«Histórias Paralelas»: Farhadi espia a ficção por um telescópio
Isabelle Huppert, vizinhos espiados e um manuscrito que muda de dono: Farhadi regressa a Paris num filme que dividiu Cannes.
Asghar Farhadi regressa a Paris com «Histórias Paralelas», uma história de vizinhos, manuscritos e vigilância que passou em competição no Festival de Cannes, em maio, e estreia esta quinta-feira, 15 de outubro, nas salas portuguesas. Isabelle Huppert interpreta uma escritora em busca de inspiração; Adam Bessa, o jovem que lhe vira a vida do avesso; Virginie Efira, Vincent Cassel e Pierre Niney completam o elenco. Para quem procura cinema independente entre as estreias Portugal desta semana, é o título de autor mais evidente — e um dos mais divisivos.
O ponto de partida: uma janela, um telescópio e um romance por escrever
Sylvie, escritora, procura inspiração para o novo livro e encontra-a onde tantas ficções começam: na janela em frente. Espia os vizinhos do prédio fronteiro — segundo a imprensa que acompanhou a estreia em Cannes, três pessoas que trabalham num estúdio de sonoplastia — e imagina-lhes uma intriga amorosa torcida. Para a ajudar nas tarefas quotidianas contrata Adam, e é aqui que a premissa dá o salto: a ficção que ela inventa para os outros começa a competir com a realidade de todos os envolvidos.
O argumento, assinado por Farhadi, inspira-se livremente no «Decálogo» de Kieślowski e Piesiewicz, em particular no sexto episódio, «Breve História de Amor», onde um jovem espia uma mulher através de um telescópio. A referência não é inocente: Zbigniew Preisner, o compositor habitual de Kieślowski, assina a música do filme. Farhadi, que desde 2023 vive fora do Irão, disse a propósito do filme que brincar com a estrutura é uma linha que normalmente não atravessa — um indício de que «Histórias Paralelas» procura ser mais do que mais um drama moral de câmara.
A linguagem do filme: do espaço doméstico ao dispositivo narrativo
Farhadi construiu a sua reputação em interiores — apartamentos, tribunais, corredores — onde a tensão nasce da informação que circula mal, da meia-verdade que se propaga. Em «Uma Separação», que lhe valeu o Urso de Ouro em Berlim e o Óscar, e em «O Vendedor», também premiado com o Óscar, a câmara era quase sempre testemunha discreta. Aqui, o ato de olhar é o próprio tema: há quem espie, quem seja espiado e quem escreva sobre o que viu. A fotografia é de Guillaume Deffontaines e a rodagem decorreu em Paris, entre setembro e dezembro de 2025.
Nas imagens de divulgação percebe-se uma opção por espaços carregados de objetos — a secretária de Sylvie, soterrada em papéis, ou a mesa de mistura do estúdio onde trabalham os vizinhos. São cenários que dizem o essencial: um lugar onde se escreve e um lugar onde se fabrica som, duas formas de construir uma realidade que não é exatamente a que está à vista. A duração, perto de duas horas e vinte, é um dos pontos mais discutidos pela crítica.

As personagens e o que carregam
Huppert é Sylvie, figura de escritora célebre que parece viver mais no que imagina do que no que a rodeia. Adam Bessa dá corpo a Adam, o jovem que entra na sua vida como assistente e que, a certa altura, entrega a uma das vizinhas o manuscrito rejeitado pela editora de Sylvie, apresentando-o como obra sua. A partir daí, as personagens do outro lado da rua começam a reproduzir passagens do texto, num jogo de espelhos em que a literatura deixa de ser comentário e passa a ser causa. Catherine Deneuve integra o elenco no papel da editora.
Virginie Efira, Vincent Cassel e Pierre Niney compõem o núcleo dos vizinhos, e é sobre eles que recai a pergunta central do filme: até que ponto somos autores das nossas vidas ou meras personagens num texto escrito por outro? Farhadi, atento como sempre aos pequenos desvios morais, deixa que cada decisão — esconder, mentir, reescrever — tenha consequências que ultrapassam quem as toma.

O que o filme diz (e o que cala)
Por baixo do thriller de vigilância corre uma reflexão sobre autoria, apropriação e responsabilidade: quem é dono de uma história, quem responde pelo que ela provoca? Há ecos hitchcockianos — a «Janela Indiscreta» é invocada por parte da crítica francesa — e uma herança kieślowskiana assumida, mas Farhadi desloca-os para o seu território, o da ética quotidiana, onde ninguém é inteiramente culpado nem inocente.
A receção em Cannes foi acentuadamente dividida, e convém dizê-lo sem rodeios. O Avoir-alire falou de «outra pepita» na filmografia do realizador; o Screentune de um «fascinante jogo de espelhos»; já a Cineuropa considerou-o inexplicavelmente longo e sentimental. Nos agregadores, a média ficou abaixo do que o realizador costuma colher. O filme não ganhou qualquer prémio na Croisette. Cabe ao espectador decidir de que lado da barricada fica — e é essa a graça, ou o risco, de um filme que fala precisamente de quem lê e de quem escreve.
Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
É um filme para quem acompanha Farhadi desde «A Propósito de Elly», para quem tem fascínio por Huppert e para quem aprecia jogos metaficcionais em ambiente realista. Quem espera o rigor claustrofóbico de «Um Herói», Grande Prémio em Cannes, poderá sentir-se desorientado; quem aceita a ambição do dispositivo terá matéria para discutir à saída.
Em Lisboa, «Histórias Paralelas» passa no Cinema Medeia Nimas de 15 a 22 de outubro, com nova sessão a 2 de novembro, e também, segundo a listagem das estreias, no Cinema Ideal. No Porto, está no Teatro Campo Alegre (15 a 21 de outubro) e no Cinema Trindade; em Setúbal, no Cinema Charlot. É falado em francês, com legendas em português.
Nota final
«Histórias Paralelas» chega a Portugal rodeado de discordância, o que, em tempos de consensos fabricados, até lhe assenta bem. Não será o Farhadi mais depurado, e talvez não pretenda sê-lo: é uma obra de risco, a de um cineasta exilado que mexe nas suas próprias regras e pergunta o que sobra de uma história quando ela escapa a quem a conta. Entre o cinema de autor europeu que chega às salas este outono, merece ser visto — para ser defendido ou contestado, mas visto.
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