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Guilty Pleasures

Experiências, Imagens & Sons

As melhores alturas da minha vida, e julgo que acontece com todos, são agora clarões heterogéneos de uma substância qualquer parecida com a dos sonhos, e parece que a música sempre foi estruturante na formação destas memórias. A mistura de experiências, imagens e sons é provavelmente a massa de que uma faixa de música se apodera quando nos emociona pela primeira vez, e muitas vezes de uma forma completamente dissociada de qualquer padrão comunal de qualidade.

O cheese fica conosco e luta constantemente com o refinar do gosto, mas só se ainda estivermos nessa luta pela coerência, que nos pode trair e levar ao mais inóspito cinzento. Está tudo aqui já. Todas são feitas da mesma matéria: vibrações. Todas as ligações que podem ser feitas já existem. Mesmo que as intenções por trás de uma faixa a possam conspurcar, se sentimos coisas valiosas, nada falhou. Nada de novo.

A ideia de “guilty pleasures” é, como se sabe, coisa para almas gastas, que já engavetaram tudo numa espécia de morte dinâmica. Felizmente chega sempre algo que vem deitar isso por terra de novo. Caos, consolidação e depois volta ao início. Até ao fim.

O purismo é, à partida, dos esforços mais “carne para canhão” que existem, mas é sempre para ele que todos correm em busca de solidez e do “eterno”. Esqueçam. Não há nada mais eterno do que pertencer a um tempo.

É lindo ouvir a “For an angel” do Paul Van Dyk e lembrar-me das idas à praia com a minha turma de 8º ano e do crush que tinha por uma miúda chamada Liliana. São clarões cheios de olhos verdes (ou azuis?), cabelo louro e daquelas formações espectrais coloridas que vemos quando estamos ao Sol com água do mar nos olhos. Tenho sempre quantidades enormes de gatilhos deste tipo, como ouvir Corona e subitamente ter 11 anos, rodeado de primos e todos a mergulhar num tanque de água escura na aldeia da minha mãe. Sempre que ouvir a “Clumsy Lobster” dos Ernest Saint Laurent ou a “Ginger & Fred” dos Voom:Voom volto ao Lux em 2001 ou 2002.

E as misturas de coisas? Os verões em que começámos a ouvir coisas que antes não digeríamos são sempre mais bonitos. Isto porque a entrada de sons pouco familiares na nossa dieta musical vem sempre sincronizada com uma abertura qualquer de espírito que também nos permitiu abrir portas a pessoas, sentimentos e thrills que não tinhamos.

Na música de dança há purismo aos montes: ou não podemos olhar para o passado, ou só o passado tem as respostas. Muitas vezes o House surge nas entrevistas como sendo algo q abre todas as possibilidades de agregação, noutras como algo puro e definido que se tem de manter livre da conspurcação comercial. Fala-se em real House e real Techno. Real Dubstep. Não foi nada puro quando Derrick May disse à boca cheia que a Europa roubou o techno porque tinha sirenes e piano exagerados. Esse “roubo” trouxe-nos o UK Hardcore, o contínuo bass, e outras correntes impuras que nos deram a música certa para o seu tempo. A thrill certa. Real House? House nasceu quando se misturava Industrial, Disco, Pop e Italo num sítio chamado Warehouse. Ah! e nenhum acorde jazzy genérico por cima de um beat torna essa criação em Deep House. Depth é profundidade.

Ouvir, e saber se o que se sente é valioso ou não, devia chegar.



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