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“Gatos na Noite”, de Fábio Ventura

A Anatomia da Sombra

Gatos na Noite, de Fábio Ventura (Minotauro, 2024), arranca como um thriller familiar, aparentemente, convencional: o desaparecimento de um pai no ano 2000 e o reencontro forçado dos quatro filhos, 23 anos depois, quando ele reaparece inconsciente num hospital. Mas sendo um livro deste autor, nunca seria nada tão simples.

A capa traça o tom da história com um belo jogo de silhuetas, misturando a abertura de uma caverna (ou falésia), a forma de um gato e uma lua cheia sobre o mar.

O livro utiliza uma estrutura clássica de thriller dramático que rapidamente evolui para um thriller psicológico com contornos de terror conceptual. A narrativa parte do desaparecimento misterioso de um pai e do impacto que esse evento causou na família ao longo de mais de duas décadas. O reencontro das personagens principais, que gradualmente se afastaram no passado, serve como o gatilho para desenterrar segredos há muito guardados e confrontar o passado comum.

O grande diferencial da obra é a forma como o autor utiliza a psicologia junguiana como a engrenagem central do mistério. Em vez de ser apenas um pano de fundo, a teoria psicológica molda o enredo, explorando os limites da mente humana, sugerindo uma ligação profunda e invasiva entre a psique das personagens.

O conceito junguiano da “Sombra” — o lado oculto, reprimido e desconhecido de nós próprios — é trabalhado de forma quase literal. O livro aborda o medo que temos dos nossos próprios demónios e traumas, e o que acontece quando perdemos o controlo sobre eles.

O autor cria manifestações simbólicas fortes (como figuras sombrias com identidades muito próprias), que funcionam como representações visuais dos traumas e da fragmentação mental das personagens. A partir daqui, o autor faz um estudo detalhado sobre o impacto do abuso psicológico e de ambientes altamente disfuncionais na juventude, destacando o entorpecimento emocional, a forma como a mente cria uma “casca” ou armadura apática para sobreviver à dor e proteger a sua integridade, bem como a transformação/alteração da personalidade como consequência de uma exposição prolongada à manipulação, que acaba por desumanizar indivíduos outrora calmos e felizes, alterando profundamente os seus instintos de sobrevivência.

Alinhado com o estilo de Fábio Ventura (também visível em Corações de Papel e O Sono dos Culpados), o confinamento é uma ferramenta narrativa essencial, pois colocar as personagens num espaço restrito e isolado (neste caso, a Casa da Lua), cria um efeito de “panela de pressão”.

O confinamento exterior mimetiza a claustrofobia interior de quem vive preso aos seus próprios traumas. Sem escapatória, as personagens são obrigadas a confrontar-se mutuamente e a olhar para dentro de si mesmas.

É admirável como o autor tem uma atenção ao worldbuilding, criando um universo seu muito próprio.

Gatos na Noite embora possa ser lido como um standalone, não vive isolado. O livro introduz elementos de conspiração e manipulação institucional que expandem o universo do autor. Esta teia de organizações secretas focadas no controlo e no estudo da mente humana faz a ponte direta com o livro Corações de Papel, criando uma mitologia partilhada onde a criatividade, a ficção e a psique são usadas como ferramentas de poder.

Especial destaque para a cena final, que acaba por ser uma metáfora visual perfeita da cura psicológica, deixando algumas possibilidades para o futuro.

O quarto livro de Fábio Ventura, O Peso dos Outros, foi lançado recentemente pela Penguin, e o autor estará presente na Feira do Livro de Lisboa, nos dia 5 e 6 de Junho.



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