo, sendo que cada sucesso é apenas temporário – tendo o próximo que superar o anterior em interesse e encantamento. É então que decide patrocinar a construção de um autómato, um pato, mas que está longe de ser um vulgar pato: comerá milho, irá digeri-lo e poderemos ver o seu sistema intestinal em pleno funcionamento. Para isso viajará até à Alemanha, ao interior da Floresta Negra, em demanda dos fabricantes de relógios que por lá vivem. É nesse espaço geográfico confinado que irá conhecer o misterioso Sumper, que aceita o projecto mas parece esconder segundas intenções e um passado cheio de enigmas e demasiadas pontas soltas. Uma história que remete para o universo negro e tenebroso inventado pelos irmãos Grimm onde as sombras estão por todo o lado.

Poderá um autómato conter em si esse centro invisível a que nos habituámos a chamar de alma, satisfazendo o desejo frankensteiniano de insuflar vida a um objecto inanimado através do amor e, quem sabe, receber esse amor de volta?

Tentando encontrar uma ordem profunda num universo desarrumado, Peter Carey deixa espaço livre para a ambiguidade, o mistério e o deslumbramento, na procura da essência que habita os nossos corpos e sentimentos.



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