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Chappismo

Com charme e guarda-chuva: o ressurgir do chap

Abaixo com o informal! Numa era em que a publicidade nos trata por tu, e na qual mesmo as pessoas nos maiores cargos de poder tentam ser béda jovens, a única rebelião possível consiste em voltar aos brandos costumes. Um vestuário complicado e disciplinado para combater a praga da moda casual; discussões elaboradas sobre as obras de Shelley e Byron que nunca podiam caber no Twitter; uma preocupação profunda com tabaco de cachimbo, portos vintage e cabelo facial. É assim que se distinguem os membros da sub-cultura chap.

Gustav Temple, editor da revista bimensal “The Chap” (sub-titulada “a journal for the modern gentleman”) define o chapismo da seguinte forma: “um homem ou uma mulher (chapette) que renuncia as modas e convenções modernas, e em vez disso escolhe as roupas, os comportamentos e o estilo de vida da Grã-Bretanha dos anos 40 e 50, fazendo o seu melhor para aplicar esses mesmos ao mundo contemporâneo”.

“The Chap” é, desde 1999, a Bíblia para uma certa estripe de excêntrico. Nas suas páginas discutem-se de forma acesa os do’s e don’ts da indumentária clássica, as origens e sub-categorias de toda a espécie de bebidas alcoólicas, e os livros, filmes, lojas e programas de televisão que se inserem na filosofia chap. Apesar de Temple especificar os anos 40 e 50, na verdade o chapismo mistura elementos de múltiplas eras do cavalheirismo britânico, desde a época Victoriana até à groovyness-com-fato-e-gravata que distingue a primeira metade dos anos 60. Ser chap, passo a frase-feita, é uma atitude: consiste em adoptar um snobbismo abrangente, uma hostilidade declarada ao mundo moderno, uma pomposidade propositada, uma vaidade exigente, um amor às coisas refinadas da vida e a pose de um jovem e inútil diletante, filho de pais ricos e incapaz de sair da cama sem a ajuda de um mordomo. O chap passa horas a escolher a sua roupa, insiste em rigorosos protocolos mesmo nas ocasiões mais informais, e não acredita em situações que não exijam gravata.

O “The Chap” existe para servir este grupo: há artigos extensos sobre quase todas as facetas da Boa Vida (clubes, vinhos e licores, fatos e chapéus, tabacos e carros vintage), peças biográficas sobre exploradores, pilotos, poetas e artistas de burlesco de tempos passados, e entrevistas com as poucas e orgulhosas celebridades vivas que são do agrado da redacção. Cada edição dedica-se a um tema específico (sendo que a política, a religião, a espionagem e a jardinagem são todas tratadas com o mesmo à vontade de quem não lhes atribui grande importância), mas existem também colunas regulares, como o “Upstairs Downstairs” (no qual celebridades actuais são comparadas, sempre desfavoravelmente, aos seus predecessores), “The Whiskerade” (em que se perfilam os melhores bigodes) e “Am I Chap?” a secção em que leitores enviam fotografias para saberem se se podem contar entre as elites do chapismo; a resposta da redacção, por muito bem composta que seja a indumentária dos concorrentes, é sempre um retumbante “não”.

Gustav Temple explica que “segundo um inquérito aos leitores realizado recentemente” o público do “The Chap” consiste predominantemente em “homens dos 25 aos 44 anos, interessados em cuidados pessoais, plastrões impecáveis e outros peças de vestuário de seda, cachimbos e outros interesses que os afastam da sociedade normal”.

Uma iniciativa tão inusitada como o “The Chap”, claro, teve que partir da iniciativa privada, num molde do it yourself:

“Em 1999 eu e um grupo de amigos decidimos que não havia nenhuma revista para nós, que falasse de refinamento sartorial,  de como misturar martinis secos e da forma correcta de tirar o chapéu na presença de uma senhora. Por isso agrafamos rapidamente um projecto de uma revista chamada ‘The Chap’, feita a partir de umas fotocópias de folhas de papel A5, e distribuímos pelas nossas famílias e amigos, enviando também exemplares a alguns jornalistas. Repentinamente, deparamo-nos com uma procura esmagadora, com 600 pessoas a pedirem para assinar à revista. Por isso pegamos imediatamente nos nossos salários semanais e dirigimo-nos para a pista de corridas em Epsom, apostando tudo numa égua de boa linhagem e excelente condição física”.

A aposta, Temple explica, correu mal: “ficou em último lugar, tendo ficado nervosa devido aos nossos gritos de encorajamento da tribuna”. Foi altura de apostar no Plano B: “pedimos algum dinheiro emprestado ao meu pai e imprimimos mil cópias da primeira edição em papel decente. A seguir a isso a publicação começou a funcionar bem, e por cinco anos produzimos quatro edições por ano, até chegarmos à regularidade bimensal que temos actualmente”.

Chapismo sem preconceito

Os encantos do chapismo são óbvios para um público branco, masculino e bem abastecido – mas para o resto do mundo, será que há benefícios em aceitar a nostalgia por uma era que, para além da erudição e das boas maneiras, também se encontrava mergulhada em imperialismo, sexismo, nacionalismo e pobreza miserável para uma fatia substancial da população?

Talvez. Afinal de contas, através do pós-modernismo, é nos possível – utilizando a expressão britânica – comer o scone e guardá-lo também. O imperialismo europeu deixou um legado de sangue e horror que ainda irá levar uns valentes séculos até ser completamente eliminado. Mas felizmente a universalidade do espírito humano permite que as culturas encontrem as partes valiosas umas das outras, mesmo quando uma está no papel de opressor e a outra no de rebelde. Uma edição recente do “The Chap” atraiu as atenções para o livro “Gentlemen Of Bakongo” de Danielle Tamagni, que retrata a sociedade SAPE (Sociéte des ambianceurs et des personnes élégantes), uma instituição congolesa cujos membros procuram, através de fatos e cachimbos, imitar a elegância parisiense. As saudosas manchetes oitocentistas, como costumavam aparecer por estas terras no falecido “O Século”, encontram-se extintas no jornalismo ocidental, mas na Índia proliferam alegremente – de notar que é também esta a nação em que P.G. Wodehouse, o escritor chap por excelência, continua a figurar nas tabelas dos livros mais vendidos. O próprio editor afirma que, apesar de “as origens do chapismo” serem britânicas, há chaps por todo o mundo – “pessoalmente já vi chaps em lugares tão remotos como a Índia e Singapura.” E Temple reserva um elogio especial para Portugal: “há muitos chaps pela Europa afora, e Portugal é capaz de ter uma das suas maiores concentrações. A única tradução do ‘Chap Manifesto’, o nosso primeiro livro, foi para o português”.

O mesmo vale para a divisão entre os sexos – o tipo de nostalgia praticado pelo “The Chap” atrai bastantes leitoras, e se algumas delas deliciam-se em encarnar criaturas frágeis sempre dispostas a desmaiar nos braços de um cavalheiro, outras preferem a postura de desenrasque maria-rapaz de uma Amelia Earhart ou a irreverência de uma glamour girl no molde de Dorothy Parker. Gustav explica o conceito do que a sua revista categoriza como “chapettes”:  “uma chapette é uma senhora que não tem medo de ser feminina, quando lhe parece proveitoso ajustar as meias. Mas caso se sinta com uma disposição de maria-rapaz, pode vestir umas calças e fumar um cachimbo. Talvez a liberdade de expressão seja maior para as mulheres dentro do nosso movimento, porque no mundo contemporâneo vale tudo. Até há raparigas que aparecem nos nossos eventos com bigodes postiços, o que julgo que poderá ser levar as coisas um bocadinho demasiado longe”.

O cad

Importante referir também uma sub-estripe bastante particular dentro da cultura chap: o cad, também apelidado de rake ou bounder. Estes encarnam o lado negro do chappismo: falamos de malandros incorrigíveis, que vivem uma vida de intoxicação e hedonismo sem se preocuparem com a reputação da sua família ou mesmo das inocentes meninas que seduzem para o seu estilo de vida. O aparato essencial para um cad é o bigode (se bem que deverá ser notado, pelo bem da reputação de muitos homens honrosos e do autor deste texto em particular, que nem todos os chaps com bigode pertencem a essa classe), preferivelmente longo e negro, e por vezes acompanhado de uma cartola. O típico cad dedica-se à má vida, esbanjando a sua fortuna em bebida cara e mulheres fáceis. No entanto, há dentro desta linhagem indivíduos mais ambiciosos. Um cad pode canalizar os seus instintos nefastos para toda uma panóplia de más acções. Há quem opte por uma carreira de ladrão-cavalheiro, furtando jóias inestimáveis a marajás e imperadores; há quem se dedique ao rapto de donzelas, colocando as mesmas em carris de ferro para dar maior potência às suas ameaças de chantagem; e até há quem se atreva a trair a própria pátria, iniciando assim uma vida de contra-espionagem, muitas vezes ao serviço dos odiados boches.

O “The Chap” dedica uma boa percentagem de espaço da sua revista a estas ovelinhas negras do espírito chappista. A coluna de Michael “Atters” Atree dedica-se quase exclusivamente às aventuras alcoolizadas de um sem-vergonha de boa casa.

Está-se a reinar?

O leitor moderno poderá ficar um tanto ou quanto confuso ao percorrer as páginas do “The Chap”: mas será que isto é a sério? Existem deveras pessoas por aí que recusam acreditar que as últimas cinco décadas aconteceram?

Há sempre quem leve as coisas mais e menos a sério. Dos disfarces mal arranjados presentes em muitas cartas de leitores, é claro que para muita gente o chappismo não passa de um Carnaval espontâneo. Outros abraçam o estilo de vida a tempo inteiro, e resignam-se assim a participar numa sub-cultura que, como todos os outros revivalismos puritanos, sejam mod ou rockabilly, acarreta o mofo da estagnação. O próprio “The Chap” é vendido como uma revista humorística, e o recurso a termos como OnesTube (para o YouTube) e “popular beat combo” (para grupos como os The Libertines) garante que os autores usam alguma ironia. Mas a revista é mais do que isso – os artigos sobre tabacos, álcool e vestuário são, regra geral, extremamente bem pesquisados e satisfazem tanto como artigos comparáveis em qualquer outra revista lifestyle.

O “The Chap” dedica-se a recuperar hábitos que caíram em desuso, e não deviam restar dúvidas que existem muitos arcaísmos que merecem ser recuperados: o serão no clube, o rapé e um vestuário que, liberto da tirania da comodidade, envolve alegremente botões de punho, plastrões e chapéus, são apenas alguns exemplos. É uma vergonha deixar morrer as coisas velhas, e decerto cada leitor deste texto possui ao menos uma herança dos avós que se podia conjugar facilmente com a sua vida de hipster moderno.

Mas mais do que isso, o “The Chap” remete-nos para uma altura em que as pessoas (talvez não pelas melhores razões, mas ainda assim) tinham mais auto-confiança, mais crença num mundo agradável e aventuroso. Os hábitos de tempos passados podem parecer restritivos para o leitor moderno, mas o verdadeiro chap vive de entusiasmo: pelo seu vestuário, pelo seu armário de licores, pelos seus tempos de lazer. Ele não tem medo de mostrar a sua erudição mencionado batalhas da antiguidade (mesmo que sejam mal citadas) e não se recusa a fornecer um trocadilho para qualquer ocasião (por muito mau que seja.) É esta joie de vivre, este apetite poderoso pela vida em todas as suas formas, que distingue o chap. E mal estamos se isso é antiquado.

Como ser um chap

Um chap tem que ser imediatamente identificável como tal a olho nu: por isso, o primeiro passo para o chappismo reside no vestuário. O fato é obrigatório, preferivelmente encomendado à medida; tweed é o material de eleição. Um bom chapéu é tão essencial como a gravata, o plastrão ou o laço. T-shirts, calças de ganga e sapatilhas são pecados mortais.

O chap quer-se culto: é provável que tenha dormido durante as aulas sobre os clássicos e que saiba só poesia suficiente para seduzir o sexo oposto, mas as suas estantes têm que estar cheias – afinal de contas, o mordomo tem que limpar algo! Quando se encontra consumido pelo ennui, um chap recorre aos versos doentios de Baudelaire; quando encontra o fervor patriótico, segue as aventuras de espionagem de John Buchan. Mas acima de tudo, o chap gosta de ler sobre si mesmo – daí o recorrer frequente a autores como Oscar Wilde, Jerome K. Jerome, Saki e P.G. Wodehouse, cuja criação Bertie Wooster é a apoteose do ideal chap. Também em terras lusas não faltam escritores chap: Eça de Queirós é o exemplo mais óbvio, mas existem também nomes quase esquecidos como Luís de Araújo ou Júlio César Machado.

O chap é um homem de vícios, mas rejeita os estupefacientes modernos, que para este não passam de imitações baratas do ópio. O chap centra-se portanto no rapé, no cachimbo e, claro, no álcool. Basicamente todo o tipo de álcool agrada: cerveja, vinho, whiskey, porto, madeira, brandy e sherry. O importante é que a marca seja obscura, e que todos os procedimentos para tirar o melhor da mistura tenham sido rigorosamente seguidos. Um chap não consome bebidas não alcoólicas, com excepção para o chá das cinco, consumido com alguma tia asquerosa.

A nível musical, recomenda-se tanto as óperas de Gilbert & Sullivan como os prazeres mais rústicos dos cabarets e dos music halls. Alguns dos chaps mais jovens ouvem também um novo estilo de música denominado “hot jazz”, para grande lamento dos comparsas mais velhos.



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