“Hav” | Jan Morris

“Hav” | Jan Morris

Os romances nascem das lacunas da história

Ultimamente, no que diz respeito ao mundo das letras em Portugal, a realidade geográfica tem perdido terreno para o fértil terreno da imaginação. E tudo por culpa da Tinta da China que, não contente com a publicação do colossal “Dicionário dos Lugares Imaginários”, em que Alberto Manguel e Gianni Guadalupi fizeram um levantamento sobre as viagens e lugares sonhados pela literatura, edita agora “Hav” (Tinta da China, 2014), livro onde Jan Morris inventou uma cidade-estado, localizada algures no Mediterrâneo oriental, resultado de mais de quarenta anos a deambular pelo mundo e a escrever sobre ele.

O livro é uma joint venture de dois livros escritos por Jan Morris em épocas distintas – “Últimas Cartas de Hav” e “Hav dos Mirmidões” -, e nele vemos a história – ou grande parte dela – percorrer as ruelas labirínticas de Hav, cidade enfeitada com cúpulas e minaretes e abençoada por religiões de muitas cores.

A história surge aos olhos do leitor como uma alegoria do mundo moderno ou, como Jan Morris pretendia, «uma alegoria difusa, disfarçada de entretenimento.» Dela falarão Marco Polo ou D. H. Lawrence, e não faltará visitantes notáveis como Hemingway, Thomas Mann ou James Joyce, fazendo de Hav uma meca da sabedoria e do conhecimento, um espaço geográfico carregado de nostalgia e feito de afectos que parecem resistir à derrocada do mundo.

Hav é um lugar onde o propósito da vida parece estar indefinido, numa rotina monótona que convida à introspecção. Contam-se lendas, fala-se qualquer língua num estranho mercado, estabelecem-se hábitos arreigados.

A segunda parte do livro está pintada em tons mais negros, correspondente a uma segunda visita da escritora à cidade (2005), vinte anos depois da primeira passagem (Morris diz dela ter saído precisamente quando a catástrofe se abateu sobre ela, para a ela regressar vinte anos depois e a encontrar ressuscitada). Vive-se agora um ambiente mais pesado, onde a natureza surge transformada, o homem mais perigoso e a vida menos bela.

«Os romances nascem das lacunas da história», escreveu um dia Novalis. No caso de “Hav”, tratou-se também de a perfumar com o spray da imaginação, inventando uma cidade onde acaba por caber o mundo inteiro erigida a partir da pena de Borges. Não procurem mais: está encontrada a nova Babel.



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