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«Duas Estações, Dois Desconhecidos» e a ternura dos tímidos

Sho Miyake filma duas estações e dois encontros improváveis, e faz do silêncio uma forma de intimidade.

Depois de conquistar o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno em 2025, Duas Estações, Dois Desconhecidos, do japonês Sho Miyake, chega finalmente às salas portuguesas esta quinta-feira, 29 de outubro, pela mão da Leopardo Filmes. É uma pequena maravilha de 89 minutos, adaptada de dois mangas de Yoshiharu Tsuge, que cabe inteira no circuito do cinema independente e de autor. Esta Duas Estações, Dois Desconhecidos explica porque é que as estreias Portugal desta semana ganham aqui o seu título mais discreto e mais precioso.

O ponto de partida: dois mangas e uma moldura

O filme parte de dois contos desenhados por Yoshiharu Tsuge, nome maior do manga de autor, publicados nas páginas da revista Garo: «A View of the Seaside» e «Mr. Ben and His Igloo». São histórias sem ligação entre si, e a primeira decisão de Miyake, que assina também o argumento, foi não as tratar como tal. Costura-as com uma moldura que as transforma em dois andamentos de uma mesma reflexão sobre o que é contar uma história a partir da solidão.

No primeiro andamento, verão, uma jovem chamada Nagisa visita uma vila costeira e cruza-se com Natsuo, um habitante local que parece não ter pressa nenhuma. Caminham, conversam, partilham memórias e combinam voltar a ver-se. No segundo, inverno, Li, uma argumentista de origem coreana a trabalhar no Japão e bloqueada na escrita, segue para uma aldeia coberta de neve e fica na única estalagem com quartos disponíveis, gerida pelo ríspido Benzo. A moldura revela que Li escreveu a história de Nagisa, e que o filme que vemos é exibido a um pequeno público de estudantes.

Há aqui uma ideia de cinema que se percebe sem esforço: a ficção como lugar onde as pessoas introvertidas se encontram sem precisarem de fazer barulho. Para uma estreia no cinema independente português, a premissa é de uma simplicidade quase provocatória.

A linguagem do filme: paciência, paisagem e pequenos desvios

Miyake e o diretor de fotografia Yuta Tsukinaga, distinguido nos prémios do Festival de Yokohama pelo trabalho neste filme, filmam o litoral e a neve com uma atenção que dispensa o efeito. Nos fotogramas de divulgação percebe-se a opção: o mar cinzento, as rochas, a roupa clara das personagens contra a paisagem, tudo tratado com uma naturalidade que parece captada em vez de composta. A câmara não força a emoção, espera por ela.

O ritmo é o de quem caminha. As cenas deixam-se estar, as conversas interrompem-se, e o humor, discreto e constante, nasce desses desencontros. Jessica Kiang, na Sight and Sound, descreve o resultado como mais próximo de uma melancomédia do que de uma tragicomédia, e fala de um possível aceno a Hong Sang-soo. A comparação faz sentido sobretudo na leveza com que o filme trata o embaraço social, sem nunca troçar de quem o sente.

A estrutura em duas partes, com estações e geografias opostas, dá ao conjunto um equilíbrio raro. O verão e o inverno não se opõem, dialogam, e é nessa conversa que o filme descobre a sua forma.

As personagens e o que carregam

Shim Eun-kyung, no papel de Li, é o centro de gravidade do filme. A crítica internacional elogiou a espontaneidade quase hesitante do seu trabalho, e a interpretação valeu-lhe o prémio de melhor atriz nos Kinema Junpo. Li carrega o bloqueio criativo e o deslocamento de quem escreve numa língua e num país que não são, por inteiro, os seus, mas Miyake evita fazer disso um drama aberto.

Yuumi Kawai dá a Nagisa uma curiosidade serena, e Mansaku Takada, como Natsuo, uma presença de ar solitário que o filme nunca tenta explicar de mais. Os dois foram reconhecidos em Yokohama como melhor atriz secundária e melhor novo talento. Shinichi Tsutsumi encarna o estalajadeiro Benzo, figura rude que oferece à parte de inverno o seu contrapeso de calor humano, e Shirô Sano completa o elenco no papel do professor Uonuma.

O que une estas figuras é uma qualidade de escuta. Ninguém aqui se explica em monólogos; as relações constroem-se por proximidade, por gestos pequenos, por tempo partilhado. Kiang resumiu-o como um romance que não depende do toque, e a fórmula é certeira.

Duas Estações, Dois Desconhecidos — um rapaz e uma jovem junto ao mar, de costas voltadas um para o outro, sobre rochas
Dois desconhecidos junto ao mar, num fotograma do filme de Sho Miyake. Foto: divulgação.

O que o filme diz (e o que cala)

O tema mais evidente é a ligação entre estranhos, mas o subtexto é mais interessante: Duas Estações, Dois Desconhecidos propõe uma defesa tácita da introversão como forma de sensibilidade. Num cinema contemporâneo que tantas vezes confunde intensidade com volume, Miyake lembra que há emoções que só existem em surdina, e que a ternura pode ser um modo de atenção.

A moldura metaficcional acrescenta uma segunda leitura. Se Li escreveu Nagisa, então a primeira parte é também o desejo de uma escritora bloqueada, a vida que ela imagina enquanto a sua própria não avança. O filme cala o que isso significa exatamente, e é no silêncio que se faz generoso: deixa ao espectador a tarefa de ligar as duas estações.

Há ainda uma relação com a tradição do manga de autor, e com o universo de Tsuge em particular, que privilegia o quotidiano e a deriva sobre a intriga. Miyake traduz essa herança para cinema sem a embalsamar, o que é feito pouco comum.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal

É um filme para quem gosta de cinema de autor asiático contemporâneo, de Hong Sang-soo a Hamaguchi, e para quem aceita que uma história possa avançar por conversas e caminhadas. Quem procura enredo convencional ou grandes viragens dramáticas talvez estranhe a delicadeza; quem se dispuser ao seu ritmo encontrará uma das experiências mais acolhedoras do ano em sala.

Em Portugal, a estreia é a 29 de outubro, e a distribuição é da Leopardo Filmes. Segundo a informação disponível no momento da escrita, a primeira sessão consta do Cinema Passos Manuel, no Porto, que integra a rede de salas da Medeia, e o filme tem sessões marcadas a 10 de novembro no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco. Convém confirmar a programação nas salas independentes da sua cidade, já que o circuito de cinema independente costuma ir somando datas ao longo das semanas.

Conclusão editorial

Num ano em que o cinema de autor japonês volta a marcar presença nos grandes festivais, o Leopardo de Ouro de Locarno distingue aqui um filme que desconfia do espetáculo e confia na sensibilidade. Sho Miyake não reinventa a linguagem, afina-a, e é nessa afinação que reside a sua singularidade. Duas Estações, Dois Desconhecidos pode não ser um filme para todos os humores, mas é uma prova de que o cinema independente ainda sabe fazer da discrição uma forma de generosidade. Merece ser visto em sala, com tempo, e preferencialmente sem pressa de voltar ao telemóvel.



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