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O Atalho

Sei que vou por aqui.

Passadas poucas semanas da estreia de “Hadewijch”, de Bruno Dumont, outro filme que perscruta os mistérios da fé, mesmo que de uma maneira bem diferente. “O Atalho”, de Kelly Reichardt, não explora os limites da religião (e os seus perigos), nem trata de devoções a um qualquer deus, aliás, nem se aproxima dessas questões. Aqui, trabalha-se sobre a dúvida: num caminho, num homem, num destino. E, principalmente, sobre aquilo que a aniquila e nos faz mover e confiar, para além de todas as razões, indícios, sinais e preconceitos. A fé, portanto.

Tanto assim é que Reichardt envolve o espectador nas mesmas dúvidas das personagens, libertando-o para que se abale pela sua própria fé e construa, assim, o seu próprio final. Pois “O Atalho” não tem princípio, nem fim. Começa pelo meio — sem que se perceba logo quem são aquelas pessoas, por que estão perdidas e por que se separaram do grupo principal — e acaba a meio — sem que se tenha certeza do resultado de tudo o que se passou ou quem tinha, de facto, razão o tempo todo. A imagem final, aquela árvore meio verdejante e meio seca, estabelece o ponto perfeito entre a dúvida e a fé.

Filmado em 4:3, contradizendo a vastidão das imensas planícies, sufocando ainda mais as personagens que viajam naquela pequena caravana, sem rumo, sem água, num caminho que as pode levar ao paraíso ou à perdição, “O Atalho” lembra também o minimalismo de algum cinema norte-americano dos anos 1970, que não gostava muito de se explicar, e que doseava a informação com parcimónia. O que se saúda, apesar de, talvez por medo de que não se percebessem algumas coisas, alguns diálogos e simbologias forçados (nada que destrua o resto).

Depois de “Old Joy” e “Wendy and Lucy”, Kelly Reichardt volta a filmar a América mítica (poderia dizer como outros que faz Westerns). Se nesses filmes olhou as figuras que ainda lhe pertencem, fantasmas que teimam em não desaparecer, observa agora os que a “criaram”, aqueles que se aventuraram nela, inóspita e prenha de índios ameaçadores, os venturosos que sobreviveram à viagem e à estadia. E os que ficaram pelo caminho, fantasmas por acontecer.

Michelle Williams tem sido, nos últimos tempos, muito criteriosa na escolha dos seus papéis e nos filmes em que entra. Neste seu regresso ao cinema rigoroso, parco, seco, quase abstracto de Kelly Reichardt, volta a não se enganar.

TRAILER



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