Ler é o melhor remédio
Da psicologia à relação entre fé e razão
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A Minha Psicóloga Disse-me…
de Yulibeth R.G. e Katherine Hoyer
Pergaminho (pergaminho.pt)
Organizado em 110 sessões, estamos perante um livro que em vez de optar por uma “narrativa” contínua convida a pequenas conversas e reflexões que podem ser lidas sequencialmente ou escolhidas de acordo com aquilo que, num determinado momento, mais nos incomoda. O resultado aproxima-se de uma coleção de consultas imaginárias: breves, diretas e, por vezes, incómodas.
A premissa nasce de conversas reais entre mulheres e terapeutas. Assim, enquanto Yulibeth R.G. parte do seu próprio processo de cura e da ideia de recomeço, Katherine Hoyer assume a escrita como uma forma de acompanhar quem se sente perdido e incentivar uma maior fidelidade ao que sente. Percursos diferentes, mas unidos pela vontade de transformar a escrita num espaço de reconhecimento pessoal.
Os temas que ocupam as páginas deste livro breve são familiares: culpa, relações que já não funcionam, dificuldade em dizer não, necessidade de agradar, medo de desiludir os outros ou tendência para permanecer em situações que já deixaram de fazer sentido. A novidade não está tanto nos assuntos como na forma frontal de os colocar. Também por isso, não se procuram grandes teorias sobre a condição humana, mas sim, sinais, na forma de frases que funcionam como pequenas pancadas na porta, obrigando a parar e a perguntar se não estaremos a repetir comportamentos que sabemos que nos fazem mal.
É uma abordagem que poderá funcionar particularmente bem para quem se sente próximo do universo da autoajuda, embora também possa provocar alguma resistência perante respostas que, por vezes, parecem demasiado simples. Afinal, reconhecer um problema e resolvê-lo são coisas muito diferentes. E nenhum livro substitui esse caminho.
A melhor forma de ler A Minha Psicóloga Disse-me… é assumir este livro como uma sucessão de oportunidades para pensar. Até porque talvez a verdadeira psicóloga deste livro seja aquela voz que aparece após o fecharmos e pergunta: e se eu começasse por fazer alguma coisa diferente?
Tome nota
«Deixa de viver a tua vida em função do quanto queres agradar aos outros. Mesmo que te esforces por fazê-lo, acabarão sempre por te criticar (…) Faz as coisas a pensar em ti. Porque sim, seres tu mesma pode incomodar, mas fingir que és outra pessoa acaba por te matar aos poucos.»
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Deus e a Ciência – Diálogos para a Salvação do Mundo
de Carlos Fiolhais
D. Quixote (lyvros.com)
Se existem algumas perguntas que a Ciência, assim, como letra grande (embora o autor se “recuse” a utilizar a maiúscula…), consegue transformar em problemas, outras consegue aproximar de uma resposta e algumas continuam, apesar de tudo, a escapar-lhe. É nesse território de fronteira que Carlos Fiolhais posiciona Deus e a Ciência – Diálogos para a Salvação do Mundo.
O ponto de partida é aparentemente simples: poderá a ciência dizer a última palavra sobre Deus? A partir daí, o físico e divulgador científico percorre um caminho que passa pelo Big Bang, pelo ADN, pelas partículas elementares e pela evolução, mas também pela filosofia e pela religião. Darwin, Einstein e Hawking entram naturalmente nesta conversa como protagonistas de uma longa história de perguntas sobre o Universo e o lugar que nele ocupamos.
Fiolhais conhece bem o terreno em que se move. Professor catedrático de Física emérito da Universidade de Coimbra e autor de dezenas de livros de divulgação científica, tem uma particular capacidade para transformar assuntos complexos em matéria de leitura acessível. Aqui, essa competência é particularmente útil: o livro não “escolhe” entre ciência e fé, tentando perceber onde começam e acabam as perguntas de cada uma.
Essa procura leva-o também à história. Há episódios de conflito, naturalmente, mas também relações mais ambíguas e menos conhecidas entre a Igreja e o desenvolvimento científico. A obra revisita disputas religiosas na história da ciência e olha para o caso português, passando pelo padre António Vieira, pela expulsão dos Jesuítas e pelo chamado “milagre do Sol”. O resultado é uma história que desmonta a ideia demasiado confortável de que ciência e religião sempre viveram em campos perfeitamente separados.
Isto porque Fiolhais não parece particularmente interessado em fabricar uma reconciliação artificial entre dois mundos, interessando-lhe mais perceber o que acontece quando uma explicação científica é usada para responder a uma pergunta que talvez não seja científica, ou quando uma convicção religiosa procura apresentar-se como conhecimento científico.
Esse cogito faz com que estejamos perante uma obra que pede tempo ao leitor, fugindo de respostas rápidas ou tentativas de resolver discussões com séculos de existência. É antes um convite a desconfiar das certezas demasiado fáceis, a reconhecer os limites do conhecimento e a aceitar que uma pergunta sem resposta definitiva pode continuar a ser uma pergunta importante.
Nota final para, passe o pleonasmo, as Notas que Fiolhais apresenta nas últimas páginas que dão o contexto apropriado para melhor entender as problemáticas exploradas.
Tome nota
«Existindo diferenças substanciais entre ciência e religião, convém reconhecer, para uma melhor convivência entre as duas, que elas possuem algo em comum, o que significa que é possível estabelecer pontes entre elas. (…) Podem e devem dialogar uma com a outra, atravessando as pontes que conseguirem construir.»
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