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Iberian Records

A editora Iberian Records lançou-se no mundo do Dubstep quando tudo ainda estava por fazer fora do Reino Unido. Agora, com a recente explosão de festas e produtores do género por cá, assumem – em conjunto com a dupla Octa Push – uma relevância ainda maior. Importa conhecer estes intervenientes e saber como tudo começou.

Quando há uns anos por cá se ouvia falar pela primeira vez de Dubstep – a mais recente mutação do contínuo da Rave inglesa desde a reformulação do Hardcore no início dos anos 90 através de cenas como o Jungle, Drum N Bass e UK Garage – o estilo já se encontrava consolidado num híbrido de matriz rítmica minimalista, com pouca percussão e com uma abstracção que parecia sabotar o seu apelo de pista. Aquilo que parecia faltar estava na mistura de outra forma (Bass!) e na passagem do som pelos veículos usuais de promoção faziam-se tantos entusiastas como cépticos.

A Bass culture e o Dub presentes desde as primeiras variações inglesas da House (primeiros lançamentos da Warp, Testone, etc) sempre acompanharam este contínuo, mas a  produção Dubstep deu um papel ainda mais consequente aos graves. A mistura final abria caminho aos Subs e os elementos das faixas desviavam-se do caminho do Bass. O impacto era literalmente físico. Não da maneira como costumamos encarar “físico”  na música de dança – normalmente associado a um carácter percussivo que apela ao movimento do corpo – mas sim através de uma pressão sónica que causa movimentação de ar brutal e ataques de som quase fantasma, de tão pouco auditivos ou convencionalmente musicais.

É também sobejamente conhecido o papel seminal das noites Forward no clube Plastic People em Londres – a festa mensal que fez a ligação entre uma ressurreição mais experimental do UK Garage e o início daquilo a que se veio chamar Dubstep – oferecendo um soundsystem já lendário ao som dos dubplates mais exclusivos de muitos putos, hoje figuras-chave de um género que não parou e entretanto já originou novas variações e estilos.

As particularidades deste som e a sua natureza mutante mantinham-no aparentemente hermético em relação ao resto da Club Culture e as infraestruturas onde se desenvolveu sempre foram DIY. Este espírito deu frutos e rapidamente surgiram programas em rádios pirata, blogues, noites e editoras como suporte à música. A militância espalhou-se aos poucos por outras cidades europeias e hoje em dia praticamente todo o mundo civilizado já sofreu de alguma forma a sua influência.

A editora Iberian Records surge assim como uma aliança entre dois pólos isolados que acompanharam com atenção as transformações que aconteciam em Londres. Em Lisboa tínhamos a dupla de DJs Unidade Sonora, a representar o braço português da aliança, e em Barcelona os produtores / técnicos de som ingleses 23Hz & Numaestro.

Depois de se terem conhecido na primeira festa DMZ em Londres, em 2006, decidiram juntar forças para criar uma plataforma editorial ibérica que pudesse, não só fomentar e apoiar produção bass-heavy, mas sobretudo meter as duas cidades no mapa do Dubstep.

Unidade Sonora / Conspira

A dupla Unidade Sonora são Nuno Quartilho e Luís Cruz – Xu e Roka respectivamente – e desde que decidiram que havia um trilho comum a percorrer que estão associados a constantes ramificações e mudanças de nome: Brigada, Conspira, Dark Swing, Unidade Sonora e Unidade Gráfica.

A sua noite mensal Dark Swing começou no bar Fluid (que deu lugar ao Mini-Mercado) e agora acontece no Clube Rua, na Rua da Barroca do Bairro Alto.

Criaram também o programa de rádio Transmissão Conspira, que ao surgir numa altura de escassez total  de divulgação radiofónica Dubstep fora do Reino Unido, conseguiu chamar a si uma audiência global. Acontecia todas as quartas na RIIST – a rádio estudantil do Instituto Superior Técnico que mudou mais tarde para Rádio Zero – e rapidamente começaram a receber todas as novas edições antes do lançamento, para que fossem tocadas no programa.

A pré-história da dupla

Conheceram-se em 1999 através de amigos comuns e rapidamente perceberam que estavam na mesma página no que toca a música mas, apesar de ambos trazerem consigo alguns anos como fãs de Jungle/Drum N’ Bass e Dub, vinham de backgrounds musicais bastante distintos.

Roka era do Hardcore / Punk – menciona Fugazi e a veia militante de Ian Mackaye na Dischord Records – e faz um primeiro contacto com a electrónica através de uma vertente mais industrial (Ministry, etc). A descoberta do Jungle foi também um momento pivotal que viria a  ligar as suas várias influências, entre elas também o Reggae e o Dub.

Xu por sua vez parte para o Reino Unido em 94 para estudar perto de Manchester e ainda presencia o último ano do lendário clube Hacienda, vivendo a Rave em vários clubes da cidade com amigos e ouvindo House e Techno através de mixtapes. Começa também a consumir discos de Acid Jazz e Bossa Nova, e no ano seguinte, à medida que ia mais vezes a Londres, começa a frequentar festas Jungle.

Quando se conheceram estavam ambos sintonizados nas electrónicas dubby e partilhavam referências como Stereotyp, Smith & Mighty ou a editora G-Stone. Cada um já tinha decidido ir sozinho ao festival Sonar nesse ano e quando o assunto surgiu decidiram ir juntos. Voltaram e a ligação através da música manteve-se, tiveram a ideia de juntar os grupos de amigos de Almada e Lisboa na mesma passagem de ano e organizaram uma festa na Zambujeira para cerca de 80 pessoas (que superou todas as expectativas de ambos).

Seguiu-se uma festa nas Caldas da Rainha em que cerca de 30 amigos se tornaram agitadores por uma noite, na Caldas Late Night, formando um grupo de nome Brigada que, segundo Roka (desmistificando o activismo do nome), era apenas “um grupo de pessoas que com alguma frequência se divertiam em conjunto”. Mas o grupo parecia perder progressivamente alguma coesão mobilizadora e os dois decidem criar a Unidade Sonora, pensada inicialmente como um braço da Brigada através do qual passavam música os dois juntos.

Xu e Roka são ambos designers gráficos e de uma sintonia também a nível das imagens decidem criar uma marca de T-Shirts numa joint venture com outro membro da Brigada – nasce assim a Conspira. A marca esteve presente com sucesso numa das edições do Mercado Mundo Mix e após isso ficam os dois também sozinhos a encabeçar esse projecto. Segue-se um período de colaboração criativa fervilhante, tanto no som como a nível gráfico, e quando Roka compra um CD chamado “Garage Dubs” dá-se um ponto de viragem importante para a dupla.

Join the dots: do Garage ao Dubstep

A compilação teve um impacto tão forte que o foco dos dois passa a ser perseguir as faixas da compilação em vinil e familiarizarem-se com este som, que era essencialmente uma variação (neste caso versões) do som 2 Step ou UK Garage – um fenómeno inglês que, na sua manifestação mais acessível, já assaltava os tops britânicos com alguma regularidade. No entanto, este Garage era diferente: rude, reduzido aos drums e baixos potentes e muitas vezes assumindo uma influência mais ragga, menos fancy.

O único nome de referência que tinham para guiar a procura era o de Zed Bias, e ao pesquisar deparam-se com um programa de rádio na internet cujo anfitrião era nada mais nada menos que Kode 9 – antes de qualquer release e numa fase em que a Hyperdub não era mais que o seu blogue dedicado a sonoridades pós-Garage, as mesmas que dariam depois origem ao Grime e Dubstep. Xu contacta-o para saber que discos e artistas eram aqueles, e como comprar o vinil. Kode9 encaminha-o para a luz: loja Big Apple, o site dubplates.net e a webzine Hyperdub.

Daqui até ao nascimento da Iberian parece tudo ser uma ride surreal, lidando directamente com figuras como Shackleton, Appleblim, Loefah, Youngsta, Mark1, Virus Syndicate, Jay Da Flex e o próprio Kode 9, isto numa altura em que muitos deles ainda apenas sonhavam com a notoriedade e relevância que viriam a ter. Quando em 2006 vão juntos a Londres caem exactamente no centro da cena: visitas à Rinse FM através de Kode 9, boleias da crew Ammunition para a noite Forward, a primeira festa DMZ e serão em casa de Shackleton (que lhes dá as suas primeiras faixas em CD-R! Wow).

Quando regressam metem mãos à obra, criando a Dark Swing, a Transmissão Conspira, mas também colaborando com iniciativas como a Roots & Routes – trouxeram cá Kode 9 & The Space Ape (ao vivo), Various Productions (que mais tarde lançaram o seu álbum na enorme XL Recordings), entre outros.

Através do papel de moderador no Dubstep Forum de Inglaterra, Xu conhece um produtor português: Mushug, que viria a formar a dupla Octa Push com o seu irmão Dizzycutter. Trocaram emails e desde as primeiras produções que a Unidade Sonora viu grande valor e apoiou estes rapazes.

Em 2009 este respeito foi materializado no 3º lançamento da Iberian: o “Octa Push EP”, lançado no mês de Novembro e com direito a festa de lançamento no Clube RUA, e por esse motivo a RDB fez umas questões à dupla.

O que é o projecto Octa Push?

Somos dois irmãos da Parede, Dizzycutter e Mushug. O projecto começou em meados de 2008, já produzíamos separadamente. Andávamos a falar em unir forças há tempos e criar um projecto live. O pessoal da Conspira marcou-nos um gig no Porto Rio e aí tivemos mesmo que avançar com isto. Fizemos algumas músicas, improvisámos um live bastante wack, mas a cena acabou por resultar. Depois, convite atrás de convite, a cena acabou por se tornar mais séria. Tocamos na maioria das vezes em live-act, embora também façamos DJ set. Estamos a preparar um conceito live “band” para o próximo ano.

Como é que se juntaram à Iberian Records?

Conhecemos o Xu da Conspira/Unidade Sonora em 2005 e mais tarde o Roka. Um de nós (Mushug) enviava malhas e chegou a tocar bastantes vezes com a Unidade Sonora, talvez por serem dos poucos projectos de dubstep da altura. Ficámos amigos e calhou eles terem engraçado com as faixas de Octa Push, desafiaram-nos para um 12″ e acabou por surgir o Deixa 12″.

Quais foram os pontos altos da vossa carreira até agora?

Foi talvez tocarmos em sítios como o Fabric e festivais como Glade Festival 2009, Sonar Festival 2009, Boom Festival 2008, Amsterdam Dance Event. O nosso primeiro lançamento em 12″ foi bastante especial também. Já andávamos a sonhar há bastante tempo em ter algo que pudéssemos ter nas mãos, e assim de repente num espaço de dois meses, editámos uma série de 12”. Também o bom feedback de pessoal de quem gostamos e temos discos, como Thom Yorke, Jahcoozi, Shackleton, Untold, Si Begg, Buraka, entre outros.

Alguma ideia de como a vossa música foi parar ao Thom Yorke?

Não sabemos e nem a própria editora (Steak House) sabe. Ele deve ter comprado o lançamento ou talvez sacado de um blog ou assim. O facto de ele ter feito uma tracklist com a nossa música para o mês de Novembro no site dos Radiohead deixou-nos um bocadinho orgulhosos, já que se trata de alguém que admiramos bastante!

Acerca da vossa participação na compilação Steppa’s Delight da enorme Soul Jazz Records. O que sentiram quando souberam?

Quebu Sabe foi um dos nossos primeiros temas em conjunto e nem foi uma direcção que acabámos por tomar a nível de estilo musical, por isso sabe um bocadinho a pouco mas não deixa de ser incrível ao mesmo tempo, já que como disseste trata-se de uma enorme editora. Ficámos bastante contentes, pois também estamos ao lado do Mr Gasparov e dos Buraka… alguns dos produtores mais originais daqui da tuga. Fazendo um balanço, ter três participações tugas numa compilação desta dimensão é algo único.

Vocês têm os dois os vossos projectos a solo – Mushug e Dizzycutter. Como é que gerem os impulsos criativos de ambos e como separam aquilo que é material solo ou Octa Push?

Separamos pela sonoridade em si. Além disso há influências que um tem e o outro não, logo já sabemos à partida o que direccionar para Octa Push e o que fica para projecto a solo. Se um de nós avança num loop e ele tem uma energia mais Octa Push, acabamos por desenvolver a cena os dois.

E quais são os vossos próximos releases, tanto na Iberian como noutras editoras?

Vamos ter um tema exclusivo na Elevator Music, a primeira compilação de originais do Fabric, que conta com nomes como Martyn, Untold, Shortstuff, Hot City, Starkey, Caspa & Rusko, entre outros, e que sai em Janeiro de 2010. Outro original vai sair numa compilação da Enchufada lá para Fevereiro. Acabámos também de fazer remixes oficiais para Jahcoozi e Teratron que vão sair brevemente, e estamos a trabalhar em mais um lançamento em vinil pela Iberian Records, entre outras coisas que não podemos divulgar para já. Entretanto com isto, vamos acabando por atrasar o que é para nós o objectivo para 2010 que é um CD de originais.



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