E morreram felizes para sempre

E morreram felizes para sempre

Uma história de amor que nos faz perder a cabeça – ou pelo menos, parte do cérebro.

E morreram felizes para sempre – eis o nome da peça de teatro imersivo que estará em cena no Hospital Júlio de Matos, mais concretamente no pavilhão 30. Sim, leram bem. No Júlio de Matos, na Avenida do Brasil, em Lisboa, um espaço com uma carga negativa associado às doenças de foro mental.

Depois de ter aberto as portas à Lisbon Week, em Abril deste ano, o Hospital resolveu ceder um dos seus pavilhões para a construção de um puzzle que nos apresenta uma estória cruzada entre o amor de Pedro e Inês e o Nobel Egas Moniz.

Trata-se de uma experiência que se vive com o corpo todo: os nossos sentidos ficam em alerta. É de noite e estamos no pavilhão 30, definido por Ana Isabel, directora do hospital como emblemático: “Este pavilhão acolhia os doentes mais difíceis do Júlio de Matos, noutros tempos, e tem para nós uma carga pesada. Estava devoluto há  3 anos e esta pareceu-nos a forma ideal de voltar a activá-lo.”

Foi precisamente neste Hospital que Egas Moniz levou a cabo lobotomias, um feito que lhe mereceu um prémio Nobel, em 1949. Essa prática foi abandonada durante a década de 1960 e houve até familiares de pacientes sujeitos a esta intervenção que exigiram a anulação do prémio.

E como é que é que a estória de Pedro e Inês, o seu trágico amor, se relaciona  com a de Egas Moniz? E com a de um violinista enigmático? E um enfermeiro galardoado? E com a Constança? Relativamente à narrativa, não vamos poder nem querer desvendar: afinal, a peça é vivida de forma diferente, por cada um de nós. Entramos numa sala, à entrada da qual nos é entregue uma máscara. Após a colocação desta, o desafio é o de perseguir (literalmente) uma das personagens. À nossa escolha.

É um teatro sem palavra, um teatro de movimento e de expressão corporal. Os olhares, os cheiros, os sons, a luz – ou a ausência dela – transportam-nos para um mundo onde sentimos que não pertencemos, mas onde queremos ficar. Queremos abrir portas – de quartos, de armários. E podemos fazê-lo.

Em conversa com os actores, descobrimos que o grande desafio foi montar o puzzle de vários momentos de acção, que acontecem em simultâneo e que por vezes se cruzam. ParaCatarina Trota, responsável pela coreografia, o tal desafio do puzzle implicou trabalhar a fundo, com os actores, aspectos relacionados com o corpo e  as emoções básicas de cada personagem. A partir do guião de Nuno Moreira e com apenas um mês de ensaios no pavilhão 30, Catarina fala-nos com entusiasmo do processo de casting, do encontro entre o trabalho de coreografia com o de encenação, a cargo de Ana Padrão, e de cenografia, assinado por Rui Francisco. João Cachulo foi o responsável pela luz e Jorge Queijo pela criação musical.

Num palco que não existe encontramos Afonso de Melo, Anton Skrzypiciel, Bruno Rodrigues, Francesca Bertozzi, Guilherme Barroso, Isabel Gaivão, Joana Almeida, Linda Valadas, Luís Caboco e Manuel Henriques. E vocês, os espectadores. Nunca se sabem se não vão ser agarrados por uma das personagens para com ela contracenar, numa sala. Cara a cara. Sem palavras. Uma experiência imersiva e que alimenta a vontade de voltar, para perseguir uma personagem diferente.

 

De 29 de Abril a 30 de Maio, de quarta a domingo, num Júlio de Matos perto de si.

 



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