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Vodafone Paredes de Coura | Dia 3 (15.08.2025) 

Um estado de contentamento ao terceiro dia no Vodafone Paredes de Coura. Dizem que 3 é número da sorte - pudemos comprová-lo.

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Texto por Patrícia Santos e fotografia por Rui de Freitas.

O terceiro dia do Festival Vodafone Paredes de Coura foi como um cravo vermelho (junto ao peito), testemunha de liberdade(s) e de bravura(s). Qual lassidão ou preguiça, ao terceiro dia renovamos forças e tomamos sentido do vigor. É dia de sorte, daquelas que não vem por acaso; mas sim, por acréscimo (como um bem basilar) – não a temos por garantida, mas sabemos que no Paredes de Coura a felicidade está assegurada. 

No Palco BacanaPlay faz-se escutar, pelas 18H, Cassandra Jenkins. Pouco luxuriante nas melodias que entoa, não fosse tão confidencial o espaço envolvente que cultiva. Um concerto que foi contraponto, ao transformar o canto poético em linguagem comum. Ao serenar os nossos corpos, fez deles matéria cósmica. Como se percorrêssemos vários anos-luz, tamanha a singularidade. Já no Palco Vodafone, Geordie Greep toma conta da matéria viva e inanimada, para gerar uma camada musical tão substancial como a existência. Em 2024, lançara “The New Sound”, ponto de viragem artístico (e pessoal). Em palco, faz-se acompanhar de outros músicos estonteantes com os quais nos desarmou e desarrumou, tal a maratona melódica (percorrida). Vestido de fato, Geordie Greep esvaziou-nos de formalidades, contrariando qualquer juízo de facto. É como estarmos no topo de um arranha-céus e ser tudo, de repente, possível. Uma distopia com sentido de realidade. Black Country, New Road por entre mares imensos de musicalidade. Sem ser um tsunami de emoção, invadiu-nos tão pacificamente como se nos escrevesse e descrevesse por extenso. Um grupo polivalente, onde tudo é cómodo e delicado; onde tudo é exacto e requintado. Apresentaram-nos “Forever Howlong”, lançado em Abril do presente ano – disco que compreende um futuro indefinido, apesar de longínquo. Meia dúzia de artistas em palco que soam a uma orquestra alargada e harmoniosa – instrumentos atinados, vozes situadas e um início de noite que virou museu de arte, tal a criatividade e imagética geradas. É como pegarmos num lápis de carvão e desenharmos com tanto apreço e verdade que soa a devaneio. Mostraram-nos, sem o serem, que a efusividade muitas vezes é fugaz; dessa forma, fizeram-nos sentir a mais bela eternidade perante o que é modesto. Terminar o concerto com a música que dá nome ao álbum era tudo o que precisávamos para contornar o acaso. Também Lambrini Girls e um grande murro no estômago que nos dá uma vasta vontade de superar qualquer laivo de leviandade. Uma carta de contenda perante impunidades e presunções. Lançaram no início de 2025 o seu disco de estreia, “Who Let The Dogs Out”, e mostraram-nos que ser mordaz é mais estimulante que arriscado. Um estrangulamento da tranquilidade e da harmonia – mãos ao pescoço e um punk rock de cortar a respiração. Ainda King Krule que é recebido com afago e aprovação. Senhor de uma voz com cama feita (de) lençóis lavados, revelou-nos as suas canções como um guardião de segredos. Um cenário onírico avermelhado mesclado com ‘gritos roucos’ ou melodias mais íntimas foram suficientes para abrirmos a porta e a deixarmos escancarada. 

Comprovada a sorte e acrescida a felicidade, termina o terceiro dia do festival. 

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Leiam aqui as reportagens do primeiro, segundo e quarto dia do festival.



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