Ben Aaronovitch

“Rios de Londres” de Ben Aaronovitch

Magia escondida na cidade do nevoeiro

Publicado originalmente em 2011, Rios de Londres (Singular 2026), de Ben Aaronovitch, tornou-se uma das obras mais populares da chamada fantasia urbana contemporânea e a recente edição portuguesa permite agora (re)descobrir o romance que inaugura a série protagonizada por Peter Grant, agente de polícia da polícia metropolitana e aprendiz de feiticeiro que investiga crimes sobrenaturais nas ruas de Londres.

Contextualizando, a vida não tem sido fácil para Peter, pois o complexo sonho de trabalhar como inspetor da Polícia Metropolitana de Londres demora a concretizar-se. Para piorar a situação, o seu supervisor pretende desterrá-lo para a Unidade de Progressão de Casos, onde o pior que lhe pode acontecer é cortar-se ao manusear a papelada. No entanto, tudo muda na sequência de um homicídio intrigante, quando Peter consegue extrair informação exclusiva de uma testemunha ocular que, por acaso, é um… fantasma.

O facto de Peter ser capaz de falar com um espectro desperta o interesse do inspetor-chefe Thomas Nightingale, que investiga crimes relacionados com o mundo da magia e do sobrenatural. E quando uma onda de homicídios insólitos varre a cidade, Peter mergulha numa realidade em que divindades se movimentam entre os mortais, e em que uma força maligna há muito desaparecida se preparara para regressar numa maré crescente de magia.

Fantasias e magias à parte, o que distingue este romance não é tanto o enredo, relativamente familiar dentro no género, mas como Aaronovitch o enraíza no quotidiano burocrático da polícia londrina. Assim, relatórios, interrogatórios e procedimentos administrativos coexistem com feitiços, divindades fluviais e criaturas improváveis.

Outra mais-valia narrativa é precisamente a maneira como Londres se transforma na verdadeira protagonista do livro. Aaronovitch demonstra um conhecimento íntimo da cidade e da sua história, transformando ruas, bairros e cursos de água em elementos centrais. Aliás, os rios e afluentes da capital britânica surgem mesmo personificados como entidades mitológicas, criando uma espécie de cartografia mágica que mistura folclore, humor e imaginação. Por outro lado, o narrador, em modo primeira pessoa, contribui para o tom distintivo do romance.

Essa conjuntura dramática permite a Peter Grant observar o mundo sobrenatural com uma curiosidade quase científica, descrevendo fenómenos mágicos com pragmatismo policial e um humor seco tipicamente britânico. Para isso muito contribui o ambiente leve e irónico que aproxima o livro de uma tradição que combina fantasia com cultura pop e comentários mordazes sobre a vida urbana contemporânea.

Contas feitas, Rios de Londres é um livro que, sim, revitaliza fórmulas conhecidas, no caso o policial, o fantástico e a mitologia urbana, mas cuja escrita ágil e um forte sentido de “lugar” resulta num retrato literário de uma cidade onde o extraordinário pode esconder-se na esquina mais banal.



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