“A Maldição de Rosas” de Diana Pinguicha
História, misticismo e amores proibidos
‘A Maldição de Rosas’, de Diana Pinguicha (Manuscrito, 2023), é um ‘retelling’ mágico, com toques de mistério e misticismo aliados a um amor proibido. Uma história apaixonante e ficcional, tendo como protagonista uma das Rainhas mais conhecidas de Portugal, a sua dedicação ao povo e um milagre que a tornaria santa.
Não existia lugar mais arranjado e guardado que Isabel tivesse alguma vez visto, mas sabia que as aparências enganavam. Não havia lugar onde não existisse pobreza, e a Terra da Moura não era uma exceção.
Diana Pinguicha, alentejana de Estremoz, formada em Engenharia Informática, vive em Lisboa, e é dedicada aos seus dois gatos “Sushi” e “Jubas” e ao seu dragão barbudo fêmea “Norberta”, a quem dedica este livro.
Viu o seu livro ser, originalmente, publicado em inglês, pela Entagled Publishing (Nova Iorque, 2020), e agora, em português, pela editora Manuscrito (2023).
A sua atenção para com os leitores é visível, quer na sua Nota de Autora, onde explica os motivos que a levaram a escrever esta história, onde informa o leitor de que tomou algumas liberdades artísticas com personagens da História, tais como idades que não batem certo, locais que só foram anexados posteriormente ao período em que decorre a história, quer nos avisos de possíveis gatilhos, e nas notas de rodapé.
O seu interesse pelo tema da Rainha Santa Isabel, advém da história que lhe foi contada, bem como da ligação da Rainha a Estremoz, terra natal da autora.
Com o seu casamento com um rei estrangeiro e os escrúpulos dele contra a caridade, a vida de Isabel desenrolava-se da mesma maneira da da sua tia; com uma maldição semelhante e casada com um homem de natureza parecida.
A história decorre em 1288. Isabel, princesa de Aragão, tem 17, quase 18 anos. Está a viver em Portugal e é a prometida de D. Dinis.
É um ser ingénuo e bondoso, cujo propósito é cumprir o seu dever para com Dinis e o reino. Alguém que só quer salvar o povo, quando também ela está quase a morrer devido a uma maldição.
Esta abnegação e altruísmo por parte de Isabel, são encarados como virtudes por uns, e como defeitos para outros que a conhecem bem.
Porém, Isabel é uma jovem de convicções e dificilmente retrocede numa decisão, mesmo que isso a prejudique e a coloque num risco mortal.
Isabel soube que teria de pôr fim àquela maldição, mas como é que era suposto acabar com uma força que não conseguia controlar?
Com Brites, a sua aia de confiança, convencem Vasco a acompanhá-las enquanto procuram pela Moura da lenda. Uma moura aprisionada numa pedra, amaldiçoada há 100 anos, que pode colocar um fim na maldição de Isabel, mas para isso, Isabel terá que pagar o preço.

Olhou para os dedos, o brilho da magia ia ficando cada vez mais forte e mais rápido à medida que trotavam na margem do rio e ao som da água que corria. A Moura estava ali – não tinha dúvidas.
O que se segue é um pacto que vai afetar a vida de todos, e adicionar mais um segredo, aos que ela já guardava, provocando um efeito bola de neve, crescente e iminente, que pode causar uma avalancha avassaladora e mortífera.
Porém, além de ser parte do motivo que leva ao desenrolar da história, a moura, Fatyan, é desde o início, como um raio de luz vibrante na vida de Isabel. É ela que tenta tirar Isabel da sua concha, que a liberta das correntes que lhe corroem a alma.
Liberta de medos, Isabel cresce como mulher e aprende a aceitar-se tal como é.
“Sob o toque da Moura, Isabel iluminou-se, como se tivesse velas sob a pele e os dedos de Fatyan fossem a chama que lhes acendia o pavio.”
O casal Isabel e Dinis, são retratados, um pouco como são conhecidos na História de Portugal, um ‘power couple’ politicamente.
D. Dinis é retratado como alguém inteligente, porém falho e mulherengo, mas a ênfase do enredo consiste nos sentimentos de Isabel, não como mulher traída pelo noivo e meramente dedicada ao reino, mas como alguém que sofre de uma maldição que a atormenta e a faz sofrer, enquanto, simultaneamente, se arrisca pelo povo.
O elo entre ele e Isabel pode ser diferente do dela com Fatyan, mas não é inferior. É um tipo diferente de carinho. Gradualmente, o leitor pode entender como Dinis e Fatyan não são rivais no amor por Isabel, mas sim duas das suas pessoas-chave. Um como amigo e o outro como amante.
Existem vários tipos de relações nesta história, mas os principais vão desde o companheirismo entre Isabel e Dinis para o bem do povo e paz do reino, apesar dos conflitos derivados de tal dedicação por parte de Isabel; ao elo/amor verdadeiro entre Isabel e Fatyan, dois seres que juntas iluminam como o sol, mesmo sendo o seu amor impossível; e ao sacrifício de Isabel pelo povo, o risco que corria para tentar salvar aqueles que pouco ou nada tinham.
Também, existem traições, segredos e jogos de interesses, além de alguns momentos e personagens frustrantes, alguns momentaneamente, outros cronicamente, mas nem mesmo tal frustração impede que a leitura seja envolvente e aprazível, tal como uma lufada de ar fresco, onde os personagens femininos são decididos, fortes e destemidos.
No coração de Isabel havia apenas um desejo, uma palavra.
Paz.
Paz da maldição e do seu desperdício.
Paz para crescer forte e ser a princesa que queria ser.
Paz naquele país que se tornara o dela, para que não se perdessem mais vidas em guerras inúteis.
‘A Maldição de Rosas’, de Diana Pinguicha, é uma história de amor, resistência, superação e aceitação, repleta de toques misteriosos e símbolos mágicos da cultura mística de Portugal.
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