“Viagens” | Paul Bowles

“Viagens” | Paul Bowles

Volta ao mundo com Paul Bowles

Em Março de 2007, o CCB dedicou um ciclo à vida e obra de Paul Bowles, que incluiu cinema, concertos, leituras e uma exposição de fotografia. O acontecimento foi uma pequena epifania para muito bom leitor português, que partiu então à descoberta dos seus livros para lá do eterno “O Céu Que Nos Protege”, (mal) adaptado ao cinema por Bernardo Bertolucci.

Viagens” (Quetzal, 2013) é o mais recente capítulo da obra de Bowles a ganhar a luz da edição nacional, um inédito que reúne os relatos de mais de quarenta anos de viagens pela Europa, África, América Central e Ásia. Os “escritos”, apresentados por data de publicação – com raras excepções -, abrangem «diários orientados pela viagem, introduções a livros de fotografia (Bowles foi um colaborador generoso), e até um entusiástico glossário de termos relativos ao kif para um livro sobre a canábis nos anos 60» (Mark Ellingham, o editor inglês, na introdução).

Na brilhante e muito bem-disposta introdução a “Viagens”, Paul Theroux, um dos viajantes maiores da literatura, apresenta um esboço de um BI de Bowles, cujos traços se irão reflectir em cada um dos textos, sejam textos para revistas de viagens ou livros futuros – reais ou imaginários – entradas de diário ou poemas camuflados pela vegetação da prosa: «Estabeleceu o seu nome enquanto compositor, escrevendo a música de imensos filmes e peças teatrais. Foi um etnólogo musical, um dos primeiros a registar canções e melodias tradicionais em aldeias remotas de Marrocos e do México. Escreveu romances e contos. Escreveu poemas. Traduziu romances e poemas do espanhol, do francês e do árabe (…) Por isso a alma decadente e lânguida do estereótipo foi afinal a de um homem muito atarefado, altamente produtivo, quase um escravo do trabalho.»

Nestas páginas cabem Paris, a Costa del Sol, o Ceilão, a Tailândia, o Quénia, a Índia ou, por exemplo, a Madeira, que lhe tinha sido desaconselhada pelos seus amigos ingleses: «Não tem carácter nenhum. (…) Ninguém vai lá a não ser as senhoras muito idosas.» Bowles, um adepto do ver para crer, pintou um retrato com outras cores, e até deixou no ar a ideia do regresso: «Sabe-se agora que um tal lugar existe e que poderemos voltar a ele um dia se quisermos, e é satisfatório ter-se essa certeza.»

Mais descontraído do que a roupagem que vestia com muito estilo no campo ficcional, esta é uma oportunidade para conhecer uma outra faceta de Paul Bowles, empreendendo uma pequena volta ao mundo. Ou, em alternativa, para conhecer um dos mais melancólicos escritores com alma de eterno viajante.



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