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Modalisboa Fashion Force Dia 4

Reportagem do quarto e último dia da Moda Lisboa Fashion Force 33º.

Moda Lisboa – may the force be with you

No dia em que a Moda Lisboa se despediu da baía de Cascais, tivemos um rodízio de apresentações com picos muito altos e outros nem tanto, mas onde o saldo se revelou extremamente positivo – no que refere à qualidade dos projectos Primavera/Verão e à própria organização do evento, que antecipa um salto qualitativo para as edições de 2010.

Quem disse que a gata Hello Kitty, sem expressão no rosto japonês, traria mais um desfile cliché de purpúrinas e ganchos, enganou-se. Os 35 anos da felina mais internacionalizada e enxuta do mundo, foi a inspiração para os principais criadores nacionais. A gata está crescidinha e conseguiu despertar um efeito de deslumbre, a roçar as apresentações multiculturais e bastante nobres das criações para a Barbie, a boneca a quem mais criadores se dedicaram na história… mas, desta feita, com meninas como gatas, fazer miau a cada passagem. Desde os motes orientais à vaga motard chic ocidental, a Hello Kitty foi representada em força e excelência ao som da desafiante Lady Sovereign, arrancando aplausos mesmo quando surge vestida com uma longa burka. A Catwoman tem rival, de look infantil, mas espírito claramente rebelde, ao olhar dos nossos designers.

E, de facto, que seja de notar a grande importância e impacto que a música revela na trajectória das modelos e na transmissão das colecções aos espectadores, não tivessem Pedro Pedro e Nuno Gama ganho claramente com esse aspecto.

Pedro Pedro arrancou com um forte “Shelter” dos The XX, a banda internacional revelação deste ano, arrepiando quem já há muito se abava com os leques improvisados na sala forno, onde todos os holofotes se concentram. Iniciou um desfile com peças banais numa indie trend, partindo para a surpresa dos cortes, vermelhos e azuis que transforma  a clássica “Amélie Poulain” numa glamourosa senhora da metrópole. Dos azuis e vermelhos, para os pretos e brancos, uma estação pautada por verticalidade e traços simples, valorizados no corpo das modelos por recortes, o uso dos curtos, acetinados lisos e riscas a evocar a descontracção urbana.

Na mira do homem de Lisboa, ao toque da fusão fado/pop/beat dos almadenses Oque’strada, Nuno Gama pôs na passerelle L’Homme de Lisbonne – a homenagem aos novos “rapazes do mundo”, que reflectem para ele o seu enamoramento pela nossa capital. O resultado foi ambíguo na combinação do homem clássico com aspectos muito tradicionais portugueses, a fazer cheirar a Alfama, maresia e mangerico. Tanto que não faltou o colar acessório em plástico, tão popularizado ao pescoço de Cristiano Ronaldo. Gama, qual (Re)Descobridor, apostou forte em cunhos culturais, procurando trazer ao cimo o equilíbrio entre a modernidade cosmopolita e a tradição popular que faz da cidade uma capital sui generis. Mas assim também foi a sua colecção… E não se, por isso, muito bem conseguida.

Aleksandar Protic não ganhou uma aposta Primavera/Verão. Em colaboração com a coreografa Tânia Carvalho, assumiu a batuta de um desfile inspirado na peça “Orquéstrica”. E sim, vimos ali, nas figuras esguias, o estilo clássico de uma prima ballerina, em beijes longos, justos… pálidos. A simplicidade sem grande volume viu-se apenas valorizada nos detalhes das costuras de fechos em folho, num desfilar dramático e carregado para a estação que se espera a mais alva do ano. Mulheres profundas, numa serenidade desconcertante, deixaram transparecer um look quase fúnebre ou marcha asfixiante da cidade, a sublinhar mulheres sem expressão. Deixou a curiosidade de perceber de onde veio todo aquele conceito, aquele peso teatral, que nem o dossier de imprensa ajudou a perceber.

E depois, a luz! Dino Alves fez o esperado “rebentar da bolha”, entrando com uma composição audiovisual muito bem conseguida, sob a ideia de protecção e valorização – “Protect yourself as a tresure” era o grito à gente contemporânea, compartimentada e vulnerabilizada pelos novos tempos. Ao som de La Roux, as modelos entram “going in for the kill”, num estilo girly &, assumidamente, golden. O ponto de vista da protecção pessoal/interior como se de um tesouro se tratasse, repercutiu-se no trabalho cheio de luz, sobre dourados bem exagerados e construções de acessórios a lembrar grandes impérios, deusas, rainhas, reis. Acessórios riquíssimos e um detalhe excepcional em qualquer dos looks: as toucas de Dino Alves usaram-se como novas coroas, naquele que foi um hino à beleza interior, à feminilidade e sensualidade da Mulher. Sem dúvida, a colecção mais completa apresentada neste dia, coesa mesmo que muito variada e com um conceito muito bem defendido, do primeiro ao último instante.

Dos dourados, para o próprio, Ricardo Dourado revistou os anos 90 e era grunge, construindo um look feminino muito sofisticado, com algodões mais rústicos, contrabalançados por sedas muito leves, jerseys e momentos sublimados por lantejoulas. Roupa larga e curta, os cinzentos e pretos a fazer realce sobre o calçado levantou gerou desejos por muitas das espectadoras que foram claramente desafiadas ao uso de plataformas altas, muito altas mesmo. O registo da preparação deste desfile foi um momento que pudemos registar, sendo que ainda hão de encontrar nas nossas páginas o vídeo e fotografias da encenação e montagem desta colecção.

Para terminar, Miguel Vieira, foi buscar Reflexos naturais e orgânicos a diferentes pontos do mundo, espelhando desde o exotismo oriental e exuberâncias africanas. Brincou ainda com metalizados e recortes geométricos com a opulência a jogar V/s a sobriedade, mas não foi o inovador esperado.

2 minutos antes do Adeus, com Eduarda Abbondanza

Por chamar Moda Lisboa ao evento que afinal não é em Lisboa e nem é bem no Estoril, mas sim na baía de Cascais, faz sentido perguntar a Eduarda Abbondanza – a mãe e mentora deste projecto de sucesso – o porquê desta ausência da capital durante estes últimos anos. A resposta é clara no pesar pela falta de diálogo instaurada desde o mandato do antigo presidente da Câmara Municipal Carmona Rodrigues.

Mas com os apoios privados e a clara valorização da qualidade interna apresentada, é natural que o quadro se venha a inverter, pois no seu entender “eventos como este e a Experimenta Design fazem mexer a cidade, fazem crescer a cidade e as pessoas. E o objectivo da Moda Lisboa é esse: crescer”.

Na visão da experiente Eduarda há uma clara “barreira imposta pelas entidades públicas, a legitimar estes intentos  até se fazerem estudos sobre a indústria têxtil portuguesa, o seu peso, estrutura e a importância de eventos como este para revitalizar e abrir novos canais de distribuição, que poderiam potenciar, até, investimento estrangeiro no país”.

Lança a questão: “O que é que existe cá? Onde está localizada a nossa indústria e quem é que a leva para a frente? Estamos a enviar criadores e investidores para fora e não estamos a receber. Precisamente porque somos nós próprios, os portugueses, a não legitimar os elementos que fariam uma defesa do potencial interno, aos olhos de fora, e trazer novas colaborações, investimentos, reestruturações para o bem económico e cultural do país”.

Logo, a Moda Lisboa, quando se coloca a jeito dos olhares da imprensa e mercado da moda internacional, está a fazer um trabalho que as entidades competentes não fazem, nem participam: “a Moda Lisboa é uma plataforma, inclusivamente, para potenciar o levantamento da indústria nacional e potenciar o investimento estrangeiro quando, cá, não há indicadores ou tratamentos sobre nada.” O seu projecto tem potencial e puxado com parceiro Mário Matos Ribeiro, há de continuar a dar fruto. E seja em que cidade ou arredor acontece, agradece-se.

Para o ano, o destino ainda se faz adivinhar, mas esperamos que qualquer edição venha  correr tão bem quanto esta última – uma despedida em grande. E a comoção sentiu-se.



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