Jameson Urban Routes @ Musicbox Lisboa | (24.10.2014)

Jameson Urban Routes @ Musicbox Lisboa | (24.10.2014)

Nada nem ninguém poderia abalar o triunfo dos Future Islands

Há duas salas em Lisboa em que ainda está para chegar o dia em que um concerto começa à hora marcada. Quem as frequenta numa base regular já estará com certeza habituado, se bem que no meu caso a palavra mais adequada seja “resignado”. E, verdade seja dita, a culpa é de quem vai ver os concertos, que tem uma tenência impressionante para não estar no local certo, à hora certa.

São 22h. O local é o 24 da Rua Nova do Carvalho, em pleno Cais Sodré. No Musicbox, portanto. Na sala devem estar pouco mais de 30 pessoas. O palco, que não prima por espaçoso (as coisas são como são) está atulhado de instrumentos, como que para contrastar com o aspecto que a sala apresenta. Este é o primeiro momento da noite em que me ocorre que Samuel T. Herring, sobejamente conhecido pela entrega que coloca nas suas actuações e pelos passos de dança muito sui generis, vai ter problemas no que diz respeito ao espaço. Poucos minutos antes dos Memória de Peixe entrarem em palco, a luz falta no Musicbox e por momentos paira no ar o fantasma dos acontecimentos que tiveram lugar no dia do concerto de John Hopkins, ali mesmo, por alturas do Santo António, mais coisa menos coisa.

Passaram 20 minutos. Escutamos o aviso sonoro que anuncia o início do concerto: “Lembramos que a câmara fotográfica não substitui nenhum dos sentidos e pode incomodar os artistas e o público”. Se as palavras não foram mesmo estas, estavam muito próximo. Mais importante que isso, são bem verdadeiras.

Eis finalmente os Memória de Peixe. Depois da estreia homónima em 2012, da respectiva promoção e do merecido reconhecimento, Miguel Nicolau e Marco Franco, saíram do radar, pelo menos para o comum dos mortais. Saíram mas não desapareceram, como ficou bem demonstrado em palco. No fundo do palco, as projecções com múltiplas imagens de Nicolau e Franco, em loop e apenas com fracções de segundo de desfasamento, conferiam um complemento certeiro ao concerto, porque funcionavam, de certa forma, como uma extensão ou uma incursão das canções dos Memórias de Peixe no território da imagem. Foi possível escutar muitas canções novas, todas com título provisório, pelo que Nicolau preferiu não os dizer. A matriz mantém-se. Loops. Curtos. Incisivos. Tocados com uma mestria que mete respeito. Soube bem escutar algumas canções antigas mas a verdade é que ficou aberto o apetite para o novo álbum, que está previsto para Março do próximo ano.

Antes de entrar na sala dizia-se, ainda cá fora, que um dos riscos para os atrasos eram mesmo as transições de palco. Quando o palco está cheio até mais não isso torna-se mesmo uma inevitabilidade. Foram 25 minutos que acabaram por sair bem caro aos Celebration, quando apenas após uma mão cheia de canções Katrina Ford anunciou que teriam de ficar por ali. A verdade é que nem deu para aquecer, para criar uma opinião devidamente fundamentada. Na sala, durante as poucas canções que pudemos escutar, todas elas assentes numa base pop e electrónica muito dançável (a ideia aqui era realmente estender a passadeira vermelha aos Future Islands), havia muito ruído mas isso, infelizmente, não é mais do que um indicador de falta de respeito para com quem estava em palco. Fica para a próxima.

Segue-se nova transição. Em palco estão 75% dos Future Islands para agilizar o processo. Há que assegurar que Herring tem espaço para poder ser igual a si próprio. É algo essencial. Acreditem. São 00h15 e voltamos a escutar o mesmo aviso mas desta vez o pessoal está-se a borrifar. É olhar em frente e ver as câmaras dos telemóveis apontadas ao palco.

«Give us the Wind» é a primeira canção da noite e é sobre as constantes viagens, sobre andar sempre de um lado para o outro e como o encaram. Descansa-nos de imediato. O som está óptimo. Samuel Herring tem espaço para dançar. Tem uma voz incrível. Tem uma presença imponente. Os braços estão no ar e os corpos agitam-se incessantemente, porém nenhum como o de Herring. Eu sei que me vou repetir até mais não mas é inevitável. Se alguma vez virem os Future Islands ao vivo vão compreender. Durante «Back in the Tall Grass» conseguimos escutar as pancadas que Herring dá no próprio peito enquanto vai cantando “Cuz we’re a long way from home / A long way from home / How did we get here?”. “Singles” é um álbum que cumpre à letra o título que tem. Qualquer canção deste álbum podia ser um single. Sim, é assim tão bom. «A Dream of You and Me» faz-nos sonhar e acreditar; “All that glitters is gold / Don’t believe what you’ve been told / People lie, people love, people go / But beauty lies in every soul”.

Em «Sun in the Morning» é a linha de baixo que conduz a canção e que nos alimenta. «Walking Through that Door» transporta-nos a “In Evening Air” de 2010. É mais frenético e com outra irreverência. «Balance» é festa pura. Há saltos e braços no ar. Sentimo-nos bem neste momento. É daquelas alturas em que sentimos que estamos mesmo onde devíamos de estar.

É possível que tenham notado que ainda não houve praticamente nenhuma referência aos restantes elementos da banda (excluindo aquela linha sobre o baixo). A explicação é simples e óbvia; Samuel T. Herring está num plano totalmente diferente do da banda, bem mais acima e monopoliza, naturalmente, toda a nossa atenção. Atenção, não quero com isto menosprezar William Cashion, Gerrit Welmers ou Michael Lowry (que embora não integre oficialmente a banda assume o papel de baterista durante as tours). Eles fazem parte do todo. Ajudam a dar corpo às canções e sem eles não funcionava tão bem. Herring assume “só” o papel de cérebro.

A forma como se coloca por diversas vezes de cócoras no palco e nos fita olhos nos olhos é quase intimidante. É um olhar perfurante. «Before the Bridge» traz à memória “On the Water” de 2011. O regresso a “Singles” é feito ao som de «Doves» e da enorme «A Song for Our Fathers». Uma canção sobre o passado, os nossos fantasmas e acreditar; “I hear the ghost whisper / And those old eyes watching me / But I feel safe”. A carga emocional é quase palpável. «Light House» faz-nos ver o que há de melhor em nós; “And this is where we were, when I showed you the dark / Inside of me, in spite of me / On a bench in the park / You said to me / This is not you”.

Há coisas que são simplesmente inevitáveis. «Seasons (Waiting on You)» foi cantada a uma só voz, e fica a sensação que, por momentos, fomos uma entidade única. A fechar o alinhamento, antes do regresso para o encore, houve ainda tempo para escutar «Tin Man», «Long Flight» (também do “In Evening Air”) e, a fechar «Spirit», ao que seguiu uma longa e merecida ovação. Enormes. Mas não tinha acabado. Nós sabíamos disso e eles também.

O regresso ao palco é feito em tons de introspecção, ao som da «Fall From Grace». Para o final ficaram reservados «Inch of Dust» e «Vireo’s Eye», porque já não havia muito do “Singles” para tocar e porque naquele momento já nada nem ninguém poderia abalar o triunfo dos Future Islands.



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