jlp

“A montanha” de José Luís Peixoto

Dura se torna a escalada

Cada livro de José Luís Peixoto é um acontecimento que ameaça deixar marcas na pele e na alma de quem ousa ler aquilo que imagina, pensa, relata, partilha. Por isso, a saudade de ter uma obra do autor nascido em Galveias crescia depois das últimas peças originais que remetiam para a vida e obras de José Saramago e Rui Nabeiro.

E foi uma (meia) surpresa quando soubemos que A montanha (Quetzal, 2025) estava a chegar e que tal era sinónimo de mais um romance denso, multivocal e visceral, pois trata-se de uma narrativa que recolhe vozes dispersas, memórias fragmentadas e sofrimento íntimo para compor um mosaico de vidas marcadas pela doença, aqui, literalmente, a negrito, e pela procura de sentido.

Naquele que é um dos seus livros mais maduros e corajosos, Peixoto dispõe-se a questionar o invisível, trazendo para as páginas, entre outras, a memória do seu pai, escancarando a dor da palavra “cancro”.

O enredo nuclear partilha um eixo comum: homens e mulheres de origens diversas – de Moçambique à Venezuela, de Ponte de Lima a Oliveira de Azeméis – que acabam por cruzar os seus destinos como pacientes no Instituto Português de Oncologia do Porto, e, nesse local, e em muito outros, há um escritor errante a reunir essas histórias, tentando e tentado a construir um romance com todas elas.

Através do malabarismo de reunir confissões urgentes, solidão e dor, o livro atinge-nos em cheio, derruba-nos, mas também nos levanta de um chão carregado de dúvidas, esperança e luta. Trata-se de escalar a mais difíceis das montanhas, a da sobrevivência incerta e que nos coloca numa vida em suspenso, interrompida pela doença e dores devastadoras.

E numa espécie de anatomia em espelho, o escritor, também ele personagem, familiar e confidente, entra num jogo de espelhos e fluxos de consciência, em discursos íntimos e muitas vezes (des)fragmentados que sublinham a dignidade dos testemunhos do corpo e da memória. 

Invariavelmente, as páginas de A montanha partilham fragilidades, exposições de pessoas em ruínas que deixam o leitor entregue a um misto de documentário (auto)biográfico ora realista ou ao surrealismo de (se) estar à mercê de uma ciência e medicina que teimam em perder alguns assaltos até lograr, quando possível, derrotar um peso pesado chamada cancro.

Essa brutalidade muda quem já teve de lidar contra esta doença na primeira pessoa ou no papel de amigo, ou familiar, sendo essa segunda condição conhecida por quem aqui escreve e a viveu algumas vezes, uma delas muito recentemente. Foi por isso difícil ler este excelente livro que desperta a sensação de perda, de tristeza, de não saber o amanhã, mas que também nos diz que é possível sair vencedor. E enquanto houver uma luz que não se apaga, acreditemos nela.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This