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Les Baton Rouge.

Não há muitas mulheres no rock, é um facto. Mas quando as há, não é caso para brincadeiras. A qualidade em detrimento da quantidade. E não é preciso ilustrar esta teoria com alguns exemplos para o comprovar.

Este cenário musical em Portugal é bastante pobre. Na década de 90, encontramos as saudosas Voodoo Dolls, saídas do fértil filão musical de Coimbra. E ao seu lado ombrearam por sua vez as Everground, dignas representantes lusas do Riot Grrrl, movimento musical feminista anti-conformista de emancipação da mulher. É aqui que começa a nossa história.

Em 1998 dá-se o último suspiro das Everground; no entanto, determinada a seguir uma carreira musical dentro de um meio dominado pelos homens, a vocalista e guitarrista Suspiria Franklyn junta-se aos ex-membros da banda punk Kiute Loss para formar as Les Baton Rouge – Suspiria Franklyn na voz e na guitarra; Eve Von Schiller no baixo; James Jacket na guitarra; e Corrine Dumas na bateria.

Com base num registo punk-rock com claras influências de bandas como os New York Dolls ou os The Cramps, as Les Baton Rouge rapidamente levantaram poeira e chamaram a atenção de uma imprensa pouco habituada a explosões sonoras daquele gabarito, muito menos comandadas por uma mulher – Suspiria Franklyn, uma mistura entre Siouxie And The Banshees e os Yeah Yeah Yeahs com a atitude rock de Joan Jett, que rapidamente se tornou no rosto do rock nacional praticado por mulheres.

O primeiro álbum da banda chama-se “Women Don’t Stop”, data de 2002 e é um claro indício dos objectivos das Les Baton Rouge: a afirmação da força feminina na música, num país com pouca tradição nesse domínio. A apatia e o marasmo abanaram, mas não quebraram da mesma forma que o público espanhol que, graças à exposição pela editora Munster, rapidamente recebeu as Les Baton Rouge com críticas positivas e calorosas recepções nas actuações ao vivo.

Mas a banda não se limitou ao sucesso ibérico. As actuações explosivas levaram-na pelo resto da Europa, numa digressão alimentada a punk-rock visceral e lascivo, até chegarem aos Estados Unidos da América. Foi aí, numa altura em que já estavam radicados na capital da vanguarda cultural europeia, Berlim, que gravaram o segundo álbum “My Body – The Pistol”, em 2003, que contou com o conceituado Tim Kerr na cadeira de produtor.

Longe da vista, longe do coração; é um adágio que se adequa perfeitamente à imprensa musical nacional. Com efeito, “My Body – The Pistol” pouca atenção recebeu no nosso país, apesar das Les Baton Rouge continuarem a ser constantemente requisitadas para concertos em diferentes pontos da Europa.

Contudo, depois de várias alterações no alinhamento da banda, as Les Baton Rouge (cada vez mais os em vez de as) acabaram por anunciar o final da mesma, com um concerto de despedida no bar Lounge, em Lisboa, no ano transacto.

Suspiria Franklyn, transformada num dos ícones do movimento musical feminino, aproveitou então a sua estadia na Alemanha para um novo impulso na carreira: juntamente com a belga Caroline Werbrouck, vocalista das HaraKiri, formaram as Suspicious, uma vanguardista banda de punk-wave bombástico que prometem fazer estragos e agitar as águas do rock internacional.

A Rua de Baixo falou com Suspiria Franklyn, com quem recordou a auspiciosa carreira das Les Baton Rouge, falou sobre o rock em Portugal e no Mundo e sobre as Suspicious. Tudo no feminino.

Rua de Baixo – Deixa-me começar pelo fim: o que correu mal com as Les Baton Rouge?

Suspiria Franklyn: Nada correu mal com as Les Baton Rouge. Sempre nos divertimos imenso, pois damo-nos muito bem e respeitamo-nos mutuamente, tanto na vida pessoal como profissional. Sempre trabalhámos muito para obter tudo o que conseguimos, talvez seja por isso que chegámos tão longe como banda.

RDB: Ao lado das efémeras Voodoo Dolls, foi responsável pelo rock feito por mulheres em Portugal, primeiro com as Everground e depois com Les Baton Rouge. Porque continuam a haver tão poucas mulheres no rock português?

SF: É uma pergunta que faço a mim mesma quando olho para o panorama nacional, pois nos outros países não noto muita diferença, para dizer a verdade. Sempre houve muita rivalidade no meio musical português, sobretudo no seio feminino. Espero que as coisas mudem em breve, pois seria muito bom. Contudo, eu gosto de dar valor aos músicos em geral, independentemente de serem homens ou mulheres. Mas é uma pena não haverem umas novas Everground ou Voodoo Dolls.

RDB: O movimento Riot Grrrl é a solução? Continua a ser válido?

SF: O movimento Riot Grrrl é uma solução para quem o queira aceitar como solução. Desde cedo que oiço bandas femininas como as Slits, Raincoats ou Bikini Kill, mas nunca me passou pela cabeça ser tão extremista (como é o movimento Riot Grrrl nos E.U.A.) ao ponto de proibir espectadores do sexo masculino nos meus concertos, nem penso que as mulheres são mais fortes ou mais fracas. Sempre lutei pela igualdade, pois o feminismo é igual ao machismo, na minha opinião. Actualmente, tenho uma banda feminina (as Suspicious) mas não somos Riot Grrrl.

RDB: Em Portugal não há espaço para as mulheres no rock ou, pura e simplesmente, não há espaço para o rock?

SF: Simplesmente não há espaço para o rock. Essa foi uma das razões que me levou a ir viver para Berlim. Estava muito farta de pertencer a um meio musical tão pequeno como é o nosso. Não tenho paciência para estar a tocar sempre nos mesmos clubes e ver sempre as mesmas pessoas na audiência, preciso de muito mais que isso, daí o facto de ter optado por uma carreira internacional. Além disso, tenho pena das pessoas que desistem dos seus sonhos porque simplesmente julgam que não é possível realizá-los ou talvez porque não tenham coragem suficiente para assumir riscos demasiado grandes.

RDB: As Le Baton Rouge, depois de lançarem Women Non-Stop, andaram em digressão por vários países da Europa, como França e Espanha, e pelos E.U.A., onde as suas actuações explosivas foram alvo do interesse da comunicação social. Porque não se passou o mesmo em Portugal?

SF: O mesmo não se passou em Portugal porque o nosso país nunca deu valor às bandas daqui. Sempre achou que o que se fazia lá fora era muito melhor, quando existem algumas boas bandas no nosso país, como é o caso dos Mão Morta ou dos Tédio Boys. Contudo, quando se tem a imprensa norte-americana aos nossos pés, não me faz diferença nenhuma não ter tido aceitação dos Media em Portugal. “We made it in New York and if you make it there, you make it everywhere” tal como diz a canção do Sinatra, o que me valeu várias digressões norte-americanas e europeias, tocando em mais de dez países em pouco tempo.

RDB: O que se passa actualmente na Alemanha, como é a cena musical berlinense?

SF: Berlim sempre foi uma cidade com grande vida a nível musical. Entras num pub e podes estar à conversa com a Nina Hagen ou os Einsturzende Neubauten, pois é bastante fácil conhecer músicos, editoras, agentes ou toda a espécie de gente relacionada ao mundo das artes. Berlim tornou-se na capital europeia da música, sobretudo nos últimos anos, onde existe espaço para todos os géneros de música, desde o Punk ao New Wave ou Electro. É uma espécie de Nova Iorque da Europa. Não me imagino a viver noutro lugar nos próximos tempos.

RDB – A Peaches é outra das mulheres do rock “exilada” em Berlim. É um dos seus ícones? Quem são os outros?

SF: A Peaches não é um dos meus ícones (até porque não os tenho). A Peaches é uma amiga com quem vou beber copos à noite e partilho bons tempos quando estamos em Berlim. Somos bastante amigas e admiramos o trabalho uma da outra, daí o facto de termos tido uma banda em conjunto. Peaches, Ana da Silva, Nina Hagen, Kat Hanna ou Kim Gordon sao algumas das mulheres pelas quais tenho muito respeito.

RDB: Voltando às Les Baton Rouge. A seguir a Women Non-Stop lançaram um segundo álbum de originais intitulado “My Body – The Pistol”, produzido pelo conceituado Tim Kerr. Como foi trabalhar com ele?

SF: Quando conheci o Tim Kerr, ele virou-se para mim e disse “Hoje não nos conhecemos, mas amanhã vamos ser como uma família” e foi o que aconteceu. Gravámos o álbum nos arredores de Nova Iorque, o Tim também participou com backvocals e tamborine. Divertimo-nos imenso. É sempre uma honra poder trabalhar com alguém tão aberto de espírito, com uma experiência incrível e técnicas de gravação que eu nunca tinha visto até à altura, daí ter resultado um álbum como o “My Body-The Pistol”, o meu preferido até à data. Ainda hoje, sempre que vou aos Estados Unidos, passo pela casa dele para o visitar e fico durante uns tempos, pois tornamo-nos como uma família.

RDB: Actualmente, o que anda a Suspiria Franklyn a fazer?

SF: Actualmente tenho uma nova banda Electro New Wave, as Suspicious, juntamente com Caroline Werbrouck (a vocalista das Harakiri da Bélgica). Durante o mês passado estivemos na Bélgica em estúdio para o nosso primeiro álbum, Put Your Body Where Your Mouth Is, produzido por Chris Cauwelier. Temos agendados vários festivais de Verão na Bélgica (durante Julho e Setembro) e em Novembro vamos estar pela Alemanha, Áustria, Bélgica, França e Holanda.

RDB: Quando poderemos ver esse projecto nas salas portuguesas?

SF: Durante Setembro vamos estar em Portugal (Lisboa e Porto) e Espanha para uma pequena digressão.



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