“Viver. A Contagem Decrescente”de Boualem Sansal
Uma história do fim sem fim
Quase uma década após o desconcertante 2084. O Fim do Mundo, o polémico escritor franco-argelino Boualem Sansal regressa com Viver. A Contagem Decrescente (Quetzal, 2025) mais uma aventura distópica em forma de fábula apocalíptica, na qual existe uma misteriosa força exterior responsável pela seleção inusitada de uma minoria conhecida como os Convocados, cuja missão é anunciar o fim da Humanidade numa espécie de contrarrelógio. Assim, restam 780 dias aos Convocados para tentar salvar-se e fundar uma nova ordem noutro planeta.
É nesse estado de urgência que a narrativa evolui, espelhando as fragilidades do ser humano perante a possível quase extinção através de uma parábola na qual Sansal interroga e explora as nossas crenças, fantasias de salvação e insuficiências éticas.
Paolo, o protagonista, é um dos eleitos e, após receber o estranho chamamento, inicia uma viagem sem retorno. Surpreendido, é-lhe difícil aceitar esse destino, mas, gradualmente, vai participando ativamente na seleção de quem merece ser salvo e transferido para o novo mundo. Pelo caminho, vai conhecendo outros convocados, como, por exemplo, Jason e Helen, habitantes de uma pacata rua do 11.º arrondissement de Paris.
Todos os Convocados carregam o peso (moral) de decidir quem será digno de confiança e iniciam uma purga que afasta políticos corruptos, religiosos extremistas e mafiosos, tornando-se testemunhas e juízes de comportamentos humano, sendo que esse jogo ambíguo aumenta a tensão entre ética e justiça. E se pontas soltas existirem, no final do livro, conte com avisos, relatórios de investigação científicos e notas de alerta.

O equilíbrio da narrativa está alicerçado na articulação entre dois impulsos recorrentes na obra do autor: a denúncia das formas de poder que se erguem em nome de certezas dogmáticas; e a ironia mordaz que desmonta quaisquer tentativas de encontrar um salvador, seja religioso, político ou tecnológico.
Já a contagem dos dias pode ser encarada como um “metrónomo” moral, onde cada passo da história revela, mediante um misto de ironia, humor negro e alguma melancolia, os mecanismos de seleção em si, evitando cair na tentação do autoritarismo e da hipocrisia social. Não é por isso inocente que ao leitor pareça, a espaços, ter nas mãos um ensaio com traços abstratos e/ou simbólicos da natureza humana e dos seus comportamentos.
Um dos grandes trunfos da escrita de Sansal está inteiramente associado ao entendimento que faz do mundo em que vive, sendo uma figura conhecida pela crítica ao Islamismo e às opacidades do poder. Esse pensamento polémico, provocador, está bem patente em Viver. A Contagem Decrescente e funciona como uma forma de nós, leitores, nos interrogarmos sobre a sociedade e a tendência para a exclusão, os seus limites, a relação com as minorias, a dissidência e a liberdade de escolhas, com todas as angústias associadas.
Essa reflexão, moralismos à parte, leva à compreensão daquilo que o Homem se tornou, permitindo ver o nosso reflexo num espelho que tanto pode assustar como apaziguar. Mas, o desafio é mesmo chegar a um autorreconhecimento.
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