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“A Clockwork Orange”

Os limites imperiais entre o natural e o mecânico

Fortemente contestado pela crítica aquando da sua estreia em 1971 (tendo sido inclusivamente retirado de circulação pelo próprio realizador durante cerca de trinta anos) e motivando acesas discussões até aos dias de hoje, “A Clockwork Orange” (“Laranja Mecânica”, título em Português) é um dos trabalhos mais icónicos, não só da filmografia de Stanley Kubrick, como também da história do Cinema. Depois de deixar o mundo assombrado perante a visão inovadora de “2001: A Space Odyssey”, o cineasta voltou a desafiar por completo o domínio do radical, ao adaptar o universo distópico e amoral onde reina a violência, idealizado por Anthony Burgess na sua obra literária homónima.

Com uma narrativa primariamente focada no comportamento exorbitante e delinquente de Alex Delarge, anti-herói interpretado com mestria inigualável por Malcolm McDowell, a temática do filme rapidamente se expande para dar lugar um ensaio filosófico bem mais profundo, que vocifera fervorosamente contra a corrupção e decadência da sociedade, ilustrando o papel de repressão desmedida que esta tem sobre o indivíduo. E Kubrick trata o argumento como se de uma sinfonia composta por Beethoven (figura tão idolatrada pelo protagonista e constantemente presente no seu imaginário) se tratasse. Ao demonstrar a lavagem cerebral imposta pelo sistema como exigência de regresso ao mundo exterior, quase como uma absolvição dos pecados cometidos, instituem-se os contrastes necessários à criação da alegoria em “A Clockwork Orange”: a oposição entre o natural e o artificial, o esporádico e o fabricado. Este comportamento condicionado que tenta a todo o custo aprisionar a personagem a falsos valores torna-se um fracasso inevitável por se assumir como uma morte moral, extinguindo a liberdade de consciência. Assim, as margens da perversidade confluem e procuram-se os efectivos culpados da mesma.

Indiscutivelmente uma das obras de maior influência e valor histórico no Cinema moderno, capaz de provocar as mais diversas reacções devido à frieza com que trata os seus elementos polémicos, é o exemplo perfeito da arte como elemento interventivo, observando pormenorizadamente as relações sociais e de poder. Apoiando-se num sistema de símbolos, a admirável realização de Kubrick, aliada a uma excelente direcção de arte e construção cénica de aspecto futurista, fazem de “A Clockwork Orange” um título incontornável e intemporal, que oferece a cada visionamento algo inédito para (re)descobrir.



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