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Futebol, coisa cool

O desporto-rei está seguro no trono das modalidades desportivas. Produz riqueza, espectáculo e boatos. Tudo o que de bom a vida tem, portanto. É uma actividade de milhões: euros, audiências e sonhos. Mas ainda não terá ultrapassado o estigma de não ser cool.

Quando era pequeno queria ser jogador de futebol. Não era propriamente uma ambição legítima. Não jogava particularmente bem nem era especialmente talentoso, mas queria crescer para jogar à bola. Era tão simples e normal como, digamos, ir para a faculdade ou casar-me e ter filhos. Fazia sentido e era uma progressão socialmente aceite q.b. para não levantar grandes alaridos, ao contrário daquelas duas semanas de 1996 em que decidi que seria psicopata. Diria que todos os meus amigos masculinos – em criança não temos outros – partilhavam o mesmo desejo profissional.

À medida que fui crescendo esbarrei na minha inaptitude atlética e percebi que nunca seria jogador profissional. O futebol tornou-se um Olimpo prometido de gratificação pessoal inantingível. E, como diz Pedro Mexia, ninguém ama os actores como quem não os pode alcançar. Os futebolistas são os meus actores preferidos ou, pelo menos, os mais constantes ao longo do tempo. Há anos maus em filmes, mas nunca há anos maus em futebol, mesmo quando a nossa equipa não ganha. É um paradoxo rico: mesmo numa época miserável haverá sempre um par de jogos de grande qualidade que tornarão tudo mais suportável. Os futebolistas são os meus actores preferidos, já disse. Provavelmente já me emocionei tanto a ver futebol como filmes, a ler ou a ouvir música.

Depois desta introdução confessional, a coisa cool em si. Por alguma razão que desconheço ao futebol é sempre vedado o estatuto de coolness. Há qualquer barreira mental que proíbe uma coisa que faz suar de ser fixe. Há algumas excepções. Por exemplo, os Jogos Sem Fronteiras, invenção demoníaca do pan-europeísmo militante, fazia suar (e rir) e é consensualmente considerado fixe via cenas irónicas e/ou nostálgicas são cool. Talvez por não ter grande aptidão para chutar, driblar e dar toques tenha aprendido a apreciar o futebol noutras vertentes e em manifestações encapotadas de cool.

Passo a explicar. O futebol tem ligações a qualquer área, a qualquer campo do saber ou a qualquer forma de arte que queiramos. Aliás, as metáforas sociais, políticas e artísticas aplicadas ao futebol são uma vertente fascinante do que estou a tentar demonstrar. Importa, para já, contrariar alguns mitos. O da violência, por exemplo. O mundo do futebol não é mais violento do que, digamos, o da literatura (Burroughs matou a mulher, Rushdie tem uma fatwa à perna) ou o da música (nem vou comentar). Outro erro do senso-comum é o baixo QI dos seus intervenientes. Os casos de cavalheirismo e erudição abundam, mas, mesmo que isso não acontecesse, é uma exigência absurda: um jogador de futebol precisa tanto de ser inteligente ou bem-falante como um artista precisa de ser boa pessoa e um modelo de comportamento. O terceiro grande argumento anti-futebol é o da corrupção e tráfico de influências, sendo bastante injusto associar estes fenómenos a uma actividade em particular já que eles se manifestam em qualquer negócio.

Quando alguém me diz que um jogo de futebol não tem interesse por não estar a jogar a minha equipa – geralmente com a intenção de me convencer a mudar de canal – cai numa enorme falácia cool. Faria algum sentido demover uma pessoa da intenção de ir a um museu, por exemplo, para ver a exposição de um autor que não é o seu preferido (no caso dos clubes) ou que não é português (no caso das competições entre nações)? Não, não faria. O futebol vale enquanto coisa cool por si mesma. Um grande golo é um grande golo, um momento de enlevo, inspiração irrepetível – mesmo quando é na “nossa” baliza, mas sobretudo quando é na dos outros. Não sou apreciador de dança contemporânea, mas tenho o futebol.

Para mim não há bailado ou coreografia, dança de geometrias, palco para o improviso ou para exuberâncias físicas e emocionais tão cativantes como o futebol. Sei que seria capaz de ficar a ver aqueles filmes realizados ao nível do relvado durante dias. Gosto dessas películas porque o futebol parece uma coisa completamente nova. Mais que nova, melhorada. De facto, assistir a esses filmes consegue ser mais interessante do que ver um jogo em condições normais. Subvertem a função colectiva do jogo porque geralmente se concentram num único jogador de cada vez.

O futebol deixa de ser 11 contra 11 e passa a ser o monólogo de uma cavalgada. Não me comove ver fotografias da Pietà de Miguel Ângelo, mas ver o segundo golo do Maradona à Inglaterra no Mundial de 1986 faz-me ter fé na humanidade. Podia continuar a dar exemplos. Mais um: entusiasma-me mais conversar sobre o futebol total da Holanda (referência cool ao “Laranja Mecânica” de Kubrick) da década de 70 do que discutir a Primavera Marcelista.

Há duas publicações que contribuíram decisivamente para a minha visão holística do futebol. A revista Mundial e o jornal A Bola. Fui assinante da primeira durante alguns anos, mas não durou muito até acabarem com esse almanaque desportivo. Ficaram as boas recordações, o reembolso do valor correspondente aos números que estavam pagos e que não mais seriam impressos e o saco de ginástica como oferta da primeira assinatura anual. A Mundial era o The Economist do futebol, tratando as matérias com grande paixão e enquadramento histórico. Aprendi muito com esta revista, até decorei o hino do Flamengo o que me permitiu impressionar estudantes brasileiras alguns anos mais tarde. Guardo todos os números como se fosse a Encyclopédie de Diderot.

Mais tarde, sairia da orfandade editorial quando, depois de fiel ao Jogo e ao Record, passei a comprar o jornal A Bola. Gostava do formato e dos textos. Não estou a falar da prosa generalista sobre o dia-a-dia da pré-época, mas das crónicas de jogo, da importância dada ao internacional e da qualidade e variedade de opiniões (a coluna do Luís Freitas Lobo fez escola). Os meus anos de liceu foram passados a ler A Bola e ainda hoje, quando compro ocasionalmente o jornal, sou transportado para esse triénio.

O que me leva para a conclusão em jeito de voltar ao princípio: a nostalgia. Qualquer coisa pode ser cool se associada a uma recordação feliz. Até as memórias infelizes contam. As memórias tristes no futebol são como cicatrizes-medalha, uma verdadeira bomba nostálgica. Acho que qualquer pessoa que goste muito de futebol consegue passar tanto tempo – e com tanto gosto – a desfiar os dois tipos de recordação. Sei dizer com igual nível de detalhe o que fiz e almocei em 2004 quando ganhámos à Inglaterra ou quando perdemos a final. Sou um repositório de dados inúteis, estatística, queixas, onzes-ideal, bitaites, equipamentos alternativos e penaltis falhados. O futebol para mim é teatro, cinema, bailado, música, literatura, sociologia, matemática, psicologia invertida, moda e nostalgia. Muito cool, mesmo.



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