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O sabor da Noz

Podia ser um sabor qualquer, mas é o da noz... E a noz sabe bem, sabe a música portuguesa!

Noz é o trabalho a solo de Bernardo Palmeirim, cantautor de Lisboa, cantor de causas e reivindicações em português e guitarrês.

Depois de The Grey Blues Bend (com Norberto Lobo, Filipe Rocha, Ricardo Santos e Pedro Magalhães), em 2003, e Nome Comum, um projecto paralelo, com Madalena Palmeirim, Gonçalo Castro e Nuno Morão, em 2008, surge o primeiro EP a solo. Quatro temas a sair do forno, música 100% caseira com umas pitadas de folk, indie, bossa nova e até algum rock and roll. «Finisterra» é o single de lançamento, uma canção onde a ironia serve de botão start para a crónica social.

Mas porquê agora e porquê um trabalho a solo, perguntámos nós: “agora, porque sinto que estou finalmente na altura certa. A par dos dois projectos – um que tive e o outro que tenho -, fui empilhando várias canções, a maioria delas em português. Mas era cada vez mais óbvio que o tempo – relativamente escasso – que tinha para a música, acabava por ser dedicado em demasia à exploração de sons e a composição de orquestrações. Gravava uma base, brincava com as ferramentas todas que tinha e passava para a próxima ideia. O que, por um lado é bom, mas por outro, me levava à conclusão que não sabia interpretar as minhas próprias canções! Cheguei, então, a um ponto em que resolvi pegar nesse trabalho todo com uma atitude diferente: apresentar essas músicas da forma mais despida possível, só guitarra e voz.”

Com uma mescla interessante de influências musicais ou “etiquetas”, como refere, Bernardo Palmeirim começou a tocar ao som de Hendrix, Zeppelin e “alguma malta assim”, explica: “folk, indie, bossa nova e rock são alguns dos ingredientes do novo projecto, algumas das minhas influências – ouço música de todos os estilos-, mas são aquelas etiquetas que melhor me parecem ajudar a explicar os principais ingredientes que entram na música que faço. Quando comecei a tocar guitarra, ouvia muito Hendrix, Zeppelin, malta assim… Sacava muito de ouvido, e imitava e improvisava solos por cima de cassetes. Depois, estudei um pouco de jazz, enquanto em casa ouvia grunge, 60’s, electrónica, por aí… Depois, houve um ano, muito excepcional, em que não toquei guitarra e quando voltei a tocar, vinha com uma paixão pela bossa nova, o violão, aquela harmonia típica… Depois disso, às tantas a partir de Nick Drake, o Norberto Lobo aí teve influência, comecei a entrar em dedilhados mais folk e fui começando a trabalhar a partir daí. Isto tudo em relação à guitarra, porque as letras vêm de muitos sítios, e não só de canções.”

No conforto do lar, sem nada a interferir, teve tempo para experimentar sons e variações de todos os tipos, diz: “realmente gosto muito de gravar em casa, sobretudo pela possibilidade de ter tempo e espaço para experimentar sons e variações, e de contaminar a música com mestiçagens sonoras. Isso está bastante presente no EP “Four Songs” dos Grey. Este “Noz” é mais simples, de propósito, pois a base é acústica. A bateria, o baixo e tudo surge à parte da guitarra e voz, são samples programados. Mas vejo este EP sobretudo como um cartão de visita. Fi-lo algo heterogéneo, com duas portuguesas, uma inglesa, uma só em guitarrês, mesmo para sublinhar as possibilidades do que quero vir a desenvolver. Por razões logísticas, para já o projecto será acústico mas, com tempo, quero tentar todo o tipo de sonoridades, desde o electrónico ao clássico ao experimentalismo. Este EP é só o dedo do pé na porta.”

E porquê Noz e não outro fruto seco qualquer? “Gostei do nome por várias razões. Por um lado, é curto. Por outro lê-se como nós, e gosto dessa ideia de incluir muita gente dentro duma casca de noz e de a povoar. Gosto da ideia de que há muita coisa dentro de nós, que precisa de sair para a rua, sem timidez, à busca do entendimento nas outras pessoas e do prazer que isso dá… E isso tem a ver com o meu desenvolvimento pessoal dentro da música, de querer dar esse passo, da introspecção cá para fora, até algo objectivado: até Nós. No fundo tinha muitas ideias prontas para sair da casca, e esse nome sugere-me isso tudo e mais!”

Com um caminho de sucesso na calha, o cantautor de Lisboa tem um objectivo para os próximos tempos: “ao longo de uns 15 anos, foram-se somando muitas meias-canções. Decidi sacá-las da gaveta, riscar impiedosamente tudo o que estava só mais ou menos, e reescrevê-las a partir deste meu prisma do presente. E, obviamente, criar músicas novas. Apercebo-me de que estou numa fase criativa diferente, mais aberta. E agora que considero que já tenho material suficiente para dar concertos, vou atirar-me a isso, dentro do tempo que tenha”. E seja feita a sua vontade! Nós por cá, aguardamos, ansiosa e impiedosamente!

Noz à parte…

Uma música:

Para ouvir no carro, numa viagem à terra: «Love is all» (The Tallest Man on Earth);

Para ouvir a dois, ao sabor de um copo de vinho tinto: «Você e eu» (João Gilberto);

Para ouvir com o pôr do sol: «Mouth canyon» (Gastr del Sol);

Para ouvir zangado: «Teethgrinder» (Therapy);

Para ouvir feliz: «Quem te viu, quem te vê» (Chico Buarque);

Para ouvir ao adormecer: «The softest voice» (Animal Collective).

Fotografia por Paulo Martins



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