“A Tristeza dos Anjos” de Jón Kalman Stéfansson

“A Tristeza dos Anjos” de Jón Kalman Stéfansson

Certas palavras são como farpas geladas

A literatura nórdica ganhou nas últimas décadas uma considerável reputação e não apenas no que toca aos universos do thriller e policial. A elegância da narrativa é uma das mais reconhecidas características dos livros vindos de Dinamarca, Finlândia, Suécia e Islândia, sendo dessa pequena e misteriosa ilha que nos chega “A Tristeza dos Anjos” (Cavalo de Ferro, 2014) de Jón Kalman Stéfansson, um autor que é considerado por muitos como uma das mais importantes e originais vozes da literatura europeia contemporânea.

As obras de Stéfansson têm sido alvo de reconhecimento em forma de galardões dos quais destacamos o prestigiado prémio de literatura islandesa, em 2011, o Grinzane Bottare Lattes (Itália), tendo sido igualmente nomeado finalista dos prémios Fémina Étranger (França) e Independent (Reino Unido).

Ciente da inquestionável qualidade das obras do islandês, a Cavalo de Ferro lançou em 2011, “Paraíso e Inferno”, primeiro volume de uma trilogia que recentemente levou a editora a trazer aos escaparates “A Tristeza dos Anjos”, segundo tomo dessa coleção e um livro que, mais uma vez, transporta o leitor para o interior de um universo que junta a particularidade da ambiência nórdica com a magia de uma prosa tão especial como única.

E a Islândia é dona de uma natureza cruel, austera e fria, que apenas encontra sinónimo em alguns corações humanos que primam pela rudeza que, ainda assim, quando confrontados com a opulência da paisagem e a hostilidades dos seus componentes, continuam obstinadamente a contrapor a sua força até ao limite da exaustão.

Depois dos acontecimentos de “Paraíso e Inferno”, Jens, chega à aldeia conseguindo assim salvar-se da tempestade que o fustigou durante a demanda. Mas esse trajeto deixou marcas. Jens quase perdia a vida e a sua figura confundia-se com o manto e o gelo que o afundavam.

Mas, felizmente, Helga e o rapaz órfão chegam a tempo. Consciente que a sua viagem tem de continuar, Jens tenta, a contrarrelógio, recuperar energias para conseguir terminar a sua tarefa: levar o correio aos longínquos fiordes do Norte, «ali, onde a Islândia acaba e deixa lugar ao inverno eterno» e será o rapaz a acompanhá-lo.

Mas além do peso da existência, Jens, um gigante mudo, carrega a gravidade de uma secreta paixão e procura a expiação da paisagem desolada. Em plena descoberta dos sentidos e da sua própria identidade, Jens crê no poder salvífico das ideias, acredita no poder analgésico das palavras que transformam a humanidade em algo maldito e sublime.

Um mesmo espaço, reúne um par de solidões inconciliáveis que se completam através de uma épica marcha face a um inferno de tonalidades claras, uma luta fraterna cujo objetivo é a defesa da dignidade humana de encontro ao mistério cruel da natureza.

Fruto de um discurso que amálgama uma assertividade narrativa com um filão poético, Jón Kalman Stéfansson, descreve uma viagem cujo destino é a própria génese da existência, em que a dureza da natureza é um dos maiores obstáculos e leva a considera a morte como uma alternativa face às crescentes trevas.

Ainda que não estejamos perante um título de leitura fácil, à semelhança do primeiro tomo da trilogia, “A Tristeza dos Anjos” é um livro extremamente belo e épico, que desafia os limites do leitor face a um sofrimento que nos trespassa através das páginas.

A forma como Jón Kalman Stéfansson narra a Islândia do século XIX faz-nos sentir a observar uma tela que se molda com o passar dos capítulos, com o evoluir de uma estória que está estruturada de forma independente, não obrigando o leitor a ter lido “Paraíso e Inferno”.

Um dos grandes trunfos do livro é o relato da jornada temerária por uma Islândia que se refugia sob um perfil inóspito e cruel, algo que encontra um poderoso alicerce na escrita delicada e por vezes “barroca” de Stéfansson, que passa o devido calor face a um cenário gelado, equilíbrio esse que encontra eco na emoção inerente a personagens emotivos e muito bem delineados.

“A Tristeza dos Anjos” consegue a façanha de colocar o leitor defronte de uma falésia lírica alimentada a flocos (gelados) de uma poesia que se entranha depois de se estranhar, que percorre e corrompe a alma e fluí como um sonho que, num ápice, se transforma em um pesadelo aflitivo e apenas encontra amparo no facto de sabermos que a aventura vai continuar, ainda que não saibamos como, quando, onde e porquê. No fundo, o destino ao poder dos livros (como este) pertence.



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