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27.ª Festa do Cinema Francês: De Gaulle, Bardot e um festival que já não cabe só em França

A Festa do Cinema Francês regressa a Lisboa de 1 a 11 de outubro com De Gaulle na abertura, homenagem a Brigitte Bardot, competição alargada ao mundo francófono e uma itinerância por mais de 15 cidades.

Há festivais que se anunciam com pompa e outros que, discretamente, se tornam parte do calendário de quem gosta de cinema. A Festa do Cinema Francês pertence à segunda categoria. Criada em 2000 pelo Institut français du Portugal, chega em 2026 à sua 27.ª edição e regressa a Lisboa de 1 a 11 de outubro, antes de seguir viagem por mais de 15 cidades do país até ao final de novembro.

Organizada pela Associação Il Sorpasso, em parceria com a Embaixada de França em Portugal e o Institut français du Portugal, a Festa vem este ano com nova imagem, estrutura renovada e uma novidade prática: além do Cinema São Jorge e da Cinemateca Portuguesa, passa também pelas salas do UCI El Corte Inglés.

A abertura: o De Gaulle que ainda não era herói

A sessão de abertura é a 1 de outubro, às 21h00, no Cinema São Jorge, com a estreia nacional de De Gaulle: Resistência, de Antonin Baudry. O filme passa-se em junho de 1940, quando o futuro líder francês parte para Londres quase sozinho e começa a batalha política para manter viva a ideia de uma França Livre. Simon Abkarian interpreta um de Gaulle obstinado e contraditório, longe da estátua em que a História o transformou. Foi um dos filmes mais vistos do ano em França.

 

Quem ficar com vontade de mais tem a segunda parte, De Gaulle: Liberdade, que retoma a história em 1942 e segue até à libertação de Paris.

Premières: os nomes grandes

A secção Premières é o coração da programação: filmes que nunca passaram em Portugal, vindos de Cannes, Veneza e Berlim. Entre os destaques:

  • Histórias Paralelas, de Asghar Farhadi, thriller que mistura suspense e humor;
  • A Breve Vida das Flores, de Jean-Pierre Jeunet, o regresso do realizador de O Fabuloso Destino de Amélie;
  • Full Phil, de Quentin Dupieux, comédia negra com Kristen Stewart e Woody Harrelson, onde o absurdo, o deadpan e o body horror convivem à vontade;
  • A Desconhecida, de Arthur Harari, e novos filmes de Daniel Auteuil (La Troisième Nuit), Laetitia Masson (Ulysse), Stéphane Demoustier (La Chaleur) e Nathan Ambrosioni (Les Enfants vont bien).

Competição: a Festa abre-se à francofonia

Talvez a mudança mais interessante desta edição. A competição deixa de estar limitada a filmes franceses e passa a incluir primeiras e segundas obras de todo o espaço francófono. Os seis filmes viajam entre França, Canadá, República Democrática do Congo, República Centro-Africana e Gana:

  • Congo Boy, de Rafiki Fariala, drama musical sobre um jovem de 17 anos que sonha ser músico e tem de cuidar dos irmãos; o protagonista valeu ao filme um prémio de Melhor Ator em Cannes;
  • Du fioul dans les artères, de Pierre Le Gall, história de amor entre dois camionistas;
  • Adieu monde cruel, de Félix de Givry, retrato surreal e luminoso da adolescência, que encerrou a Semana da Crítica de Cannes;
  • L’Espèce explosive, de Sarah Arnold, mistura de thriller, humor negro e noir rural à volta de uma guerra contra javalis;
  • Paradise, de Jérémy Comte, entre as noites de Accra e as paisagens geladas do Quebeque;
  • La Frappe, de Julien Gaspar-Oliveri, drama familiar sobre trauma e violência.

O Lado BB: Bardot na Cinemateca

A Festa associa-se à retrospetiva que a Cinemateca Portuguesa dedica a Brigitte Bardot, com quase 20 filmes e arranque também a 1 de outubro. A ideia é ir além do rótulo de sex-symbol e mostrar uma atriz mais diversa, através dos cineastas com quem trabalhou: Roger Vadim (Et Dieu… créa la femme), Louis Malle (Vie privée, Viva Maria!), Jean-Luc Godard (O Desprezo) ou Henri-Georges Clouzot.

Sessões Especiais e Belle Époque: cinema com memória

As Sessões Especiais juntam filmes a debates e conversas sobre resistência, emancipação e sociedade. Aqui cabe a homenagem a Marjane Satrapi com Persépolis; Une vie manifeste, de Jean-Gabriel Périot, sobre a insubmissa Michèle Firk; Mémoire de fille, de Judith Godrèche a partir de Annie Ernaux; e o documentário O Canto das Florestas, de Vincent Munier, vencedor de dois Césares.

Na La Belle Époque revisitam-se clássicos: Delicatessen (que dialoga com o novo filme de Jeunet), O Ódio, de Mathieu Kassovitz, e os 30 anos de Microcosmos, o documentário que aproximou a câmara do mundo dos insetos.

Para rir há a secção Rir à Grande e à Francesa, nas salas UCI El Corte Inglés, com títulos como Loucuras, Alter Ego, Tudo pelo Prazer, Les Caprices de l’Enfant Roi e Marsupilami.

Para lá do ecrã: as atividades paralelas

A Festa não se esgota nas salas.

  • Leïla Slimani em Carta Branca. A escritora franco-marroquina é a convidada especial e escolhe e apresenta filmes do mais recente cinema marroquino. Entre os convidados estão ainda os realizadores Jean-Gabriel Périot, Jean-Paul Salomé, Laetitia Masson e Martin Darondeau, e o ator Antoine Reinartz.
  • Voulez-vous danser avec moi? A 3 de outubro, a Casa Capitão, em Lisboa, recebe uma noite de música eletrónica francesa com Anoraak (disco, italo, synth-pop) e DJ sets de Cobertor Eléctrico, Bacalhausoundsystem, Thomas Villard e Shugi. Bilhetes na Dice.
  • Moteur… Improviso! A 9 de outubro, às 21h30, no Cinema São Jorge, a La Troupe Impro Lisboa improvisa ao vivo cenas sobre cinema a partir das sugestões do público.
  • Workshop de Francês. A 8 de outubro, às 17h00, no Cinema São Jorge.
  • Petits cinéphiles. Para os mais novos, a série de animação Destemidas, baseada nos livros de Pénélope Bagieu sobre 30 mulheres que mudaram o mundo, com um evento especial em torno dela. Há também um programa dedicado às escolas.
  • Festa nas lojas FNAC. Sessões em Lisboa (Avenida de Roma e Chiado), Albufeira (Algarve Shopping) e Guimarães ao longo de outubro.

Depois de Lisboa, o país

Terminada a maratona lisboeta, a Festa segue em digressão:

  • Outubro: Almada (7, 12, 13, 21 e 28), Porto (9 e 10, Batalha Centro de Cinema e Cinema Passos Manuel), Vila Nova de Gaia (10 a 14, UCI Arrábida), Tavira (13), Lagos (13 a 16), Coimbra (14 a 18, TAGV e Casa do Cinema), Cascais (21 a 25, Casa das Histórias Paula Rego) e Braga (27 a 29, gnration).
  • Novembro: Beja (4 e 5), Santa Maria da Feira (10, 12 e 26), Leiria (17 e 18), Setúbal (19 a 22) e Figueira da Foz (20 e 21).

Informações úteis

  • Quando: 1 a 11 de outubro em Lisboa; itinerância até ao final de novembro
  • Onde (Lisboa): Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e UCI El Corte Inglés
  • Bilhetes e programa completo: festadocinemafrances.com

Entre Gaulle, Bardot, cinema africano e uma noite de eletrónica francesa, a 27.ª Festa mostra um cinema francês que já não se define por fronteiras. Para quem gosta de descobrir, o difícil vai ser escolher.



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