«As Três Irmãs» estreia em Lagoa a 22 de maio em digressão nacional
A Momento - Artistas Independentes estreia uma versão metateátrica de Tchekhov que questiona o próprio ato de fazer teatro.
A companhia Momento – Artistas Independentes estreia As Três Irmãs a 22 de maio de 2026, às 19h00, no Auditório Carlos do Carmo, em Lagoa. Com texto de Filipe Gouveia e encenação de Diogo Freitas, o espetáculo não é uma adaptação de Tchekhov — é um ensaio que não consegue terminar, uma companhia que entra num clássico e descobre que não consegue sair de dentro dele. A estreia marca o início de uma digressão nacional que se estende até março de 2027. Os bilhetes custam 8€ e o espetáculo tem interpretação em Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição.
Um ensaio que se torna o espetáculo
Numa sala de ensaios de um teatro importante, Clara, Marta e Tomás trabalham As Três Irmãs de Tchekhov. São, ao mesmo tempo, as personagens e eles próprios: com as suas frustrações, os contratos por pagar, as dúvidas sobre um texto que continua a ser reescrito. O encenador dirige — e não dirige. O dramaturgo entrega folhas novas a meio do ensaio. Tchekhov, que devia vir assistir, acaba por não aparecer. “Estamos ou não a fazer As Três Irmãs?”, pergunta uma das personagens. “Sim. Mas diferente.”
É nesta tensão entre o clássico russo e o processo contemporâneo de o fazer que o espetáculo se instala. As fronteiras entre cena e realidade desfazem-se, não por artifício formal, mas porque o processo as foi apagando. Como o Navio de Teseu — de que também se fala em cena —, o objeto vai sendo substituído peça a peça até já não ser claro o que sobrou do original.
O teatro contemporâneo em conversa consigo próprio
No intervalo, o espetáculo não foge às grandes questões que o teatro contemporâneo não consegue deixar de colocar: o lugar de fala, a pertinência de encenar um autor russo num mundo em guerra, a política de cancelamento, a diferença entre entretenimento e cultura. Os papéis mudam de mãos sem aviso. As certezas evaporam-se. E ainda assim, por baixo de tudo, a frase de Tchekhov ressoa: é preciso viver.
A peça é interpretada por Clara Nogueira, Diogo Freitas, Filipe Gouveia, Marta Andrino, Rafael Gomes e Tomás Bárbara. A versão cénica e dramaturgia são de Filipe Gouveia e Diogo Freitas, com tradução de Orlando Vitorino e Azinhal Abelho. O desenho e operação de luz são de Pedro Abreu e a música original é de Cláudio Tavares. Os figurinos são de Lidija Kolovrat e a cenografia de Diogo Freitas.
Uma digressão nacional comprometida com a descentralização
A estreia em Lagoa não é acaso — é programa. A Momento – Artistas Independentes é uma companhia comprometida com a itinerância e a descentralização cultural, e As Três Irmãs reflete esse compromisso: depois do Auditório Carlos do Carmo, o espetáculo segue para o Teatro Diogo Bernardes em Ponte de Lima (29 de maio, às 21h30), o Theatro Gil Vicente em Barcelos (13 de junho, às 21h30), e passa ainda por Famalicão, Loulé, Leiria e Bragança ao longo da temporada.
A co-produção envolve sete instituições teatrais de norte a sul do país: o Auditório Carlos do Carmo (Lagoa), o Teatro Diogo Bernardes (Ponte de Lima), o Theatro Gil Vicente (Barcelos), o Município de Famalicão, o Cineteatro Louletano, o Teatro José Lúcio da Silva (Leiria) e o Teatro Municipal de Bragança. Uma estrutura que reflete a escala da ambição da Momento e o seu lugar no mapa do teatro português.
Como e onde ver
A estreia absoluta de As Três Irmãs acontece a 22 de maio de 2026, às 19h00, no Auditório Carlos do Carmo, em Lagoa. Com duração de 85 minutos e classificação para maiores de 12 anos, os bilhetes custam 8€ (com descontos habituais) e estão disponíveis em auditoriocarlosdocarmo.bol.pt. O espetáculo conta com interpretação em Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição, garantindo a sua acessibilidade a públicos mais amplos. Para as datas de Ponte de Lima, os bilhetes estão disponíveis em bol.pt.
Num ano em que o teatro português tem apostado na reflexividade e na consciência do seu próprio fazer, As Três Irmãs da Momento surge como um dos títulos mais prometedores da temporada — uma peça que usa Tchekhov não como escudo, mas como espelho.
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