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Cinema em Londres

O relato de três meses de agitação cinematográfica na capital inglesa.

Durante os últimos três meses, Londres foi protagonista dos mais variados Festivais de Cinema; desde o cinema com produção independente, até ao cinema de autor, passando pelas curtas metragens, a agitação foi frenética e a adesão em muitos casos ultrapassou as expectativas geradas pelas organizações de cada Festival. Aqui fica o balanço de alguns dos Festivais de Cinema e do que por Londres passou.

Do London Film Festival 2010 (LFF), saiu vencedor na Categoria de Melhor Filme, “How I Ended this Summer”, do realizador Alexei Popogrebski. Já agraciado no Festival de Cinema de Berlim 2010, com os Ursos de Prata nas categorias para Melhor Actor (aos dois protagonistas do filme em “ex-aequo”) e Melhor Contribuição Artistica, o filme teve neste Festival mais um reconhecimento. Não sendo à partida um dos favoritos (aliás, do jovem realizador pouco se conhece), a história sobre dois homens numa estação meteorológica no Ártico, que são forçados a coabitar numa rotina rigorosa e cientifica que de repente são confrontados com uma crise, parece ter agradado ao juri do Festival que o preferiu a tantos outros, inclusive sobre a “prata da casa”, ou seja, produção e/ou realização britânica, como o “Never Let Me Go”, de Mark Romanek, ou o “127 Hours” de Danny Boyle. “Archipelago”, de Joanna Hogg, teve neste Festival um louvor especial do Juri do LFF: a sofisticação e a riqueza visual, contribuiram para o respectivo reconhecimento. Na categoria dos filmes britânicos emergentes, que reconhece os novos talentos britânicos da área, o prémio foi atribuido a Clio Barnard, enquanto realizadora do “The Arbor”, filme ao jeito de documentário sobre a vida da dramaturga Andrea Dunbar.

O Raindance, celebrou a sua 18.ª edição, com a exibição de 77 longas-metragens, das quais 69 tiveram a sua estreia no Reino Unido e 133 curtas metragens. A produção internacional independente é a caracteristica deste festival de cinema, no qual se descatou “Son of Babylon”, de Mohamed Al-Daraji, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. O filme retrata a história de uma criança de 12 anos e da sua mãe, na busca do pai e marido, tendo como pano de fundo as duas semanas que se seguiram ao fim do regime de Saddam Hussein, no Iraque. Visualmente atractivo e comovente, trata-se acima de tudo de um filme humano. É a esperança iraquiana para os Óscares, tendo já ganho dois prémios do Festival de Cinema de Berlim 2010 e um no Sundance Film Festival.  Na categoria de Melhor Filme Britânico, o Raindance premiou “Five Daughters”, de Philippa Lowthorpe. A história de cinco prostitutas, que sucumbiram ao poder da droga, foram assassinadas em 2006 na cidade Ipswich. Um retrato crú e fatalista, é o que se pode esperar desta abordagem.

De uma maneira geral, nestes dois Festivais acaba por se ter uma amostra do que se poderá ver no próximo ano nas salas de cinema, e é um prenúncio do que se irá ouvir falar nos próximos tempos em termos de must-see-movies. Apesar de o LFF 2010, ter revelado algumas surpresas na atribuição dos prémios (não estou a considerar o prémio atribuido a Danny Boyle, pela BFI Fellowship, uma vez que já tinha sido anunciado e o LFF acabou  somente por ser o palco dessa agraciação), convém referir que os favoritos, que estiveram em competição, acabaram por ver a consagração na recente atribuição dos British Indepentend Film Awards 2010. De destacar, “The King´s Speech”, de Tom Hooper, que para além de ter sido considerado como o Melhor Filme Britânico Independente, foi também vencedor nas categorias Melhor Argumento (David Seidler), Melhor Actor (Colin Firth), Melhor Actriz Secundária (Helena Bonham Carter) e Melhor Actor Secundário (Geoffrey Rush). Colin Firth, interpreta, o Rei Jorge VI, que luta contra a sua gaguez nervosa, com a ajuda de Geoffrey Rush, no papel de Lionel Longue, o seu terapeuta da fala. A quimica entre os dois actores, ajuda a desmistificar a ideia de que pode estar aqui em causa um filme seco, sem grande interesse de conteúdo tirando os factos históricos inerentes.

Outro filme que também foi agraciado pelos BIFA, e que era um dos favoritos no London Film Festival 2010, foi  “Never Let Me Go”.  O realizador Mark Romanek, conseguiu reunir um elenco jovem com Keira Knightley em destaque, num filme de estilo clássico, embora com retoques subtis de sci-fi, baseado no aclamado best-seller romance de Kazuo Ishiguro, conta as relações (des)construidas de três amigos de infância, que se reencontram e são confrontados com o que se passou nessa altura. Carey Milliagan, ganhou na categoria de Melhor Actriz, com a sua interpretação neste filme. Convém também em falar em “Another Year”, o esperado regresso de Mike Leigh, o realizador que transpõe para o grande ecran, de forma profunda, a realidade social. É um aclamado regresso para a realidade cinematográfica britânica, que também dedicou em alguns canais de televisão, especiais sobre este realizador. “Another Year”, conta uma história de amor amarga, de perda e amizade, mas que Leigh encontra humor e tristeza nos acontecimentos do quotidiano que moldam a nossa vida. Contudo, em “Another Year”, Mike Leigh parece não trazer nada de novo em relação ao que já fez anteriormente, mas pode-se esperar um filme interessante para quem gosta do estilo.

Nem só de prémios e nomeações vivem os Festivais de Cinema, e nem só os filmes que têm maior exposição, são necessariamente os filmes que deverão ser vistos. Um Festival de Cinema, é também uma forma muito interessante de exportar a sétima arte. Um dos países mestres nesse assunto: França. Com um Festival de Cinema de dimensão europeia, os filmes franceses parece que não saem de moda e têm um certo poder de fidelização do público, o que é de certa forma fascinante. Tal como em Portugal, a abrangência do Festival não se fica só pela capital, e alarga-se pelo Reino Unido.  Assim, nesta mostra, desde logo se destacou, “Hors-la-Loi”, de Rachid Bouchareb, que não encontrou distribuição no Reino Unido, mas que vai acabar por ser exibido para o público britânico. O filme aborda a luta de independência da Argélia, e conta a história de três irmãos, que foram expulsos pelos colonizadores franceses. O filme que esteve em Cannes, acabou por ser muito contestado por alguma franja da sociedade francesa, nomeadamente os ex-combatentes, que acusaram o filme de ser uma vergonha para o país.

Outro país que teve este ano a sua estreia em termos de Festivais de Cinema, foi o Irão. O Festival de Cinema Iraniano teve a sua primeira edição recentemente, e talvez o nome mais sonante desse país seja Abbas Kiarostami, neste festival tentou-se demonstrar vida para lá de Abbas. Com um leque muito reduzido de longas-metragens e curtas, a organização pretendeu mostrar ao público britânico abordagens que à cultura e à identidade iraniana, do qual se destaca “Glass House”, um documentário poderoso, sobre as adolescentes iranianas das franjas mais baixas da socieadade, que tentam romper as dificuldades da segmentação social. Filmado com camaras escondidas, o realizador Hamid Rahmanian, leva os espectadores a uma viagem pelo corajoso e desafiante abandono dessas adolescentes do mundo da dependência das drogas e dos abusos sexuais.



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