Henry Rollins

Henry Rollins

Homem Armagedeão

Por estes dias é difícil saber o que é punk rock já que há livros que dizem que foram os Mata-Ratos que o inventaram ao mesmo tempo que há géneros musicais com a palavra core, sem relação aparente com o hardcore, para todos os gostos e desgostos. Aparentemente o que começou por ser uma forma de dissidência e rapidamente se transformou em mais uma tribo urbana vítima do consumo massificado, hoje mais não é do que uma mera influência musical, quando não puramente estética. A atitude, na qual o punk foi edificado aparentemente ficou diluída algures no meio da tinta para o cabelo e dos cintos de picos à venda em qualquer loja de roupa de centro comercial.

Isto tudo para dizer que punk para uns será uma coisa e para outros será outra e que dê lá por onde der, após a morte de Lemmy Kilmister não restarão muitos que possam envergar a bandeira do género orgulhosamente, isto se o punk fosse apenas um género musical e possuísse uma bandeira para hastear.

Tal como Ian Mackaye, Lemmy, Iggy Pop ou Glenn Danzig também Henry Rollins transcendeu o mero espectro musical que o pariu, sendo hoje em dia mais um homem do renascimento em modo punk-rock do que a mera soma das suas partes individuais: actor, músico, apresentador, performer ou activista.  Depois de tours em Black Flag que mais se assemelhavam a missões do Daesh e concertos que podiam facilmente ser em Bagdad do século XXI, nada seria mais natural do que, às mãos de Rollins, nascer uma espécie de filosofia pós-moderna do punk-rock. Ah claro, podemos sempre chamar-lhe vendido por fazer filmes para Hollywood, gravar discos para multinacionais e fazer programas para a televisão, mas se em 2015 ser punk se resume a cantar contra o sistema numa editora independendente, seja lá isso o que for actualmente, então façam o obséquio de entesar as vossas cristas pelos Sum 41 ou pelos Blink 182.

Também podemos escolher ignorar as suas palavras certeiras como uma seta da besta de Daryl em “The Walking Dead” sobre os mais variados assuntos, apenas porque o seu sarcasmo nuclear é um aríete que requer mais do que uma investida, ao invés da generalidade das letras contestatárias que se resumem a palavras de três sílabas, que podem não angariar identificação junto da maioria do publico pós-trinta sobre-estimulado pela velocidade estonteante da sociedade de informação. Como uma Patti Smith em estéroides, tudo isso se sente nas suas letras poderosas e raivosas como em “One Shot” onde somos desafiados a enfrentar o Rollins em modo animal efervescente ou em “Liar”, retrato do sofrimento de viver entre a a falsidade armadilhada das feras devoradoras do mundo capitalista moderno. Também nos seus textos, diários ou spoken words a frustração é destilada de forma incisiva e devoradora como que um bisturi na mão de um serial killer experiente e esfomeado.

Porque em 2015 contestar o sistema a partir de fora é basicamente oferecer-lhe mais uma munição para atingir, a opção mais eficaz poderá ser destruir a partir de dentro via anarquismo individual à Max Stirner, algo que Rollins desperta no assalariado agrilhoado dentro de cada um de nós.

Porque chega uma altura em que o fogo tem de ser combatido com fogo para que tudo arda.

Black Flag – Nervous Breakdown (1984)

Henry Rollins – Liar

Henry Rollins – Talking From The Box



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