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“Membranas” de Chi Ta-wei

Futuro submarino

Ano:2100. Devido às sucessivas agressões que a Terra foi sujeita, a Humanidade foi forçada a viver no fundo dos oceanos, ainda que à superfície reinem as multinacionais tecnológicas.

É numa das cidades subaquáticas que vive Momo, protagonista de Membranas, de Chi Ta-wei (Presença, 2025), a esteticista mais procurada e desejada que aprendeu a viver através dos outros. Para isso, desenvolveu uma membrana que protege a pela das agressões exteriores, além de transmitir-lhe todas as experiências carnais alheias.

Refugiada nessa espécie de superpoder, Momo vai aperfeiçoando a membrana, enquanto tentar escapar à sombra da mãe. No entanto, paradoxalmente, é o reencontro com essa figura maternal que traz à memória de Momo toda a sua infância e o maior dos seus desafios: questionar a sua identidade.

A narrativa segue, segura e bem amarrada a essa questão, com o escritor nascido em Taiwan a explorar o universo Queer e a levantar uma série de questões, que vão desde as relações interpessoais e no seio da família nuclear, passando por uma certa rejeição à modernidade e tecnologia, com Momo a declarar o seu ódio aos emails e videochamadas, ainda que confesse um certo fascínio pelas compras online e entregas ao domicílio, filosofia comercial que, como sabemos, se enraizou definitivamente no pós-pandemia. 

Apesar deste romance, que ameaça tornar-se um clássico da ficção científica, ter sido escrito nos anos 1990, é deliciosamente atual e “visionário”, sublinhando e questionando o valor da privacidade de dados, especialmente os ligados à nossa saúde, criticando também o excesso de protagonismo que a moda e a beleza (muitas vezes forçosamente alcançada através da intervenção do bisturi) ganharam no passado recente, com a ressalva de que é essencial cuidar de nós, com, claro, especial foco na saúde da pele, ou não fosse Momo especialista na área. 

Mas percorrer as páginas de Membranas é também um exercício de recordar outros mestres da ficção científica, não sendo estranho associar e encontrar paralelismos entre ciborgues sub-humanos presos na estratificação social ou lutas entre “gladiadores” a obras como Blade Runner ou Ghost in the Shell, não esquecendo a presença de um clone/androide, algo a tão caro a Klara e o Sol de Kazuo Ishiguro.  

Outros temas introduzidos por Ta-wei são a ecologia, com particular ênfase na fragilidade da camada de ozono, e que no caso deste livro força as pessoas a viver no fundo dos oceanos, e a discriminação social baseada na cor da pele, aqui introduzida de forma “positiva”, pois quanto mais escura for a epiderme, mais protegido se está dos raios-UV.

Por essas e muitas outras questões, falamos de um livro que, apesar de curto (135 páginas…), obriga, de uma forma deliberadamente provocadora, a uma série de reflexões sobre o ato de ser humano, sendo altamente recomendável a todos os que gostam de explorar o que pode ser o futuro, mas que não podem esquecer como o presente pode ser decisivo no jogo da sobrevivência física, mas também ética e moral, ingredientes intrinsecamente ligados à forma de como vivemos em sociedade, seja a céu aberto ou no canto mais recôndito dos oceanos.



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