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Dalai Lume

Invariavelmente, com a chama acesa!

O berço foi construído há seis anos, no mesmo lugar onde a entrevista foi dada. É no bairro de Alvalade que esta banda ensaia, três vezes por semana, pelo menos duas horas, religiosamente. Apesar das mudanças de elementos, a essência mantém-se. A chama não se apaga, nem com estas temperaturas frias. E no cenário do punk português, mostram que vieram para ficar, enquanto houver roupa suja para ser lavada.

Assistimos ao ensaio. Depois disso, houve tempo para algumas perguntas. Aqui ninguém vive da música, mas vivem muito de música, o maior vício. O amor à camisola fede, a paixão pelos acordes é superior às palavra que circundam o vocábulo “crise”, quotidiano deste país.

23 de Fevereiro de 2006. Onde é que foi o vosso primeiro ensaio?

Aqui!

Exactamente no mesmo sítio?

Exactamente. Em Alvaladade, no bairro onde estamos.

Ou seja, vocês já andaram “aos saltinhos”. Onde é que estiveram a ensaiar?

Estivemos a ensaiar, depois, aqui ao lado no bairro de São Miguel, Alvalade também. Chegámos a ir ensaiar ao Bibi, em Mem-Martins…

E depois voltaram à casa-mãe?

Não, não, ainda estivemos em São Marcos, mas isto com outra formação, com outro guitarrista. E desde que o Rodrigo entrou é que voltámos para aqui.

Porque é que o vosso concerto foi em Torres Novas?

Foi numa altura em que estávamos preparados para tudo, menos para dar concertos. E surgiu de uma forma um pouco curiosa; eu tinha uma banda, Rolls Rockers. E eu saí de Rolls Rockers com um concerto marcado para Torres Novas. Entretanto avisei a quem estava a organizar o concerto de que os Rolls Rockers tinham “cessado actividade” e não ia haver concerto. Mas entretanto fez-se Dalai Lume e seis meses depois fomos lá dar o concerto.

E “em português sem espinhas”, porquê?

Porque em português com espinhas é uma chatice e o pessoal fica engasgado e não consegue dizer o que vai na alma…

Para vocês aquela ideia de que “a língua inglesa fica sempre bem”, não funciona…

Não. E sabes porquê? Porque há muito pessoal que para aí anda que dizem ser uns grandes rebeldes, mas no fundo eles escondem-se um pouco por detrás da língua inglesa porque têm medo de assumir aquilo que dizem.

Em português sabes a palavra exacta…

Sim. E em português tens de dar a cara! E também se torna mais fácil cantar. Em português é mais difícil de escrever letras, e à pala do facilitismo é que isto está como está… e nós não queremos cá facilitismos.

Quem é que ainda cá está desde o início?

O Zorb e o Oregos.

O que é que vos tem feito ficar “por aqui”?

Nós estamos um bocado como o Santana Lopes, não vamos estar por aqui mas vamos andar por aí. Nesse sentido, eu considero Dalai Lume uma mais-valia no panorama rock, alternativo, underground, o que lhe queiram chamar em Portugal. Porque há pouca coisa, e tal como referi há bocado, há pouca gente que assume a cena, que se esconde, ou que cantam canções em que falam da namorada que não atende o telefone e “o que vai ser de mim”. E isso para mim não significa nada.

E o que é que, para ti, significa?

É aquela música que tu ouves e que te bate, seja por que motivo for. Eu já ouvi bandas que, na sua arquitectura, eram uma grande bandalheira mas, na sua essência, naquilo que vais lá buscar de mensagem, de alma, é uma coisa que não se consegue explicar só com palavras, é transcendente.

O objectivo…

O objectivo é passar a mensagem. A nossa essência, a nossa inspiração, nós vamos buscá-la no podre da sociedade. Quando não houver injustiças e quando não houver coisas negativas na sociedade a nossa “onda” deixou de ter motivos para existir.

De onde surgiu o nome para a banda?

Andei muito tempo a pensar num nome para a banda, andámos uns dois meses a ensaiar e a fazer letras sem termos nome porque não queríamos ir por aquele caminho fácil. E há muita coisa que começa mal pela base por ter um mau nome. Porque há coisas, por muito boas que sejam, quando o nome não é sugestivo, não cativam a querer saber mais. E há aí bandas com nomes que não lembram ao diabo. E Dalai Lume surgiu da seguinte forma: um dia fui abordado na rua, um homem disse-me “sócio, da lá aí lume”. E registei. E fiquei a pensar, o espiritual com o lume, o Dalai é uma personagem forte e o lume, por outro lado, faz encontrar o Yin Yang.

“Para manter a chama acesa”. Que chama é essa?

Cada um é que sabe onde a vai buscar.

E como é que fazem para manter a chama acesa com estas temperaturas?

Metemos um pouco mais de combustível.

Que combustível acaba por ser esse?

É tanta coisa. Entramos no efeito espiral. Isto acaba por ser 101% de amor à camisola.

Como vêem a “cena punk” em Portugal?

Eu vejo muito “pink” rock. É uma questão de uma letra, mas muda tudo. E vejo que há uma onda de punk rock underground de poucas bandas, mas que falta uma alavanca. Não há salas para espectáculos, não há disponibilidade para ensaiar, mudanças nas bandas. Não há uma cultura como, por exemplo, se vê nos Estados Unidos, em que os miúdos começam a tocar com 13, 14 anos, e criam projectos que têm um grande impacto. Aqui não…

As pessoas que estão no meio poderiam fazer muito mais pelo punk?

Poderia haver muito mais entreajuda. Sem dúvida! Há um certo individualismo como concorrência.

E quanto à sociedade?

Estás em 2012, em Portugal, num país em que se cortou com o Ministério da Cultura.

E isso explica tudo?

Isso não explica tudo. Isso explica 0,5% do problema. Mas está dentro do problema, está enraizado na mente das pessoas.

O nome punk assusta? Já sentiste isso na pele?

Se calhar. Eu não senti porque só vou para onde sou chamado…

Passaram seis anos. O que é que mudou?

Mudaram elementos, mas a mentalidade não. O que queríamos no início é o mesmo que queremos hoje, como se isto tivesse começado ontem.

E como é que está a vossa agenda?

Está boa!

De saúde?

Sopa nisso, aqui não entram bichos!



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