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Livros que iluminam o Natal

Entre as luzes coloridas da árvore e o brilho dos embrulhos, alguns livros destacam-se como presentes ansiados por leitores de todos os gostos. Da banda desenhada ao romance literário, da memória histórica ao humor, aqui ficam, como é apanágio do Rua de Baixo, propostas variadas que tornam esta quadra mais rica.

Comecemos com Dakota 1880, uma aventura especial do universo de Lucky Luke, que reúne o argumentista Appolo e o artista Brüno, duas das vozes mais importantes da nova vaga de banda desenhada belga, que propõem sete episódios sobre a juventude do comboy solitário mais conhecido do planeta, numa homenagem que apresenta um herói mais realista.
O resultado é uma experiência de leitura que combina humor clássico com sensibilidade contemporânea, mergulhando no território historicamente tenso das Grandes Planícies, explorando o choque entre colonos e povos nativos num tom acessível, mas respeitador. A narrativa flui com ritmo de western e humor subtil, mantendo a tradição que fez de Lucky Luke uma das grandes figuras da BD franco-belga.
A arte destaca-se pelas paisagens amplas, cores vivas e expressão caricatural, equilibrando modernidade e nostalgia nesta edição da Seita que, como sempre, apresenta-se cuidada e visualmente apelativa, sendo um excelente presente para fãs antigos, novos leitores ou colecionadores que apreciam volumes bem produzidos e fieis ao espírito original.

Ainda no território da banda desenhada, destacamos Peter Pan de Kensington, obra seminal de José-Luis Munuera a partir de J. M. Barrie, uma adaptação deslumbrante ao universo inicial de Peter Pan centrada no Jardim de Kensington, onde Barrie plantou as primeiras sementes do mito. Aqui, antes da Terra do Nunca, encontramos um Peter mais etéreo, melancólico e misterioso, entre o encanto da infância e a sombra do desconhecido, com Munuera a interpretar esse espaço liminar com um traço expressivo, cores que evocam o sonho e uma fluidez narrativa que honra e reinventa o clássico.
A história recupera a ambiguidade emocional do texto original, simultaneamente doce e triste, tornando a obra apelativa tanto a leitores jovens como a adultos fascinados pelo imaginário de Barrie. A edição da Seita destaca-se pela qualidade gráfica e acabamento elegante.

No universo da literatura, Ladivine, de Marie Ndiaye, é a mais recente aposta da Alfaguara na autora francesa, vencedora do Prémio Goncourt, e um romance inquietante sobre identidade, culpa e herança invisível entre gerações em que se explora a vida de Clarisse Rivière, aka Malinka, uma mulher que renega a própria mãe, num texto que oscila entre o realismo emocional e uma sombra quase fantasmática.
NDiaye escreve, neste que é um dos melhores livros do ano, com uma elegância precisa, cheia de silêncios, criando personagens que vivem entre o desejo de se libertar e a impossibilidade de o fazer. A prosa absorvente e a tensão psicológica tornam este livro perfeito para leitores que gostam de literatura pura, que se instala devagar e deixa perguntas. Uma excelente prenda para quem valoriza romances intensos, de grande qualidade literária, capazes de ficar a ecoar muito depois da leitura terminar.

Reunindo a totalidade das narrativas mais breves de Ernest Hemingway, Contos Completos é uma aposta ganha da Livros do Brasil permitindo entrar no coração da sua escrita: direta, afiada, cheia de subtexto. Aqui encontram-se histórias de guerra, pesca, boxe, amores breves, desilusões, paisagens áridas e personagens que parecem guardar mais do que dizem.
É um volume precioso para quem aprecia contos como forma literária e para quem reconhece em Hemingway um dos mestres do século XX, sendo esta sólida e cuidada edição, com mais de 900 páginas, ideal para manter na estante e ir revisitando um dos autores mais influentes da literatura moderna.

Depois do sucesso de A malnascida, Beatrice Salvioni regressa, novamente com selo Alfaguara, com A Malcriada, mergulhando o leitor na Itália dos anos 1940, num romance que equilibra ternura e brutalidade, luz e sombra, numa narrativa que se lê de um fôlego, e que é um elogio à ficção histórica com profundidade emocional e personagens que permanecem muito depois da última página.
A trama tem como ponto de partida o facto de que fazem quatro anos desde que Francesca teve notícias de Maddalena, que foi internada num hospício e não responde a nenhuma carta.
Desconfiada, Francesca pensa que a amiga lhe guarda grande ressentimento. Afinal, Maddalena nunca deixou de ser a rejeitada, a malnascida. Acontece que também Francesca pisou o risco e se passou para o lado dos malditos daquela sociedade conservadora e patriarcal: fugiu de casa para ir viver com Noè Tresoldi, provocando um escândalo na família. A mãe acusa-a de ser uma degenerada, uma filha amaldiçoada.
É a este cenário que Maddalena regressa enfim, ainda pequena e ainda mais magra, como se o tempo não tivesse passado por ela e pudesse fingir ser a adolescente corajosa de sempre. Mas os anos passados no hospício deixaram marcas, e agora a guerra está prestes a começar.

Por sua vez, Uma aldeia no Terceiro Reich, de Julia Boyd & Angelika Patel, reconstrói a vida quotidiana numa pequena aldeia alemã durante a ascensão e queda do regime nazi. Partindo de diários, cartas e arquivos locais, as autoras compõem um retrato fascinante e perturbador: como é que pessoas comuns lidaram com propaganda, violência, medo e escolhas morais difíceis?
Esta obra, editada pela D. Quixote, aproxima o leitor de um dos períodos mais estudados da história europeia, mas através do prisma íntimo do quotidiano, onde se revelam contradições, cumplicidades e resistências, sendo uma excelente oferta para leitores que gostam de história rigorosa, narrativa envolvente e reflexão ética.

No universo dos autores nacionais, a primeira chamada vai para O último a sair, um frenético policial assinado por Mário Zambujal, que, aos 90 anos, cria uma história “desatinada” que mantém o seu humor inconfundível ao combinar leveza, ironia e personagens cheias de vida.
Tal como em toda a sua obra, Zambujal brinda-nos com uma leitura inteligente, num tom despreocupado e afetuosamente satírico que tão bem domina, criando situações hilariantes, diálogos soltos e uma visão bem-humorada das fragilidades humanas, e com personagens inesquecíveis como o são a psicóloga Lídia e o chefe de polícia reformado Rodrigo Mendes.
Tudo começa com a morte de um amigo e a decisão do casal em descobrir a verdade. A edição é do Clube do Autor.

E já que falamos de humor, Uma família surreal, de Hugo van der Ding, é outro livro a ter em conta no sapatinho. Com selo Oficina do Livro, é inspirado na série que conquistou as redes sociais e conta com todos os ingredientes do humor característico de Hugo van der Ding: personagens excêntricas, quotidianos caóticos e frases que se tornam imediatamente citáveis. Tudo isto a partir, imagina-se, da história da monarquia portuguesa em que, como sublinha o autor, “rigor rima com humor”.
Uma Família Surreal tem o condão de transformar o absurdo em espelho da vida real, com humor rápido, inteligente e por vezes ternurento, resultando num livro vibrante que é sinónimo da prenda perfeita para quem gosta de rir ou segue o autor e quer ter a coleção completa na estante.

A nossa derradeira sugestão é um dos livros marcantes de 2025: A montanha, de José Luís Peixoto, editado pela Quetzal. Trata-se do muito aguardado regresso de um dos escritores mais originais da “nova geração”, sendo um romance de grande intensidade emocional, onde a montanha funciona como metáfora de memória, perda e transcendência.
A escrita é poética, minuciosa, carregada de imagens sensoriais que dão profundidade a uma história sobre laços familiares e transformação interior, onde a palavra “cancro”, a negrito, faz toda a diferença.  
Através disso, Peixoto cria um universo íntimo, reunindo seis testemunhos de pacientes do Instituto Português de Oncologia do Porto, onde a paisagem se confunde com o destino das personagens. É uma excelente prenda para leitores de literatura portuguesa contemporânea, especialmente para quem aprecia prosa lírica e histórias que falam ao coração com delicadeza e força.

Bom natal e boas leituras!



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