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Gogol Bordello @ Campo Pequeno

Fosse esta a primeira vez…

Quando chegamos à Praça de Touros do Campo Pequeno, a festa já é rija – os Che Sudaka, a banda responsável pela primeira parte de mais uma visita dos Gogol Bordello a solo nacional – é já a sexta -, tem os ingredientes certos para animar esta plateia. Influências latinas – Argentina e Colômbia são os países de origem dos membros da banda que reside em Espanha -, reggae e punk numa amálgama que se torna por vezes dançável e perfeita para uma plateia que precisa de aquecer.

Quando os Che Sudaka saem de palco sentamo-nos ao lado de um casal que junto faz, com toda a certeza, mais de um século de vida. As habituais cervejarias ambulantes passam a toda a hora – entre outros comércios como o das queijadas e o dos gelados – e um dos vendedores pára para servir o referido casal, mas a imperial sai mal tirada, com espuma a mais. Não há que ter vergonha – até porque, relativamente à idade, temos Sergey Ryabtsev em palco, o violinista dos Gogol Bordello que dá o exemplo. Quanto à cerveja, atente-se a toda a banda – as notas ao lado, a pronúncia terrível de Eugene Hutz e as canções que só sobrevivem ao vivo. Neste caso não importa se a cerveja foi mal tirada – importa sim, o facto de estar ali, disponível, pronta a ser tomada com calma ou entusiasmo.

Longe vão os tempos em que a banda de Eugene Hutz se apresentou em Paredes de Coura num concerto louco, mítico e para sempre lembrar. Em Portugal, as salas continuam cheias para os receber – esta foi a segunda vez em nome próprio, no Campo Pequeno -, mas a coisa vai esmorecendo com o passar do tempo. Já não sentimos aquela sensação de que tudo pode acontecer, porque já vimos tudo isto ao vivo, várias vezes. Em nome próprio e em festivais, vários. Impressiona, isso sim, a forma como estes miúdos enchem as salas de espectáculo, dia sim, dia não. Tudo por um bom momento, um escape à rotina diária em que são lançados, um futuro sem perspectivas, o caos de um mundo que os leva a reverem-se nos Gogol Bordello. Eles sabem que estes tipos não são a melhor coisa do mundo todos os dias, mas são-no naquele momento em que entram em palco e lançam temas imediatamente reconhecíveis como «Ultimate», «Wonderlust King» ou «Start Wearing Purple».

Existem bandas para as quais o verdadeiro teste é o espectáculo ao vivo. Com os Gogol Bordello, as coisas ficam de pernas para o ar, o teste é em estúdio e o fora dele são favas contadas. Aliás, na última década, afamaram-se estas trupes capazes de criar momentos incríveis em palco. Se os Arcade Fire vão direitos ao nosso coração, os Gogol Bordello são saltimbancos, tipos de ar cool, cada um mais carismático que o outro e alegres foliões que contagiam plateias por esse mundo fora.

Mas importa trazer de novo à tona o factor “novidade”. E os Eugene Hutz e companhia bem tentam variar o espectáculo: Pedro Erazo (infelizmente) ganhou protagonismo na banda – acaba por ser uma dispensável extensão de Eugene, mas sem carisma -, a adição de alguns elementos electrónicos e algumas palavras ditas em português (?) – coisas não muito didácticas, talvez ensinadas pelos Che Sudaka, como “Puta qui pariu”, “Trazemos música fodido bebedo style” e “caralho”). Para o fã isto será mais que suficiente, para o ouvinte casual, que já viu os Gogol Bordello uma infinidade de vezes, isto fica um pouco aquém.

No início do encore, com o regresso da banda ao palco, parecia que tinha tudo começado outra vez – mosh, crowdsurf, perucas de Carnaval aos saltos – e, no fim, os membros dos Che Sudaka juntam-se à banda, ou seja, ficam 13 indivíduos em palco – sem azares. A fórmula começa a cansar, é verdade, mas, ainda assim, os Gogol Bordello continuam a ser uma das bandas mais entusiasmantes do mundo, ao vivo, e foram, sem dúvida, a mais convincente proposta para este Carnaval. Tivesse sido a primeira vez e teria sido fantástico.



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