Ler é o melhor remédio
Do sofrimento psicológico à genealogia

Aprender a andar no escuro
de João Perestrelo
Contraponto (contrapontoeditores.pt)
Ao viver num contexto de ditadura da felicidade, a tendência de muitos é fechar os olhos ao sofrimento como se a dor a ele associada fosse algo proibido.
É sobre essa realidade tóxica que se centra o foco de Aprender a Andar no Escuro, um livro sobre o que pode nos acontecer quando surge a instabilidade perante aquilo que julgávamos conhecer de nós e do mundo.
João Perestrelo, médico psiquiatra, psicoterapeuta e docente convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, escreve a partir de uma metáfora simples e poderosa: a travessia da escuridão como experiência inevitável e transformadora. Mas, em vez de se encarar o escuro, como o inimigo, o leitor é convidado a entendê-lo com o espaço onde o olhar se refaz.
Ao longo de três capítulos, cujo caminho se bifurca entre As origens do sofrimento, O sofrimento e a doença mental e a Via de transmutação, mergulhamos numa prosa limpa e introspetiva, através da qual o autor questiona a nossa obsessão pela claridade, entenda-se a necessidade contemporânea de ter tudo iluminado, explicado, controlado, e propõe o oposto: aceitar o desconforto, escutar o silêncio, reaprender a confiar no tato.
O livro é escrito entre o ensaio filosófico e a narrativa íntima, cruzando memórias, observações quotidianas e reflexões espirituais. A estrutura é fragmentada, como se a própria escrita tateasse o caminho e o tom é profundamente pessoal, já que Perestrelo opta pela partilha, rejeitando manter-se à margem. E é nessa vulnerabilidade que o livro encontra a sua força.
Também por isso, a maior virtude de Aprender a Andar no Escuro está na honestidade com que recusa soluções fáceis, oferecendo a possibilidade de habitar o desconhecido com menos medo. A linguagem é depurada, quase meditativa, e o ritmo convida à pausa, enquanto se vislumbra um caminho por entre as sombras que, por vezes, visitam as nossas vidas.
Tome nota
«O desafio não é apenas absorver o que nos é oferecido, mas transformar a maneira como olhamos para o sofrimento. Reconhecê-lo como parte integrante da experiência humana, que não precisa de ser vencido ou amputado, mas sim compreendido, integrado e, em última análise, transcendido.»

O Meu Corpo Genealógico
de Élisabeth Horowitz
Nascente (Penguin)
Neste livro, a psicoterapeuta especializada em psicogenealogia Élisabeth Horowitz defende que muitas doenças físicas e emocionais, como a ansiedade, a depressão ou as perturbações digestivas, podem ter origem em traumas familiares herdados. Para tal, a autora sustenta que o corpo “guarda” a história dos antepassados e manifesta, através de sintomas, conflitos não resolvidos ao longo das gerações.
Tendo por base esse ponto de partida, e com base em 25 anos de investigação, Horowitz propõe que padrões familiares repetidos possam influenciar não só o comportamento, mas também o funcionamento biológico, afetando o metabolismo e até o ADN, com o livro a apresentar exemplos clínicos e exercícios práticos que ajudam o leitor a reconhecer e libertar-se desses “legados invisíveis”, numa perspetiva de cura transgeracional.
Uma das mais-valias de O Meu Corpo Genealógico é a forma acessível como a autora liga corpo e história familiar, incentivando à reflexão sobre a dimensão emocional da doença, com a leitura dos cinco capítulos do livro a assumir-se envolvente e oferecendo uma visão integradora entre psicologia, biologia e espiritualidade, numa linguagem simples e empática.
A abordagem de Horowitz é mais simbólica do que clínica, com isso a puder levantar dúvidas entre os mais céticos, mas tem a mais-valia de desafiar a olhar para a saúde de forma mais holística, lembrando que compreender o que o corpo expressa pode ser um primeiro passo para quebrar ciclos de sofrimento herdado e promover o equilíbrio entre corpo, mente e história familiar.
Tome nota
«O núcleo familiar é, em primeira instância, a fonte da maioria dos problemas de saúde, sejam eles físicos e/ou psíquicos. Na verdade, a natureza da relação entre o eu e os ascendentes vai do íntimo e afetuoso ao distante e hostil.»
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