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“Metastasipolis” @ Teatro S. Luiz

O novo trabalho do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos.

Dirigi-me hoje (Sábado, 17 de Dezembro 2011) ao São Luiz cheia de curiosidade. Nunca vira qualquer tipo de trabalho do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos. Espantei-me assim que entrei na sala; o cenário esmagava-me de alguma forma.

A peça começou e a primeira imagem chocou-me. Vi um homem, com bigode e uma peruca loira. Este homem tinha dificuldade a andar, de uma forma estranha, com algum risco, parecia-me, e isso dificultava-me de alguma forma o riso. Senti que estava tudo instalado no palco, e nada acontecia. O meu primeiro pensamento foi “merda, já está a correr mal”. E de repente saiu uma actriz do fundo da plateia, com um à-vontade incrível. Adorei esta tensão (propositada, ou não) para iniciar a peça.

A pouco e pouco as personagens apresentavam-se e ganhavam lugar em palco. Fui prestando atenção a tudo; o palco parecia muito grande com tanta gente lá.

Era visível e assumida a dificuldade de memória dos actores. Surpreendi-me ao ouvir, e depois a ver, dois Pontos a ajudá-los. E confesso que gostei. Não sei bem porquê. O belo neste grupo é que é tudo muito verdadeiro e presente. Os actores esquecem-se, os Pontos ajudam. Não há aquela aflição dos actores comuns de quando se enganam ou esquecem. É tudo muito normal; natural é a forma mais correcta.

A determinada altura comecei a duvidar se seriam todos utentes do Hospital. Tinha dificuldade em decidir se havia mesmo algum actor ou não. Na verdade a maioria dos intérpretes eram magníficos. Entendia-se que alguns utentes tinham menos energia, mas que eu admirei do início ao fim da peça. Surpreendia-me o senhor, o tal que entrou de peruca loira, sentadinho numa cadeira de baloiço o tempo todo da peça, a baloiçar-se para a frente e para trás. (Eu quando era pequenina gostava muito disso, mas agora, quando ando, muito fico mal-disposta.) Ou como o outro senhor que esteve o tempo da peça em pé do lado esquerdo a observar ora o público, ora o palco, ora as mãos dele. Eram estes momentos menos teatrais que tornavam a peça bela, humana e verdadeira.

É de honrar o trabalho feito com estas pessoas, verdade seja dita. O ritmo da peça por vezes quebrava quando a memória faltava, mas isso nunca deixou que a energia certa da maioria dos actores se perdesse. Muito pelo contrário, às vezes parecia que usavam esse sentimento de perda de memória para depois crescerem mais com a frase que tinham que dizer.

O momento final, um monólogo, é de facto muito forte. Passei a peça inteira a admirar uma das três personagens que faziam a mímica durante todo o tempo. Essa personagem de que falo, com os outros todos intérpretes “congelados”, com uma luz direccionada para ela, disse um texto de arrepiar. Enquanto esse texto se ouvia, apareciam coisas estranhas no ecrã que pareciam sem lógica, quase símbolos orientais. A mim estas coisas distraíram-me, entendi que eram palavras e achei desnecessário este vídeo.

Enquanto se ouvia a personagem, estava mesmo ao lado um senhor. Este senhor, esteve sempre do lado esquerdo do palco. Já falei dele lá em cima. [Olhava para ele constantemente, enquanto a peça decorria, à espera de qualquer reacção dele. E juro que valeu a pena quando o vi a dançar 10 segundos, deviam ver a alegria que saía daquele corpo quando dançava…] Imaginem, tudo escuro e estas duas pessoas iluminadas, podíamos ver as outras pessoas em palco completamente imóveis. Apenas uma boca mexia de onde saía o texto. E de repente, este senhor, como sem se aperceber do “erro” que cometia, tirou o lenço e limpou o nariz.

É um exemplo das coisas maravilhosas e verdadeiras que este tipo de trabalho tem. O que para muitos são erros e coisas “mal” feitas, para mim é puro. A mim interessa-me esta mistura de teatro com a vida.

Ao longo da peça, “Metastasipolis”, pensei várias vezes até que ponto as pessoas retraíam o riso com medo de rir. Com medo de rir verdadeiramente com as cenas cómicas que a peça tinha, só por eles serem utentes de um Hospital. Confesso que o mais anormal para mim foi ver uma pessoa ao meu lado a dormir bastante tempo e que, no fim, se levantou a bater palmas de pé. Isto para mim é ser louca, falsa, mentirosa, e anormal. O que me faz ter mais orgulho nos erros, nas dificuldades e na coragem de todos os que estavam em palco e assumiram o que sentiam.



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