Les saisons – Épisode 2

A série que a ARTE escondeu e a RTP Play trouxe para Portugal

"As Estações", a primeira série de Nicolas Maury, segue um triângulo amoroso ao longo de trinta anos — e chegou esta semana à RTP Play.

«As Estações» (título original «Les Saisons») é a primeira incursão de Nicolas Maury na realização televisiva, uma minissérie francesa de quatro episódios produzida pela Windy Production para a ARTE. Chegou esta semana ao catálogo da RTP Play, onde está disponível na íntegra e em exclusivo para Portugal. Segue três amigos de infância — Camille, Alexandre e Martin — ao longo de trinta anos, dos anos 90 até à atualidade, numa costa atlântica francesa que muda tanto quanto eles. Vale a pena parar para isto agora, antes que a série se perca entre as estreias da semana: é um regresso ao cinema de sentimentos contidos, sem grandes golpes de argumento, com Lucas Bravo (sim, o de «Emily in Paris») a mostrar um registo bem mais discreto e interessante do que o habitual.

O que é «As Estações»: a premissa

Tudo começa no verão de 1991, numa estância balnear da Vendeia, na costa atlântica francesa. Camille, com quinze anos, conhece Martin e Alexandre numa praia de Les Sables-d’Olonne. Dessa amizade de adolescentes nasce um triângulo amoroso que atravessa três décadas, com cada um dos quatro episódios a corresponder a uma estação do ano — e, por extensão, a uma década diferente das suas vidas. A estrutura é simples de descrever mas ambiciosa de executar: mostrar como um primeiro amor de verão pode continuar a determinar decisões, silêncios e regressos décadas depois, enquanto a França à sua volta também muda.

Não é uma série sobre grandes acontecimentos. É sobre paixão, silêncio e traição vistos em elipses temporais longas — cada episódio salta cerca de dez anos em relação ao anterior, deixando o espetador a reconstruir o que aconteceu nos intervalos. Essa escolha de guião, assinada por Nicolas Maury e Hélène Duchateau, é também a que mais divide a crítica francesa: para uns, é elegância narrativa; para outros, é uma série que prefere sugerir a mostrar, ao ponto de por vezes perder o espetador pelo caminho.

As Estações (Les Saisons) — imagem promocional da minisérie de Nicolas Maury
«As Estações», a minisérie de Nicolas Maury para a ARTE, agora disponível na RTP Play. Crédito: ARTE / Windy Production.

A linguagem e o estilo

O que distingue «As Estações» de um produto romântico comum é justamente a recusa do espetáculo. Nicolas Maury — ator conhecido do público francês por «Dez por Cento» («Call My Agent!») e realizador de «Garçon Chiffon» — estreia-se na realização televisiva optando por um naturalismo poético em vez de melodrama declarado. A luz da Vendeia, móvel e aérea, torna-se quase uma personagem: a crítica francesa tem descrito a fotografia da série como um espelho da vulnerabilidade das personagens, mudando de estação para estação tal como elas mudam de si próprias.

Os quatro episódios de 52 minutos funcionam como blocos quase autónomos, cada um com o seu próprio clima emocional, o que aproxima a série de uma saga familiar mais do que de um romance televisivo convencional. Há influências assumidas de Proust e do cinema de Richard Linklater — a ideia de observar o tempo a passar sobre os mesmos rostos, sem pressa de resolver nada. É uma abordagem que pede paciência ao espetador, mas que também é rara em ficção televisiva atual, onde a tendência é para acelerar tudo.

O que a série tem a dizer

Por trás da história de amor, «As Estações» é também um retrato de como a França mudou ao longo de três décadas — dos anos 90 até ao presente — vista a partir de uma pequena estância balnear e não dos grandes centros urbanos. É uma escolha geográfica que não é inocente: ao situar a narrativa na costa vendeana, longe de Paris, a série observa como as transformações sociais, económicas e afetivas chegam de forma diferida às margens do país.

Ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre paternidade, sobre o peso das escolhas feitas aos quinze anos e sobre como a amizade e o desejo raramente se distinguem com clareza nessa idade. A personagem de Nicolas Maury, Massimo, funciona como contraponto e testemunha desse trio — um papel que a crítica tem destacado como «inesperado e comovente» dentro de um elenco já de si equilibrado, com Géraldine Pailhas e Martine Chevallier em papéis secundários mas decisivos.

Quem a fez e de onde vem

Nicolas Maury é sobretudo conhecido como ator — o Hervé de «Dez por Cento» — mas já tinha experiência de realização em cinema com «Garçon Chiffon» (2020), sobre um ator gay em crise de identidade. «As Estações» é a sua primeira série, escrita a par com Hélène Duchateau, e foi anunciada pela primeira vez no Festival de la Fiction TV de La Rochelle, em 2024, antes de estrear em exclusivo na ARTE a 18 de dezembro de 2025, com os quatro episódios disponibilizados de uma só vez.

Ao elenco juntam-se Stéphane Caillard (Camille), Lucas Bravo (Alexandre) e Abraham Wapler (Martin), com produção da Windy Production em associação com a ARTE France — uma das casas europeias mais consistentes quando se trata de ficção de autor para televisão. A receção em França foi dividida mas globalmente favorável: 3,8 em 5 na imprensa especializada (16 críticas), com elogios à fotografia e às interpretações, ainda que alguma imprensa suíça e belga tenha considerado o resultado «desiludente» face às ambições do projeto.

Nicolas Maury, realizador de As Estações
Nicolas Maury assina a realização e o argumento de «As Estações», a sua primeira série para televisão.

Vale as quatro horas?

Vale, mas com um aviso: «As Estações» não é uma série para ver distraidamente enquanto se faz outra coisa. É para quem gosta de cinema francês contemplativo, de elipses que obrigam a preencher espaços em branco, e de ver atores conhecidos — sobretudo Lucas Bravo — a trabalhar registos mais contidos do que aqueles a que a Netflix nos habituou. Não é perfeita: a estrutura de saltos temporais de dez anos por episódio significa que certas transições emocionais acontecem fora de campo, e quem preferir arcos narrativos mais explícitos pode sair frustrado.

Ainda assim, é um bom exemplo do tipo de ficção europeia que raramente chega a Portugal fora dos circuitos de streaming alternativo — e a RTP Play, ao trazê-la em exclusivo para o país esta semana, dá acesso gratuito a um produto que, de outra forma, exigiria assinatura da própria ARTE ou uma plataforma paga. Os quatro episódios estão disponíveis na íntegra, o que também permite a quem preferir maratonar tudo de uma vez fazê-lo sem esperar por semanas de lançamento.

Conclusão editorial

«As Estações» resume bem aquilo que o streaming alternativo devia fazer melhor: trazer para Portugal ficção europeia que não teria distribuição comercial óbvia, sem a filtrar através da lógica do algoritmo. Não é a série mais espetacular da temporada, nem pretende ser — é um exercício de contenção, de tempo longo e de fé nos silêncios entre as personagens. Para quem anda cansado de arcos narrativos previsíveis e de reviravoltas calculadas ao segundo, esta minisérie de Nicolas Maury é um lembrete de que a ficção televisiva ainda pode ter o ritmo de um verão que não quer acabar. E a RTP Play, ao disponibilizá-la gratuitamente esta semana, faz exatamente o que uma plataforma pública de streaming devia fazer.



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