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O vencedor de Cannes que o MUBI traz para junho e vale cada minuto

Sirât, de Oliver Laxe, é a travessia espiritual que o streaming alternativo estava à tua espera

Há filmes que chegam ao streaming como se o mundo os estivesse à espera, e há outros que aparecem quase em silêncio, guardando o melhor para quem os procura. Sirât, do realizador galego Oliver Laxe, pertence claramente à segunda categoria — mas com uma credencial impossível de ignorar: ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2025 e foi nomeado para dois Óscares, incluindo Melhor Filme Internacional. A partir de 12 de junho, está disponível no MUBI em Portugal, e é a estreia mais importante do mês nas plataformas de cinema de autor.

O que é Sirât: a premissa

Luis é um pai galego de meia-idade. O seu filho Esteban ainda é um adolescente. A filha e irmã, Marina, desapareceu há meses algures no Saara marroquino, perdida no rasto de uma rave ilegal. O pai decide ir à sua procura. O filho vai com ele. Não há GPS nem ligação à internet. Há apenas pistas vagas, fotografias mostradas a desconhecidos, e o testemunho de um casal de ravers que afirma ter visto Marina e que a próxima festa será algures mais a sul, no deserto.

Esta é a premissa de Sirât: aparentemente simples, quase um thriller de desaparecimento. Mas Oliver Laxe não é cineasta de tramas. O que ele faz com esta história é transformá-la gradualmente — e de forma implacável — num pilgrimage existencial. O pai e o filho seguem o grupo de ravers de festa em festa, de oásis em oásis, e a busca por Marina torna-se uma descida às profundezas do que significa perder alguém, do que significa continuar, e de onde começa o sagrado.

O título é uma dica: em escatologia islâmica, o Sirât é a ponte que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Uma ponte estreita que todos devem atravessar. Oliver Laxe, que viveu anos em Marrocos, conhece bem este imaginário — e usa-o com a precisão de alguém que aprendeu a cultura por dentro, não pelos livros.

A linguagem e o estilo

Filmado em Super 16mm pelo director de fotografia Mauro Herce, Sirât tem a textura imediata e levemente rugosa que só o filme analógico consegue dar. Há grão. Há impurezas. Há uma qualidade documental que faz com que as paisagens do deserto marroquino pareçam não encenadas, mas vividas. E é precisamente isso que Laxe procura: a fronteira entre o drama e o documentário, entre o real e o ficcional.

A banda sonora é da autoria de Kangding Ray, um dos nomes mais respeitados da música electrónica europeia. As raves no filme não são decorativas: o som é personagem. A música bate-se com a areia, com o vento, com o silêncio do deserto às quatro da manhã. É um filme que se ouve tanto quanto se vê — e não por acaso ganhou também o Prémio de Melhor Banda Sonora em Cannes, tendo a secção de som sido igualmente nomeada para os Óscares.

Laxe não usa planos de reacção nem empurra emoção. A câmara observa, acompanha, espera. O ritmo é o do deserto: lento, hipnótico, e pontuado por momentos de brutalidade súbita. É cinema de paciência — e de recompensa.

O que o filme tem a dizer

Sirât fala de paternidade, mas não da forma sentimental que o cinema mainstream normalmente escolhe. Luis não é um herói. É um homem confuso, assustado, que não compreende o mundo onde a filha se perdeu. A rave culture é-lhe completamente estranha: os ravers que encontra no caminho têm uma liberdade que ele desconhece e talvez tema. Ao segui-los, Luis não encontra apenas Marina — encontra uma parte do mundo que a sua geração aprendeu a ignorar.

Mas o filme vai mais longe. A cultura rave que Laxe retrata não é hedonismo vazio: é uma forma contemporânea de ritual, de busca de transcendência, de comunidade. Os jovens que percorrem o deserto de festival em festival estão, à sua maneira, à procura do mesmo que Luis procura. A diferença é que eles ainda não perderam ninguém.

Há uma cena a meio do filme — brutal, inesperada, divisiva para a crítica — que parte o ritmo hipnótico ao meio e obriga o espectador a recalibrar o que está a ver. É um momento de risco cinematográfico total. Alguns críticos sentiram-no como uma traição ao equilíbrio formal da primeira metade; outros, como o clímax emocional que o filme estava a preparar desde o início. O que ninguém discute é a coragem de o incluir.

Quem o fez e de onde vem

Oliver Laxe nasceu em 1982 em Paris, filho de emigrantes galegos. Cresceu em A Coruña — nessa Galiza atlântica que faz fronteira com Portugal e que partilha com ela uma alma que vai além da geografia. Estudou cinema na Pompeu Fabra em Barcelona e em 2006 mudou-se para Marrocos, onde durante anos dirigiu oficinas de cinema em película 16mm com crianças em Tânger. O seu primeiro longa-metragem, Todos vós sodes capitáns (2010), nasceu desse trabalho e estreou na Quinzaine des Cinéastes em Cannes.

Mimosas (2016) regressou a Marrocos e ganhou o Grand Prix da Semaine de la Critique. Fire Will Come (O Que Arde, 2019) mudou-se para as florestas da Galiza e ganhou o Prémio do Júri na Quinzaine. Os quatro filmes de Laxe estrearam em Cannes. Com Sirât, chegou pela primeira vez à competição oficial — e ganhou o Prémio do Júri, a distinção mais alta depois da Palma de Ouro. Foi também nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional, um reconhecimento raro para um realizador desta escala.

O filme é produzido pela El Deseo, a produtora de Pedro e Agustín Almodóvar, e conta com Sergi López — o actor catalão conhecido dos portugueses de O Labirinto do Fauno e de inúmeras co-produções europeias — no papel central de Luis. O restante elenco é maioritariamente composto por não-actores: ravers reais, pessoas que vivem fora dos sistemas, seleccionados em castings de rua. A autenticidade que daí resulta é impossível de fingir.

Vale as duas horas? (E como ver)

Sirât é um filme que pede disponibilidade — e que recompensa quem a dá. Não é cinema de enredo nem de personagens psicologicamente elaboradas. É cinema de estados, de atmosferas, de perguntas que ficam no ar muito depois dos créditos finais. Para quem conhece Terrence Malick, Apichatpong Weerasethakul ou os primeiros Wim Wenders, pertence à mesma família — um cinema que confia no espectador para completar o que a câmara deliberadamente deixa em aberto.

O espectador ideal é alguém disposto a deixar-se levar por um filme que não explica nada — que regista, que espera, que acredita no poder acumulativo das imagens e do som. Se entrares com a expectativa de um thriller de desaparecimento convencional, vais ficar confuso. Se entrares com a expectativa de cinema de autor que usa a ficção como veículo para algo maior, vais sair com uma experiência raramente disponível no streaming alternativo.

Sirât está disponível no MUBI em Portugal a partir de 12 de junho. A subscrição dá acesso imediato. O melhor contexto é a noite, o som alto, e o telemóvel desligado.

O streaming alternativo existe exactamente para isto: para dar a filmes como Sirât um espaço que o cinema comercial raramente lhes oferece. Um realizador galego que cresceu em Marrocos, um pai que atravessa o Saara, uma rave como cerimónia laica, um Prémio do Júri em Cannes que não chegou às capas das revistas de entretenimento mas que ficará na memória dos cinéfilos durante anos. Se acreditas que o cinema ainda tem algo a dizer sobre o modo como vivemos — e sobre o que acontece quando perdemos alguém —, este é o filme do mês no MUBI.



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