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David Lynch

A Verdade 24 vezes por segundo.

Stanley Kubrick disse um dia que “um filme é, ou deve ser, mais como a Música e menos como a ficção. Deve ser uma progressão de estados e sensações. O tema, o que está por detrás da emoção, o significado, tudo vem depois”. Não haverá realizador que se encaixe melhor nesta definição do que David Lynch. Dizer que Lynch é um dos mais influentes artistas da actualidade não é exactamente novidade. Tão pouco é que se trata de um dos realizadores com maior sensibilidade que o Cinema viu nascer. E para se baralhar as cartas e voltar a dar, só existe um caminho: conhecer o que está atrás para antever o que se avizinha. E nesta matéria, diga-se, poucos são bem sucedidos.

Não será tão importante descortinar o que se está a passar em “Mulholland Dr” como experienciar a sua verdade contada a 24 vezes por segundo. Assim como será relativo especular-se sobre o que “é” o Black Lodge de “Twin Peaks”. Mas a resposta poderá passar pelos seus significados.

O Black Lodge

Lynch encadeia uma insólita trama acerca do misterioso assassinato de Laura Palmer, uma jovem aparentemente integrada no seu círculo. É no seio da comunidade de Twin Peaks que reside o âmago da questão: ou antes, o que nela se esconde. Pois que a desconstrução da personagem assume um carácter nuclear no enredo: quer seja na dualidade materializada na sua prima Madeleine, quer na sucessiva revelação quanto aos seus ocultos hábitos e círculos do quotidiano. Mas, e como é lógico, a resposta não reside nesta dimensão: porque os factos inerentes à própria natureza humana não se situam no plano do tangível. Em vez disso, Lynch leva-nos a crer que estes se situam num espaço extra-dimensional denominado Black Lodge. E será neste espaço que o intangível ganha forma: onde “nem tudo o que parece é” e onde se materializam os demónios interiores de cada um, somente para transporem a barreira e se tornarem parte integrante da realidade. E esta permeabilidade não é inocente: o que separa este espaço do seu exterior são somente cortinas vermelhas.

Surge um anão com uma oralidade peculiar, apresentando todas as outras entidades que por ali passam. Uma Laura Palmer consciente da verdadeira versão da sua história (a verdadeira Laura Palmer?), um gigante (a dualidade relativamente ao anão, evidenciando o contraponto Laura/Madeleine?) ou o próprio Bob. Muitas teorias poderão ser estabelecidas relativamente à entidade de Bob, mas talvez o factor mais sinistro se prenda com a sua aparente facilidade de circulação entre as dimensões.

O Club Silencio

Poder-se-á entender o Club Silencio enquanto, antes de mais, uma metáfora sobre o Cinema: “não há banda, tudo é gravado, e no entanto conseguimos ouvir a banda. Tudo é ilusão”. Tanto que a música continua a tocar mesmo quando a intérprete cai no chão, sendo arrastada para os bastidores. Aqui, ao contrário do Black Lodge, este trata-se de um lugar físico, ainda que o que ele significa seja tudo menos físico. Em boa verdade, este será porventura um dos expoentes mais reveladores do cinema de Lynch: um lugar onde o subconsciente se materializa, através de rituais abstractos. Ora, este não poderia ser um processo imparcial. Na verdade, a performance de Rebekah del Rio afecta as personagens de forma absolutamente transcendente: quer a nível emocional, quer a nível causal. Este sofrimento materializa uma misteriosa caixa azul (a fria realidade?) que, ao ser aberta, inverte a ordem pré-estabelecida das coisas. Também o facto de a localização deste local se dar através de um sonho aponta para a ideia de que o Club Silencio materializa o doloroso parto entre a Realidade e o Sonho.

Mas, mais do que a Realidade e o Sonho, talvez “Mulholland Dr.” seja sobre a projecção de uma pessoa noutra individualidade. Daí que o choque com a Realidade seja feroz: Betty projecta-se num cadáver putrefacto no seu subconsciente, um reflexo interior da sua imagem, enquanto se transfere para uma nova e bem sucedida identidade. E aqui Lynch é genial na desconstrução do Sonho de Hollywood: uma utopia incapaz de sobreviver ao choque com a Realidade.



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