“Acorda Inês – A Rosácea”, de Maria Helena Ventura
Amores proibidos, loucura e sangue
Acorda Inês – A Rosácea, de Maria Helena Ventura (Saída de Emergência, 2025), faz parte da coleção A História de Portugal em Romances, é uma nova abordagem sobre a história de Pedro e Inês e as consequências do seu amor mal fadado, inspirada em novas descobertas.
Ainda a vira quente. A cabeça tombava-lhe para o lado, os olhos muito abertos fixavam a primeira estrela. Branca partira para o céu depois de atraída a uma cilada que não merecia. Ele, seu companheiro, nunca perdoaria aos poderosos que decidiam a vida dos pobres de maneira tão impiedosa. Havia de viver para se vingar daquele a quem servira com devoção.
Neste romance, vemos um Rei louco, cruel e despiedado, obcecado com Inês, que por ele pereceu, deixando para trás os filhos, que se viram envolvidos num sem fim de enredos políticos e emocionais.
Alguém que perde facilmente as estribeiras e castiga sem dó nem piedade, até as pessoas que lhe são mais próximas.
Vemos uma Inês, apaixonada, dedicada ao seu amor, que com o passar do tempo se desilude com as atitudes de Pedro, que entende que ele não a quer legitimar, nem aos seus filhos, alguém resignado, que entende que o seu fim se aproxima, sendo um sacrifício necessário para salvar Pedro e o Reino.
O que nos conduz a Beatriz, filha do amor entre Pedro e Inês, uma infanta “bastarda”, culta, sábia, que tal como a mãe, se vê desdita, presa num amor impossível; João, ludibriado por mulher sabida, vil e ambiciosa, acaba por influenciar o destino de Beatriz.
Beatriz é o único consolo do pai, a companhia que o acalma e também quem o confronta sem medo, quando nota a sua crueldade para com os demais.
O amor que sente pelo pai é testado à medida que esta cresce e descobre mais e mais verdades.
Fernando, o legítimo herdeiro, filho de Constança, nunca evita chamar bastarda à mulher que supostamente ama, a sua meia-irmã Beatriz. A jovem por quem nutre um grande e impossível amor, alguém que diz não querer perder, mas que sacrifica em prol do Reino, e Isabel, a filha de ambos, que nasceu dessa ligação incestuosa, uma jovem tão culta e vivaz como a mãe.

Este enredo força o leitor a enfrentar a História, a pensar nos quão malogrados intervenientes destes momentos, o que deixa alguns resquícios de tristeza e revolta.
Maria Helena Ventura apresenta-nos novos dados que alteram a visão inicial do romance trágico entre Pedro e Inês. Existem saltos temporais espalhados pelo livro, onde começamos com a morte de Inês, e depois temos momentos com ela ainda viva, embora já ciente da iminência do seu destino.
Capítulos sobre Beatriz e Fernando, e a sua relação incestuosa, que por acaso macabro do Destino, juntaram as duas linhagens maternas (Constança e Inês), num ser resultado desse amor, Isabel.
Quando estudamos a História, todas as maquinações políticas, muitas efetuadas com o disfarce de amor, são descritas de forma mais fria, sucinta e direta; ao passo que ler detalhes históricos, em formato de romance, é dar vida e voz a esses personagens históricos, num quase um passo-a-passo das ditas maquinações, mentiras, segredos, ações violentas e atos de amor, o que cria de alguma forma um elo com essas pessoas, humanizando-as, mostrando o seu lado positivo e o seu lado mais negro.
Um dia viria em que partiriam ambos. Até lá a sua oração nocturna, com Fernando e Isabel no coração, seria sempre a frase inscrita na base da arca tumular do pai, em Alcobaça.
AQUI ESPERO O FIM DO MUNDO.
Acorda Inês – A Rosácea, de Maria Helena Ventura, é uma leitura aprazível, informativa e em partes, envolvente. Um relato de casais proibidos, cujas relações sofreram um revés em prol do bem-estar e futuro do Reino de Portugal.
Um romance histórico, trágico, cheio de meandros políticos, onde todos são culpados e as consequências são inimagináveis.
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