rdb_diskodrunkards_header

Disko Drunkards

Mo e Benoelie (The Glimmers), Tim Vanhamel dos Millionaire, Stéphane Misseghers dos dEUS, Ben Brunin e François De Meyer a remexer no passado, pelo prazer de tocar.

Juntaram-se para tocar uma cover. Correu bem e editaram-na. Então quiseram mais: arrancar com o projecto, lançar um álbum e fazer uma tournée. O projecto arrancou, lançaram o álbum e estão agora em tournée. O álbum é oferecido nos concertos, e esses concertos acontecem à luz do que fez nascer o projecto: tudo pelo prazer de tocar.

Está no nome – é disco dos anos setenta. Mas sobre esta clássica base de guitarra, baixo e bateria, em muito four-to-the-floor e com uma inevitável mão cheia de referências, de White Stripes a Funkadelics, surge uma fulgurante camada de experiências, por vezes esquizofrénicas, através de vozes, teclas e efeitos. São fundamentalmente faixas de longa duração, em que o ênfase está na relação entre a cadência progressiva do ritmo e o toque experimental que cada um dos elementos da banda transmite.

Fora a espectacular cover que fez arrancar o projecto, a faixa Physical – encomenda da marca de roupa sueca WeSC e lançada em 12” pela Diskimo – original da cantora australiana Olivia Newton-John, as restantes composições são delicadas operações de experimentação. Às vezes, com letras absurdamente cómicas (Picture, Who You Gonna Call).

Os Disko Drunkards são então o feliz resultado da colaboração entre a dupla de DJs Mo e Benoelie (The Glimmers) com Tim Vanhamel dos Millionaire, Stéphane Misseghers dos dEUS, Ben Brunin e François De Meyer.

Não vêm dos Estados Unidos – o casulo de onde o estilo disco partiu para o mundo – mas sim de um outro país com uma cultura musical fora dos parâmetros normais: a Bélgica. Desde o crescendo exponencial do rock nos anos sessenta que a Bélgica cimentou uma posição preponderante na sua relação com a música, digamos, popular. Do rock ao jazz, do funk à música do mundo, da electrónica ao experimentalismo, a Bélgica teve sempre um acesso livre e privilegiado à venda de discos, concertos e festivais de todos os géneros, para todos os gostos.

Factores que contribuíram para o desenvolvimento de uma cultura musical generalizada, que veio naturalmente reflectir-se num enorme interesse pela música em geral, fazendo da Bélgica um importante palco e loja para os estilos que percorrem a actualidade. Daí que não seja difícil compreender que musicófilos tão aficionados como os irmãos Dewaele (Soulwax / 2ManyDJs) ou Mo Becha e David ‘Benoelie’ Fouquaert (The Glimmers) cheguem à projecção internacional de que gozam hoje através dos profundos conhecimentos que possuem, e da forma como injectaram esses conhecimentos nos seus projectos.

No caso dos The Glimmers, esta projecção a uma audiência global chegou-lhes em 2005, através do convite da editora alemã !K7 para integrarem a prestigiosa lista de artistas que compilaram um álbum DJ-Kicks. Com esse lançamento, muito ficou respondido quanto à relevância, importância e contributo desta dupla belga na exploração de géneros como o disco ou o funk directamente para a pista de dança. Mas de facto, já antes, em 2004, tinham lançado pela Eskimo Recordings (editora que criaram com Dirk de Ruyk), o álbum-compilação The Glimmers – esta sim, a primeira mostra de conhecimentos de Mo e Benoelie.

Um álbum com um perfeito balanço entre três décadas – o disco dos anos setenta, o synth-pop que dali cresceu para os anos oitenta, e o house que se firmou até ao novo milénio. Fora a compilação de jazz que fizeram para a Blue Note (Blue Note’s Sidetracks Vol 1), foi esta linha, de disco e funk por entre elementos do house, que definiu o espaço dos The Glimmers. Desde então, os singles que editaram, o Fabriclive.31 que compilaram em 2006 e as dezenas de remixes que produziram até hoje são fruto dessa mistura muito singular e muito própria que construíram ao longo dos últimos cinco anos.

E assim chegamos a 2009 para receber um projecto em tudo ligado a este cenário – acrescente-se apenas o facto de agora se apresentarem em formato de banda e de contarem com o magnífico contributo de músicos da cena indie rock belga como Vanhamel ou Misseghers.

História aparte, Who You Gonna Call é um single bastante eficaz – com um video-clip à medida –  e o álbum, The Glimmers present Disko Drunkards, é um excelente exercício de estúdio. E de palco. É que este álbum soa a tudo menos um conjunto de doze faixas. Parece que foi gravado num só take, em que, para além de cada faixa ter como elemento-chave a repetição de ritmo que vai acumulando depois os instrumentos, há este lado progressivo na composição do próprio álbum, sendo que o crescendo aqui desemboca, primeiro, na brilhante versão da faixa Physical e depois, já mais para o final, no single Who You Gonna Call.

A construção de músicas rock desaparece por completo, para dar lugar a este contínuo sonoro, característico da electrónica, alimentado por mudanças de ritmo rápidas e novos elementos a entrar a cada trinta segundos. Nada que já não tenhamos ouvido, por exemplo, do lado de LCD Soundsystem. Mas aqui, o resultado está muito mais potenciado para o lado experimental, com uma variedade de sintetizadores, linhas de baixo. guitarras e vozes que tornam o todo extremamente mutável e agradável.

Uma excelente proposta apresentada pelos The Glimmers. A única questão que se põe é: será que passam por cá para espalhar o seu disco experimental?



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This